segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Empregabilidade

Vagas abertas, inclusão travada: por que empresas e PCDs não se encontram no mercado de trabalho

Mutirão com 408 vagas para PCDs em Goiás resulta em apenas três contratações mantidas após 30 dias e expõe entraves como salários pouco atrativos, barreiras de mobilidade e medo de perda de benefícios sociais

Letícia Leitepor em
Vagas abertas, inclusão travada: por que empresas e PCDs não se encontram no mercado de trabalho
De um lado, empresas que afirmam ter vagas reais, adaptadas e disponíveis; de outro, pessoas com deficiência que relatam dificuldades para acessar, aceitar ou permanecer nesses postos. Foto: Gildo Júnior

A dificuldade das empresas em cumprir a legislação de cotas para pessoas com deficiência (PCDs) vai além da simples abertura de vagas. Em Goiás, um exemplo recente evidencia a complexidade do cenário. No Dia D da Contratação de PCDs, promovido em novembro pelo Sindicato das Empresas de Asseio, Conservação, Limpeza Urbana e Terceirização de Mão de Obra do Estado de Goiás (SEAC-GO) em parceria com o Sindicato das Empresas de Segurança Privada, Transporte de Valores e Cursos de Formação do Estado de Goiás (SINDESP-GO), foram disponibilizadas 408 vagas de emprego. No entanto, apenas sete pessoas com deficiência compareceram ao mutirão e, passados 30 dias, somente três permaneciam contratadas.

O balanço expõe um paradoxo cada vez mais frequente no mercado de trabalho: de um lado, empresas que afirmam ter vagas reais, adaptadas e disponíveis; de outro, pessoas com deficiência que relatam dificuldades para acessar, aceitar ou permanecer nesses postos. O resultado é um desencontro estrutural que envolve fatores econômicos, sociais e culturais.

Segundo a diretora de Empregabilidade Jovem da Associação Brasileira dos Profissionais de Recursos Humanos de Goiás (ABPRH-GO), Lilian Alencar de Castro, a baixa adesão não pode ser atribuída a um único motivo. 

“As empresas enfrentam desafios significativos na inclusão de pessoas com deficiência, mesmo com iniciativas Um dos principais fatores é a cultura organizacional. Muitas organizações ainda não estão plenamente preparadas para acolher a diversidade, o que se reflete em ambientes que não são adequadamente adaptados. Além disso, há uma falta de conscientização sobre as habilidades e potenciais que esses profissionais podem trazer”, afirma.

Para a especialista, além das barreiras físicas, há entraves internos à gestão. A ausência de programas de mentoria, formação específica e planos de desenvolvimento profissional limita a retenção desses trabalhadores. 

O descompasso entre oferta e demanda também passa pela forma como as vagas são divulgadas. Lilian destaca que muitas oportunidades não chegam de forma clara e acessível ao público-alvo. “Isso pode estar atribuído a problemas de comunicação e à falta de atratividade das vagas. O RH deve reavaliar suas estratégias de comunicação e trabalhar em parceria com instituições de ensino e organizações de apoio para garantir que as oportunidades sejam claramente apresentadas e visíveis”, avalia.

Outro fator decisivo é o receio de perder o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a mais de 101 mil pessoas com deficiência em Goiás, segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O medo de abrir mão da única fonte de renda estável ainda pesa na decisão de aceitar um emprego formal. 

“Essa insegurança financeira pode levar a uma hesitação em aceitar ofertas de emprego, mesmo quando as condições são favoráveis. Além disso, as dificuldades de adaptação no ambiente corporativo, como a falta de infraestrutura adequada e a ausência de uma cultura inclusiva, podem criar um sentimento de exclusão”, explica Lilian.

Setor produtivo aponta entraves estruturais além da abertura de vagas para PCDs

PCDs
Foto: Gildo Júnior

Do ponto de vista do setor produtivo, o desafio é igualmente complexo. O presidente do SEAC-GO, Paulo Gonçalves da Silva, afirma que o Dia D foi planejado com estrutura acessível, intérpretes, ampla divulgação e possibilidade de contratação imediata. Ainda assim, os resultados ficaram aquém do esperado. 

“A inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho é um desafio estrutural e multifatorial […] Não se trata apenas de criar vagas, mas de garantir condições reais para que essas vagas sejam ocupadas e mantidas”, ressalta.

Entre os principais entraves estão a mobilidade urbana, a distância entre a residência dos candidatos e os postos de trabalho, além da incompatibilidade entre perfil profissional e função ofertada. 

“Os setores representados pelo SEAC-GO e pelo SINDESP-GO são essenciais para o funcionamento das cidades e operam, em grande parte, com postos descentralizados, além de jornadas que podem incluir turnos alternados, finais de semana e horários noturnos”, explica.

Paulo Gonçalves reforça que a baixa adesão não reflete a falta de compromisso das empresas. “Há vagas reais, adaptadas e disponíveis. O desafio está em alinhar essas oportunidades às condições objetivas dos candidatos. Sem políticas complementares de transporte acessível, orientação vocacional e suporte social”, defende.

O debate também levanta uma questão sensível: existe número suficiente de pessoas com deficiência aptas e interessadas para atender ao percentual exigido por lei? Para os sindicatos, o modelo atual precisa ser aprimorado. “A legislação de cotas é fundamental, mas isoladamente não resolve o problema. Há uma lacuna entre a existência das vagas e a capacidade de preenchê-las de forma sustentável”, avalia o presidente do SEAC-GO.

Com cerca de 482 mil pessoas com deficiência em Goiás, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desafio não está apenas na quantidade, mas nas condições de acesso, qualificação e permanência. 

“A inclusão não pode ser tratada apenas como cumprimento legal. Ela precisa ser construída como um processo contínuo, que envolva empresas, poder público e sociedade”, conclui Paulo Gonçalves.

Enquanto esse alinhamento não acontece, o mercado segue convivendo com vagas abertas de um lado e trabalhadores à margem do outro — um retrato claro de que a inclusão vai muito além da boa intenção.

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