Seu rosto precisa mesmo seguir uma tendência? Médico explica os riscos de mudar a fisionomia por influência das redes
Autor de “Seu rosto não é moda” explica por que o algoritmo sabe o que está na moda, mas não o que combina com cada rosto
Há incômodos com o rosto que nascem diante do espelho. Outros aparecem depois que um mesmo nariz, lábio, queixo ou contorno se repete tantas vezes na tela que passa a funcionar como medida. O traço que antes fazia parte da própria fisionomia começa a parecer inadequado. É quando essa referência externa começa a mudar a percepção do próprio rosto que surge o alerta.
Para o médico Georgen Hauagge, autor de Seu rosto não é moda, um dos sinais mais claros aparece quando a vontade de mudar surge depois da exposição a determinado padrão. “Talvez o sinal mais importante seja este: quando você começa a querer corrigir no seu rosto algo que nunca tinha incomodado você antes de alguém dizer que aquilo era um defeito”, afirma, em entrevista ao jornal O HOJE.
No consultório, essa influência já chega acompanhada de nome e técnica. Há pacientes que não apresentam apenas uma queixa, mas chegam convencidos de qual procedimento precisam porque o viram repetidamente em filtros, influenciadores ou celebridades. “Só que o algoritmo sabe o que está na moda; ele não sabe o que combina com aquele rosto. Muitas vezes, o que valoriza uma pessoa pode descaracterizar completamente outra”, diz Hauagge.
A avaliação precisa vir antes da técnica. Um traço não existe isolado. Nariz, queixo, mandíbula, lábios e estrutura óssea se relacionam entre si, e copiar uma característica que funciona em outra pessoa pode quebrar essa harmonia. A fotografia de uma celebridade pode ajudar a revelar o que o paciente considera bonito, mas não deve servir como molde.
A velocidade das tendências acrescenta outro risco. Formatos de boca, sobrancelha, nariz e contorno facial que em determinado momento se tornam desejo coletivo podem perder espaço pouco depois, enquanto a intervenção permanece. “Moda você troca. O seu rosto vai continuar sendo seu”, afirma o médico.
A origem da insatisfação também merece atenção. Hauagge costuma propor uma pergunta simples: “Isso já incomodava você antes de começar a prestar atenção nisso nas redes sociais?”. Quando o desconforto é antigo e específico, há uma motivação mais ligada à percepção individual. Quando a lista de defeitos muda junto com filtros, celebridades e procedimentos do momento, a decisão exige cautela.
O mesmo raciocínio vale para o envelhecimento. O rosto não muda em uma única camada. Há alterações ósseas, perda de gordura facial, modificações musculares e flacidez da pele. Tratar um processo tão amplo com uma única técnica pode criar excesso onde se buscava equilíbrio.
A cautela se torna ainda mais importante diante da maneira como alguns tratamentos são apresentados nas redes. Palavras como rápido, simples e reversível podem reduzir a percepção de risco. Pouco invasivo não significa isento de complicações, e uma decisão estética precisa considerar não apenas o resultado esperado, mas também limites, consequências e efeitos de longo prazo. “Na estética, uma das perguntas mais importantes não é apenas ‘o que eu ganho fazendo?’, mas também ‘o que eu posso perder se der errado?’”, afirma Hauagge.
Parte do trabalho médico, para ele, está justamente em recusar pedidos. Nem todo desejo corresponde a uma indicação. Hauagge resume os objetivos de uma intervenção estética em parecer mais jovem, ficar mais bonito ou suavizar expressões involuntárias de cansaço, irritação, tristeza ou abatimento. Se o procedimento não melhora nenhuma dessas condições ou ainda prejudica alguma delas, a resposta pode ser não.
A mesma lógica afasta a ideia de medidas universais. Não existe um tamanho perfeito de nariz, queixo ou mandíbula capaz de funcionar da mesma forma em qualquer rosto. “Na estética, a beleza das partes importa menos do que a harmonia entre elas. É isso que um diagnóstico individual precisa respeitar”, afirma.
O problema ganha outra dimensão quando mudar o rosto passa a ser associado à necessidade de ser aceito, desejado ou parecido com aquilo que aparece no celular. Hauagge não trata todo procedimento como um erro. Ele reconhece que intervenções podem melhorar a maneira como alguém se percebe, mas considera insuficiente uma decisão guiada apenas pela tentativa de reproduzir uma referência da internet.
O ponto de parada importa tanto quanto a escolha da técnica. Quanto mais próximo o resultado está do equilíbrio, maior pode ser o risco de uma nova intervenção retirar justamente aquilo que ainda preservava a individualidade do rosto. Fazer mais, nesse caso, não significa fazer melhor.
A tendência pode desaparecer do feed. O rosto permanece. “Não escolha alguém apenas para mudar o seu rosto. Escolha alguém que também saiba o que não deve mudar nele”, conclui Hauagge.
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