segunda-feira, 26 de outubro de 2026
MEIO AMBIENTE

Desmatamento no Cerrado cai 19% em agosto, aponta Inpe

Levantamento do Inpe aponta recuo no desmatamento do Cerrado em agosto, enquanto a Amazônia registra alta de 12% no período

Gabriel Diaspor em
Desmatamento no Cerrado cai 19% em agosto, aponta Inpe
A área desmatada neste ano, somando os dois biomas, já chega a quase 6.000 km². (Adriano Gambarini/WWF Brasil/Divulgação)

O Cerrado perdeu 238 km² de vegetação nativa em agosto deste ano. O número representa queda de 19% em relação a agosto de 2025, quando o desmatamento havia sido de 294 km². Os dados são do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Foram apresentados em evento em São Paulo na última sexta-feira (11), data em que se celebra o Dia do Cerrado.

O cenário é o oposto na Amazônia. O bioma teve alta de 12% no desmatamento em agosto. O índice saiu de 319 km² no ano passado para 358 km² neste ano.

Everaldo Pastore, ambientalista da ONG Arca, destaca que os números ainda são alarmantes e refletem o desmatamento do passado. “Ainda é cedo para comemorar. Já desmatamos demais no passado, e essa redução é sintoma de que restou uma cobertura muito pequena de Cerrado. Cerca de dois terços do bioma já foram destruídos.”

Continua “Mesmo com essa pequena diminuição, o dado não é muito relevante e provavelmente reflete situações pontuais e circunstanciais. Não há o que comemorar ainda. Perdemos, no passado, a chance de ter uma legislação mais inteligente, não necessariamente mais restritiva”, fecha.

Queda acumulada no ano

Entre janeiro e agosto de 2026, o desmatamento também caiu nos dois biomas. No Cerrado, foram desmatados 3.810 km², queda de 7% em relação ao mesmo período de 2025. Na Amazônia, a redução foi de 31%, com 2.041 km² desmatados. A área desmatada neste ano, somando os dois biomas, já chega a quase 6.000 km². O espaço equivale a cerca de 840 mil campos de futebol.

Maranhão, Tocantins, Piauí e Mato Grosso concentram o desmatamento no Cerrado neste ano. O Maranhão é o estado que mais desmatou, com 1.025 km². Na Amazônia, os estados com maior perda de vegetação são Pará, Mato Grosso e Amazonas.

Everaldo destaca que a recuperação de áreas desmatadas traz gastos públicos que poderiam ser evitados e que devem ser levados em consideração nas multas aplicadas. “É importante saber quanto custa recuperar uma área para usar esse valor como critério de multa, já que o preço de desmatar e o de recuperar não são os mesmos.”

Continua “Desmatar é feito rapidamente, com um correntão. Recompor a vegetação é muito mais caro, exige tempo até que as raízes atinjam maior profundidade e demanda irrigação. Essa é uma situação que vamos lamentar. Até agora, não estamos fazendo nada para proteger efetivamente o Cerrado”, disse o ambientalista.

O sistema Deter monitora o território por satélite e emite alertas usados para orientar ações de fiscalização. Os números oficiais de desmatamento, considerados mais precisos, são apurados pelo Prodes, outro sistema do Inpe. O Prodes é divulgado uma vez por ano.

Legislação mais permissiva abre espaço para desmatamento

A dinâmica de desmatamento é diferente entre os dois biomas. Na Amazônia, a devastação se concentra em terras públicas não destinadas e em unidades de conservação invadidas. No Cerrado, ela ocorre principalmente dentro de propriedades privadas. Parte disso se deve à legislação ambiental local. O Código Florestal permite desmatar até 80% de um imóvel rural no Cerrado. O percentual cai para 65% em áreas de transição para a Amazônia. Na Amazônia, o limite é de 20%.

“O que mais nos assusta não é o desmatamento ilegal. Com um pouco de esforço e denúncia, é possível combatê-lo. Nossa preocupação é com o desmatamento legal, aquele que cumpre exigências praticamente formais e já está autorizado a acontecer”, disse Everaldo.

O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, assinou duas portarias voltadas à proteção do Cerrado na última sexta-feira (11). A primeira cria as Áreas Prioritárias de Recarga Hídrica no Bioma Cerrado (APRHIC).

O mecanismo identifica regiões estratégicas para a infiltração de água no solo e o abastecimento de aquíferos. Até então, a legislação protegia apenas as margens de rios e nascentes. A segunda portaria trata do pagamento por serviços ambientais. Ela define como o governo pode repassar recursos a proprietários rurais que preservam vegetação nativa em suas terras.

A criação das APRHIC é a primeira tentativa do governo federal de proteger legalmente as regiões responsáveis por reabastecer os aquíferos do bioma. Até a assinatura da portaria, a legislação ambiental cobria apenas as margens de rios e nascentes, deixando de fora as áreas de infiltração que sustentam o fluxo de água mesmo durante a estação seca.

O mapeamento que embasou a nova regra pode passar a integrar os processos de licenciamento ambiental conduzidos por órgãos estaduais, como a Semad, em pedidos de autorização para desmatamento. As áreas classificadas como prioritárias para recarga hídrica poderiam ter restrições adicionais antes de receber aval para supressão de vegetação nativa.

O Cerrado abriga oito das doze bacias hidrográficas do país. Cerca de 94% da água do rio São Francisco tem origem no bioma. Um levantamento do Instituto Cerrados, que subsidiou a nova portaria, aponta que 51,2% da área do bioma é prioritária para a recarga hídrica.

Everaldo relata que esse problema não é novo e cita a própria experiência profissional para ilustrar a perda de vazão dos rios do Cerrado ao longo das últimas décadas. “Já identificamos esse problema há mais de 40 anos. Em Hidrolândia, fiz o plano diretor. Ao longo do processo, ouvi muitos relatos de moradores próximos ao rio que passa pelo município. Eles diziam que, até pouco tempo antes, davam mergulho de ponta ali, e as crianças passavam o dia se divertindo na água. Hoje, o rio mal molha o pé. Se alguém tentar mergulhar de ponta hoje, quebra o pescoço.”

Continua, ao descrever casos que testemunhou pessoalmente em áreas de plantio de eucalipto “Passei por áreas onde plantaram eucalipto e o rio literalmente virou pó. Depois, os próprios eucaliptos começaram a secar. A devastação do Cerrado chegou a um ponto em que ainda não temos ideia do que isso vai significar no futuro próximo, e todos os rios estão sofrendo com esse processo. Isso já é uma realidade registrada, não é hipótese”, disse o ambientalista.

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Tags:
Cerrado desmatamento inpe Meio Ambiente natureza

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