terça-feira, 18 de agosto de 2026
Análise

Caiado pressiona, mas União Progressista adia desembarque do governo Lula

Nova federação concentra a maior força política do País, mas mantém ministros na gestão petista enquanto ensaia pré-candidatura presidencial; contradição pode desgastar projeto caiadista e reduzir fôlego da oposição

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em
Caiado pressiona, mas União Progressista adia desembarque do governo Lula
Foto: Divulgação

Bruno Goulart

A federação entre União Brasil (UB) e Progressistas (PP) nasce como a maior força partidária do País, que aglutina 109 deputados federais, 15 senadores, seis governadores e mais de 1,3 mil prefeitos. Batizada de União Progressista (UPb), a chamada “superfederação” reúne musculatura eleitoral sem precedentes e já projeta lançar candidatura própria à Presidência da República em 2026. No entanto, carrega uma contradição central: mesmo enquanto prega independência e oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mantém quatro ministros no governo federal.

Entre eles, dois são ligados diretamente ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), que tem atuado como um dos principais defensores dos interesses do Planalto no Congresso. A situação coloca em xeque o discurso de oposição e expõe fragilidades da estratégia da nova federação, que tenta projetar o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como alternativa de centro-direita para o pleito de 2026.

Caiado cobra posição clara

Durante a convenção que oficializou a federação, Caiado fez um apelo para que o grupo assuma posição clara contra o governo petista e abandone a ambiguidade. Em tom de pré-candidato, afirmou que não se vence uma disputa nacional “de joelhos” diante do adversário, mas “de cabeça erguida e sem medo”. O goiano defendeu ainda que a direita apresente desde já candidaturas competitivas, em vez de depender de figuras externas como Jair Bolsonaro (PL) ou Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP).

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“Um partido precisa ter lado, rumo e posição clara. Para superar a crise que o País enfrenta, é fundamental lançar candidatura própria, assumir protagonismo e deixar evidente que a solução passa por derrotar Lula nas eleições de 2026”, declarou.

Equação interna

Apesar da pressão do governador, o desembarque imediato parece improvável. Isso porque União Brasil e PP preservam espaços estratégicos na Esplanada e, como lembrou o cientista político Lehninger Mota, ainda avaliam os custos políticos de uma ruptura precoce. “Desde o começo dessa federação, a preocupação de Caiado era: ‘E eu, como fico nisso?’. O que foi acertado é que ele teria até o início das convenções para mostrar pelo menos 10% nas pesquisas, e isso não é tarefa simples para um governador de um Estado que representa apenas 3% do eleitorado nacional”, explicou.

Segundo Mota, o maior desafio de Caiado é conquistar visibilidade nacional e furar a barreira da baixa popularidade fora do Centro-Oeste. “Ele precisa aparecer na mídia nacional e conquistar apoio em outros Estados. Só assim terá condições de se impor dentro da federação”, avaliou.

Divergências e pragmatismo

Além do desempenho eleitoral, pesa o pragmatismo dos líderes da nova superfederação. “Quando se forma um partido desse tamanho, com a maior bancada do Congresso, você tem interesses muito diversos. Há alas mais à direita, mais ao centro e até mais próximas da esquerda. Essa diversidade dificulta uma decisão de rompimento imediato”, destacou o cientista político.

Exemplo dessa moderação é o próprio presidente do PP, Ciro Nogueira, que, apesar da ligação com Jair Bolsonaro, não assinou o pedido de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). “Isso sinaliza que, mesmo com divergências profundas, setores da federação preferem manter canais abertos com o governo e não adotar uma postura radical”, completou Mota.

Desembarque

A tendência, segundo analistas, é que a União Progressista só anuncie oficialmente seu afastamento quando se aproximarem as desincompatibilizações, prazo em que ministros interessados em disputar eleições precisarão deixar os cargos. Até lá, o grupo deve preservar os espaços na Esplanada e negociar em paralelo uma candidatura viável.

“O mais provável é que o desembarque aconteça apenas nesse momento, porque até lá figuras como Alcolumbre e outros líderes do centrão não vão abrir mão das pastas que controlam. Isso deixa Caiado em situação delicada, já que seu projeto depende dessas lideranças”, afirmou Lehninger Mota.

Paradoxo

Esse compasso de espera gera um paradoxo: ao mesmo tempo em que critica Lula e se coloca como alternativa da centro-direita, a União Progressista mantém assentos no governo e usufrui da máquina pública. Para adversários, a postura fragiliza o discurso de Caiado. Afinal, como cobrar coerência e autoridade política se a própria federação ainda não desembarcou?

Aliados do governador minimizam. Dizem que encontros de Antônio Rueda, presidente do União Brasil, com Lula são “gestos institucionais” e que, na prática, a legenda já vota de forma independente e, na maioria das vezes, contra o Planalto. Ainda assim, a imagem de partido “meio dentro, meio fora” dificulta o reposicionamento como oposição robusta.

Futuro indefinido

O futuro da federação também dependerá do movimento de outras lideranças da direita. Caso Jair Bolsonaro decida apoiar Tarcísio de Freitas e o paulista cresça nas pesquisas, a UPb pode ser atraída para essa candidatura, deixando Caiado isolado. Nesse cenário, o goiano ainda poderia buscar uma legenda menor para sustentar sua postulação, mas sem a força de uma estrutura nacional robusta.

Por ora, o discurso oficial é de unidade. Rueda afirma que Caiado é o pré-candidato do União Brasil e Ciro Nogueira sustenta que a federação representa a consolidação da direita no País. Nos bastidores, porém, prevalece a cautela: esperar, negociar e preservar espaços — ainda que isso signifique carregar a contradição de criticar o governo sem romper formalmente com ele. (Especial para O HOJE)

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