Estudo internacional revela como a maconha pode alterar óvulos em mulheres
Pesquisa inédita no Canadá aponta riscos na maturação dos óvulos e levanta alerta para novas investigações científicas
Um estudo publicado na revista Nature Communications identificou que o consumo de maconha pode afetar a fertilidade feminina. Pesquisadores da Universidade de Toronto e do centro CReATe de fertilização in vitro analisaram mais de mil amostras de mulheres em tratamento de reprodução assistida no Canadá e encontraram alterações na maturação dos óvulos associadas à presença de THC, principal substância psicoativa da cannabis.
O estudo analisou a biologia reprodutiva de 1.059 mulheres que participaram de tratamentos de reprodução assistida no Canadá. Em todas as amostras, os cientistas procuraram entender como o consumo de cannabis poderia interferir no desenvolvimento dos óvulos e nos processos celulares ligados à fertilidade.
Alterações detectadas nos óvulos
De acordo com o artigo, os pesquisadores identificaram que em pacientes que testaram positivo para uso de maconha houve mudanças relevantes na maturação dos óvulos. Essas células amadureceram rápido demais e apresentaram maior risco de aneuploidia, condição em que há número incorreto de cromossomos.
“Mostramos que a concentração de THC no fluido do folículo está correlacionada positivamente com a maturação dos óvulos, e as pacientes que testaram positivo para THC exibiam um número significativamente menor de euploidia do que o grupo controle”, descreve o estudo assinado por Cyntia Duval e colegas.
Esse achado reforça observações anteriores em experimentos com camundongos e vacas, mas é a primeira vez que pesquisadores relatam evidência in vivo em mulheres. O trabalho sugere que o THC, principal componente psicoativo da maconha, pode interferir no sistema endocanabinoide, rede de moléculas que regula funções do corpo humano, inclusive no sistema reprodutor.
Com o amadurecimento precoce dos ovócitos, os processos de meiose — divisão celular que forma os gametas — podem apresentar falhas, aumentando as chances de anomalias genéticas.
A pesquisa em números e limitações
Entre as 1.059 amostras analisadas, 6% apresentaram presença de THC. Esse índice é bem menor do que o apontado por levantamentos nacionais no Canadá, segundo os quais cerca de 23% das mulheres jovens já consumiram cannabis. Uma possível explicação é que as pacientes em tratamento de fertilização foram orientadas a não ingerir álcool, drogas ou maconha durante o processo.
Mesmo assim, os dados revelaram uma surpresa: 73% das amostras que deram positivo para THC eram de mulheres que afirmaram não ter consumido a droga. Esse detalhe levanta questionamentos sobre a precisão das informações autorreferidas e reforça a necessidade de atenção na coleta de dados em pesquisas clínicas.
Apesar dos resultados, os cientistas mantêm cautela. Eles destacam que ainda não é possível determinar um limiar seguro para o consumo de cannabis em relação à fertilidade feminina. “Nosso estudo destaca a importância de informar as pacientes sobre os riscos potenciais associados ao consumo de cannabis e fornece uma base para que órgãos reguladores, sociedades médicas e organizações de saúde pública estabeleçam recomendações e diretrizes sobre o consumo de cannabis durante o tratamento de fertilidade”, escreveram os autores no artigo.
Os pesquisadores ressaltam que mais investigações são necessárias para compreender os mecanismos exatos e avaliar a extensão dos impactos. O sistema endocanabinoide continua sendo uma das principais linhas de estudo, já que o THC tem estrutura semelhante às moléculas naturais que compõem esse sistema, podendo alterar sua função reguladora.
*texto com informações de O Globo
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