quinta-feira, 24 de setembro de 2026
NEGOCIOS

Mesmo com salário menor, trabalho híbrido conquista trabalhadores

72% das empresas na América Latina já adotaram o modelo híbrido

Otavio Augustopor em
Mesmo com salário menor, trabalho híbrido conquista trabalhadores
Estudos apontam que trabalhadores trocam aumento por qualidade de vida

Mesmo com um ritmo de valorização salarial mais lento — entre 2% e 7% abaixo do crescimento obtido por trabalhadores presenciais — o modelo de trabalho remoto ou híbrido continua sendo o preferido por uma parcela crescente da força de trabalho. A razão, segundo diversos estudos internacionais, está nos benefícios não salariais que o modelo proporciona, como maior flexibilidade, economia com deslocamentos e alimentação, e melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Um levantamento conduzido por economistas britânicos analisou dados de mercado desde 2019 e apontou que, apesar da defasagem salarial, muitos trabalhadores estão dispostos a abrir mão de parte de seus rendimentos para garantir dois ou três dias de trabalho remoto por semana. Em média, os entrevistados aceitariam uma redução de até 8% em suas rendas para continuar usufruindo do modelo híbrido.

Especialistas destacam que essa escolha vai além da questão financeira. Trata-se de uma troca: menos dinheiro por mais tempo livre, conforto e autonomia. Para muitos profissionais, esse “pacote de conveniências” representa qualidade de vida, e, por isso, supera a ausência de um aumento mais expressivo no salário.

Quem prefere o home office?

Mulheres, pessoas mais jovens, profissionais com ensino superior e trabalhadores que moram longe dos centros urbanos são os que mais demonstram preferência pelo trabalho remoto. Em alguns grupos, o ganho em produtividade também é percebido de forma mais intensa. Entre mulheres, por exemplo, a percepção de que trabalham melhor de casa é consideravelmente maior do que entre homens.

No entanto, nem tudo são vantagens. Pesquisas mostram que trabalhadores totalmente remotos têm, em média, 11% menos chances de promoção e 9% menos probabilidade de receber aumento salarial em relação aos colegas presenciais. Para os trabalhadores híbridos, essa diferença é um pouco menor, mas ainda presente. Os dados também revelam que os homens são mais penalizados nas avaliações de desempenho e progressão quando atuam remotamente em tempo integral.

Apesar desses desafios, o modelo híbrido ganha força em todo o mundo. No Reino Unido, por exemplo, trabalhadores permanecem em casa, em média, 1,8 dia por semana. A média global é de 1,3 dia. Em países da América Latina, o formato já é realidade consolidada: 72% das empresas da região já adotaram práticas híbridas, e no Brasil esse número é ainda maior, alcançando 86%. O arranjo mais comum combina dois dias presenciais com três dias remotos.

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Crescimento do home office impulsiona novas rotinas e muda dinâmica dos escritórios

Produtividade, retenção e bem-estar

Estudos internacionais indicam que a produtividade também se beneficia do modelo híbrido. Cerca de 82% dos trabalhadores entrevistados em uma pesquisa global afirmaram se sentir mais motivados e satisfeitos ao poder trabalhar de qualquer lugar. A maioria também relatou aumento na produtividade e melhoria na qualidade do trabalho entregue.

No Brasil, mais de 70% dos trabalhadores declararam ter se tornado mais produtivos no modelo híbrido, além de relatarem uma economia média anual significativa com transporte e alimentação. Entre os principais motivos para a satisfação estão a eliminação do tempo de deslocamento, maior foco e menor exposição a ambientes estressantes.

Além disso, o impacto positivo sobre a saúde mental e o bem-estar é um fator recorrente. Cerca de 75% dos profissionais que adotam o modelo híbrido relataram sentir menos estresse e fadiga. A redução no tempo de deslocamento diário é apontada como um dos principais ganhos: mais tempo para atividades pessoais e descanso.

As empresas também percebem os efeitos. Políticas de trabalho flexível têm contribuído para a retenção de talentos, especialmente entre mulheres e jovens profissionais. Uma pesquisa recente mostrou que 67% das mulheres afirmam que o modelo híbrido contribuiu diretamente para sua progressão na carreira. Quase metade das entrevistadas chegou a ser promovida após a adoção do regime flexível.

Desafios ainda presentes

Embora o modelo híbrido seja bem aceito por grande parte dos trabalhadores e empregadores, ele não está livre de desafios. A falta de estrutura adequada nos escritórios, a dificuldade de gestão à distância e a chamada “síndrome da proximidade” — em que funcionários presenciais ganham mais visibilidade — são obstáculos recorrentes.

Outro ponto de atenção é a percepção divergente entre lideranças e equipes. Enquanto a maioria dos gestores acredita que as políticas híbridas estão bem implementadas e atendem às necessidades dos colaboradores, muitos profissionais não compartilham da mesma visão. Questões como falta de equipamentos adequados, dificuldade de comunicação e sensação de isolamento ainda fazem parte da rotina de quem trabalha parcialmente de casa.

Ainda assim, especialistas em gestão e comportamento organizacional apontam que os benefícios superam os obstáculos. O segredo está em encontrar um modelo flexível, que respeite as necessidades individuais e promova ambientes — físicos e virtuais — preparados para colaboração, inovação e reconhecimento.

Tendência irreversível?

Para muitos estudiosos, o trabalho híbrido e remoto deixou de ser uma tendência emergente e passou a integrar definitivamente as políticas de gestão de pessoas nas organizações. Mais do que um benefício, tornou-se um diferencial competitivo para empresas que desejam atrair e reter os melhores talentos.

Embora o formato exato ainda esteja em evolução e varie de acordo com o setor, o consenso entre especialistas é que o futuro do trabalho será marcado pela autonomia, pela confiança nas equipes e pela flexibilidade para que cada profissional possa entregar seu melhor — seja no escritório, em casa ou de onde preferir.

 

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