Projeto Cerrado Vivo leva histórias do Araguaia às escolas
Iniciativa transforma a série “Ribeirinhas” em material didático sobre Cerrado, Araguaia e comunidades locais
As histórias de mulheres ligadas ao Rio Araguaia são o ponto de partida do projeto Ribeirinhas nas Escolas, iniciativa do Cerrado Vivo que leva para a sala de aula diferentes formas de relação com o rio, o território e a preservação ambiental. A proposta transforma uma série documental em material pedagógico voltado a estudantes do Ensino Fundamental II e aproxima conteúdos sobre o Cerrado das experiências de quem vive e trabalha às margens do Araguaia.
A ação nasceu da série Ribeirinhas, realizada por mulheres do cinema goiano e dedicada a personagens ligadas ao Araguaia. O audiovisual surgiu dentro de uma pesquisa mais ampla sobre os riscos enfrentados pelo rio. Antes mesmo de a série avançar, a equipe decidiu levar parte desse conteúdo para a escola.
“A série nasceu de um projeto maior que busca sensibilizar a população sobre os perigos do desaparecimento do Rio Araguaia e diante dessa pesquisa nós chegamos em personagens muito interessantes e decidimos dar um olhar feminino a essa história”, afirma Lidiana Reis, curadora audiovisual do projeto, em entrevista ao O Hoje. A urgência do tema levou a equipe a antecipar a dimensão educativa enquanto a produção audiovisual seguia seu curso.
No episódio piloto, duas mulheres conduzem a discussão para experiências concretas. Magda Maria, empresária e pescadora de pesca esportiva, aproxima temas como pesca, turismo, geração de renda e conservação. Valdirene Mahudiké, pedagoga e primeira cacique mulher do Centro-Oeste do povo Iny Karajá, na Aldeia Buridina, em Aruanã, leva para a narrativa questões de território, educação e preservação da cultura indígena.
A transformação da série em ferramenta de ensino exigiu mais do que levar os episódios para dentro da sala de aula. A equipe criou uma cartilha com sequências didáticas, apresentações em slides, referências audiovisuais e atividades ligadas a Linguagens, Ciências da Natureza e Ciências Humanas. O conteúdo aborda Cerrado, recursos hídricos, povos indígenas, comunidades tradicionais, sustentabilidade e protagonismo feminino.
A construção pedagógica contou com a professora Joyci Viegas, da rede pública. O material foi organizado a partir da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), para uso em diferentes disciplinas.
“Este material didático é diferenciado na medida em que leva uma nova perspectiva sobre a realidade do Cerrado e os saberes das mulheres ribeirinhas do Rio Araguaia para a escola, busca contribuir com o trabalho em sala de aula dos docentes e promove, entre os estudantes, um debate crítico sobre a preservação desse bioma”, explica Joyci.
A proposta desloca o Cerrado de uma abordagem restrita aos aspectos naturais. O bioma aparece também como território habitado, atravessado por trabalho, memória, cultura e modos de vida que dependem diretamente da continuidade dos rios. Para Lidiana, preservar o Cerrado implica reconhecer quem permanece nesses territórios e atua cotidianamente sobre eles.
“A ideia é mostrar que o cerrado e os rios são mantidos a partir das pessoas que estão nesses territórios, então é muito importante garantir a presença de populações tradicionais e ribeirinhos, porque eles são os primeiros defensores que nós temos do território e do Cerrado”, afirma.
A intenção é também impedir que o Araguaia seja percebido como um problema distante. O rio aparece como parte de uma rede que conecta cidades, comunidades e ecossistemas.
O audiovisual ocupa posição central nessa estratégia. A escolha parte da familiaridade dos adolescentes com imagens em movimento e da possibilidade de apresentar o Cerrado por rostos, vozes e experiências, e não apenas por conceitos. Lidiana lembra ainda que a Lei 13.006, de 2014, prevê a exibição de filmes de produção nacional nas escolas.
“Acho que o audiovisual tem um papel fundamental na educação hoje, porque é uma das principais linguagens consumidas pelos jovens no cotidiano deles, então, a escola pode direcionar os jovens a consumir conteúdos que agreguem ao conhecimento, curiosidade e cultura”, diz.
Ao reunir pesca, turismo, cultura indígena, geração de renda e protagonismo feminino, Ribeirinhas nas Escolas trata a conservação como uma prática atravessada por experiências diferentes. A proposta é aproximar o estudante dessas relações e mostrar que a proteção das águas não começa apenas na margem do Araguaia.
O projeto será apresentado no dia 11 de setembro, Dia Nacional do Cerrado, durante a 6ª Semana Nacional do Cerrado, no Instituto Federal, em Goiânia. A atividade começa às 10h e integra a programação “Mulheres, saberes e conservação das Savanas mundiais”. O encontro é voltado a professores, estudantes, pesquisadores e interessados em educação, meio ambiente e audiovisual, com participação gratuita.
A coordenação geral e a pesquisa são de Fabiana Assis, com roteiro e curadoria audiovisual de Lidiana Reis. A realização é da OBRAA, do Instituto Iandé Verde e da Sol a Pino Filmes, com recursos da Prefeitura de Goiânia.
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