quarta-feira, 19 de agosto de 2026
chuvas e inundações

Goiânia lidera ranking de áreas de risco no estado durante o período chuvoso, aponta estudo

Levantamento oficial identifica 4.260 áreas de risco em Goiânia e aponta 24 municípios goianos vulneráveis a enchentes, enxurradas e deslizamentos

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em
Goiânia lidera ranking de áreas de risco no estado durante o período chuvoso, aponta estudo
Divulgação/SET

Um levantamento coordenado pela Casa Civil da Presidência da República em parceria com o Ministério das Cidades colocou Goiás em alerta para o período chuvoso. O estudo mapeou 24 municípios goianos em áreas suscetíveis a desastres naturais, como deslizamentos, enxurradas e inundações com áreas de risco. 

Entre eles estão Goiânia, Aparecida de Goiânia e Anápolis, as três maiores cidades do Estado. A Capital aparece no topo do ranking estadual, com 4.260 áreas de risco identificadas, número que reflete não apenas o tamanho da cidade, mas problemas estruturais acumulados ao longo de décadas.

Os dados dialogam diretamente com episódios recentes. Em setembro e dezembro, temporais provocaram alagamentos severos na Marginal Botafogo, com veículos ilhados, interdição de vias e acionamento inédito de alertas sonoros da Defesa Civil para celulares. 

Situações semelhantes se repetiram na Avenida 87, no Setor Sul, e em regiões de fundos de vale, evidenciando que os riscos apontados no papel se materializam rapidamente quando a chuva aperta.

Capital concentra riscos e revive problemas históricos

Segundo o estudo federal, sete municípios goianos estão classificados como de “risco triplo”, ou seja, sujeitos simultaneamente a deslizamentos, enxurradas e inundações.

Além de Goiânia, entram nessa lista Aparecida, Anápolis, Senador Canedo, Luziânia, Formosa e Novo Gama. A Capital lidera com folga o número de setores mapeados como vulneráveis, seguida por Senador Canedo (744), Aparecida de Goiânia (737) e Anápolis (393).

Para o urbanista Fred Le Blue, o volume de áreas de risco em Goiânia não é surpresa. “O crescimento urbano da Capital ocorreu de forma incompatível com a infraestrutura de drenagem existente. Houve verticalização e adensamento desmedidos, o que impermeabilizou o solo e favoreceu alagamentos e inundações”, explica. Segundo ele, a impermeabilização é hoje um dos principais agravantes dos eventos extremos nas cidades.

A lógica é simples: quanto mais asfalto, concreto e telhados, menor a infiltração da água no solo. Com isso, o volume escoa rapidamente pela superfície, sobrecarrega galerias pluviais e córregos canalizados e provoca transbordamentos em poucos minutos. “A drenagem urbana nunca acompanhou o ritmo da urbanização”, resume o urbanista.

Além das obras estruturais, especialistas defendem que educação ambiental e planejamento urbano integrado são fundamentais para reduzir riscos no médio e longo prazo. A população ainda descarta lixo de forma irregular, o que obstrui bocas de lobo e galerias pluviais, agravando alagamentos em pontos críticos. Campanhas permanentes e fiscalização efetiva podem reduzir impactos imediatos.

Ao mesmo tempo, urbanistas alertam que novos empreendimentos precisam respeitar limites ambientais e estudos de drenagem. Sem essa mudança de lógica, o mapeamento de áreas de risco tende a crescer a cada ano, ampliando prejuízos econômicos e ameaçando vidas durante o período chuvoso em Goiás.

Canalizar córregos resolve ou empurra o problema das áreas de risco?

 

Gabriel Louza_O HOJE

 

Uma das soluções mais adotadas historicamente nas cidades brasileiras foi a canalização de córregos. No entanto, o urbanista alerta que a prática tende a mascarar o problema, em vez de resolvê-lo. 

“A canalização cria uma solução que é pior do que o problema. Ela tenta domesticar as águas, quando, na verdade, somos nós que devemos nos adaptar ao ciclo hidrológico”, afirma Fred Le Blue.

Ele destaca o papel das matas ciliares, que funcionam como verdadeiras esponjas naturais. “São elas que garantem que parte da água infiltre no solo, reduzindo a quantidade que permanece na superfície em situações de chuva forte. Quando eliminamos essas áreas, aumentamos a força destrutiva da água”, pontua.

A bióloga Raquel Pires Sales, CEO da Pachamama Socioambiental, explica que o estudo federal cruza critérios técnicos como histórico de desastres registrados no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), impacto humano e material, vulnerabilidade social e suscetibilidade física do terreno.  “O risco explode quando um processo natural encontra ocupação vulnerável. Não é só onde a água passa, mas onde existem pessoas, moradias frágeis e infraestrutura precária”, afirma.

Ela lembra que Goiânia combina uma rede hidrográfica urbana extensa, ocupação intensa de fundos de vale e problemas como assoreamento, descarte irregular de lixo e perda de mata ciliar, especialmente em bacias como a do Ribeirão Anicuns. “É o pacote completo de agravantes”, resume.

Diante de cenas recorrentes de carros sendo arrastados ou ilhados, prefeituras passaram a adotar cancelas para bloquear vias em momentos de chuva intensa. A medida, no entanto, divide opiniões. Para Fred Le Blue, trata-se de uma ação necessária, mas limitada. “É um paliativo enquanto o Plano Diretor de Drenagem Urbana e suas intervenções estruturais não ficam prontos”, avalia.

Na visão do urbanista, as cancelas reduzem riscos imediatos à vida, ao impedir que motoristas avancem em áreas sabidamente perigosas, mas não atacam a causa do problema. “Elas não resolvem alagamento nem enxurrada, apenas evitam que pessoas sejam expostas ao perigo naquele momento”, diz.

Raquel Pires Sales concorda e reforça que medidas emergenciais precisam caminhar junto com políticas estruturantes. “Alertas via celular, bloqueios de vias e atuação rápida da Defesa Civil salvam vidas. Mas, sem enfrentar a ocupação irregular, a impermeabilização excessiva e a falta de planejamento urbano, o cenário tende a se repetir”, alerta.

Nos últimos meses, Goiânia e Aparecida anunciaram ações preventivas, como limpeza intensificada de bocas de lobo, manutenção de galerias pluviais, obras pontuais de drenagem e uso de tecnologia para alertas meteorológicos. 

Em Aparecida, a prefeitura também investe em novos caminhões hidrojato e obras de macrodrenagem em áreas críticas. Já na Capital, o Gabinete de Crise reúne Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e órgãos ambientais para planejar respostas rápidas durante temporais.

Apesar dos avanços, especialistas avaliam que o poder público ainda atua mais de forma reativa do que preventiva. “Prevenção exige decisões impopulares, como impedir novas ocupações em áreas de risco, remover moradias de locais vulneráveis e investir continuamente em soluções baseadas na natureza”, afirma Raquel.

O estudo federal não aponta que cidades inteiras estejam ameaçadas, mas indica pontos específicos de alta vulnerabilidade. Para a população, o recado é claro: ficar atento aos alertas, evitar áreas alagadas e cobrar políticas urbanas que vão além do improviso. 

Para os gestores, o desafio é transformar mapas e diagnósticos em planejamento efetivo, antes que a próxima chuva forte volte a expor, na prática, riscos já conhecidos.

Leia mais: Ativista ambiental desaparece na Chapada dos Veadeiros e mobiliza buscas em Alto Paraíso

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Suspeitos se passam por policiais para matar homem dentro de casa em Goiânia

Operação Engodo

Suspeitos se passam por policiais para matar homem dentro de casa em Goiânia

Operação cumpre 12 medidas cautelares em Goiás e no Rio de Janeiro e investiga crime motivado por...
lei seca

MUDANÇAS

Lei Seca terá novas regras em todo o Brasil e fiscalização será ampliada

Regras aprovadas pelo Contran incluem reteste do bafômetro e exames para detectar drogas
Quarta (19) começa amena, mas calor de 32°C toma conta de Goiânia

PREVISÃO DO TEMPO

Quarta (19) começa amena, mas calor de 32°C toma conta de Goiânia

Capital terá diferença de 13°C entre mínima e máxima nesta quarta-feira (19), enquanto umidade ...
Prefeitura em Goiás abre concurso com 320 vagas

Concurso Público

Prefeitura em Goiás abre concurso com 320 vagas

Os salários chegam a R$ 3.847,97, e as inscrições serão feitas pela internet entre 20 de setembr...
Educação

Aumento das vagas

Déficit na educação básica de Goiânia leva SME a assinar TAC com MP

Aditivo ao TAC entre Prefeitura e MP-GO estabelece metas para ampliar a educação infantil, conclui...
STF muda regra do IPTU e decisão pode afetar cobrança feita por municípios

FIQUE ATENTO

STF muda regra do IPTU e decisão pode afetar cobrança feita por municípios

Supremo decidiu que prefeituras não podem aumentar a alíquota do imposto apenas porque um imóvel ...
Veterinária morre após ser atacada por cão durante atendimento em Brasília

ataque

Veterinária morre após ser atacada por cão durante atendimento em Brasília

Vitória Valle de Oliveira Pinha, de 36 anos, sofreu graves ferimentos no pescoço e chegou a passar...
Onda de frio vai chegar a Goiás? Veja o que prevê a meteorologia para o fim de semana

O GOIANO SÓ TEM UM SONHO...

Onda de frio vai chegar a Goiás? Veja o que prevê a meteorologia para o fim de semana

Massa de ar frio avança pelo país nos próximos dias e pode alcançar o sul goiano, mas queda de t...