quarta-feira, 21 de outubro de 2026
arquitetura goiana

Entre o Art Déco e o greco-goiano, Goiânia vive contrastes arquitetônicos

Enquanto a arquitetura greco-goiana se espalha por condomínios e residências de alto padrão, o Art Déco permanece como marca da construção da Capital e patrimônio cultural reconhecido por lei

Anna Salgadopor em
Arquitetura greco-goiana
Foto: Reprodução/X

Condomínios fechados de Goiânia têm incorporado uma estética marcada por pórticos monumentais, colunas de inspiração clássica, fachadas de vidro e fitas de LED. Conhecido informalmente como “arquitetura greco-goiana”, o padrão habitacional é associado a residências de alto padrão e ganhou espaço nas redes sociais como representação de status e ascensão econômica.

O termo surgiu em círculos acadêmicos e passou a ser utilizado também de forma irônica nas redes sociais. Nas construções, materiais como mármore e madeira são substituídos por porcelanato esmaltado e MDF, enquanto metais recebem acabamento dourado e plantas naturais do Cerrado dão lugar a versões de plástico. A estética também é associada à produção de imagens para as redes sociais, com ambientes concebidos para funcionar como cenários e destacar o impacto visual.

A arquitetura predominante nas novas residências contrasta com a linguagem adotada na criação de Goiânia, nos anos 1930. Concebida durante a “Marcha para o Oeste”, no governo de Getúlio Vargas, e executada pelo interventor Pedro Ludovico Teixeira, a Capital foi planejada por Attílio Corrêa Lima com o objetivo de romper com o passado colonial de Vila Boa, atual Cidade de Goiás.

O Art Déco foi adotado como linguagem oficial do projeto, caracterizado por linhas geométricas, volumes escalonados, poucos ornamentos e organização espacial. O estilo passou a representar a modernização do Estado e ganhou como símbolos cívicos construções como o Palácio das Esmeraldas e o Teatro Goiânia.

Nas últimas décadas, a representação arquitetônica associada às elites econômicas passou por mudanças. Segundo o engenheiro Felipe Boni, cofundador da UGREEN, o avanço das inovações no campo contribuiu para o deslocamento da força econômica do funcionalismo estatal para o agronegócio privado, acompanhado por uma mudança na representação visual das classes dominantes.

Nesse contexto, o neoclassicismo passou a ser utilizado como linguagem associada à autoridade e ao poder. “A nova elite precisava de uma imagem que comunicasse força, tradição e poder sem ambiguidades”, afirma Boni.

Elementos inspirados em palácios e sedes governamentais estrangeiras, como a Casa Branca, passaram a aparecer em residências particulares. A monumentalidade antes associada aos espaços públicos passou, dessa forma, a integrar propriedades privadas.

A origem associada à música sertaneja 

A formação da estética greco-goiana também é abordada no artigo científico “O mito fundador da arquitetura greco-goiana em três atos: Sauna e Academia do Tarzan”, publicado em junho de 2026 pelos pesquisadores Marcio Cotrim Cunha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Ronaldo da Paixão Fonseca, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Segundo os pesquisadores, a origem do padrão arquitetônico remonta aos anos 1980 e ocorreu paralelamente à consolidação da música sertaneja como cultura de massa.

O primeiro marco apontado no estudo é o lançamento de Fio de Cabelo, de Chitãozinho & Xororó, em 1982/1983. Para os autores, o sucesso contribuiu para uma reconfiguração da sensibilidade nacional e para a consolidação de uma estética pop de massa associada a grandes espetáculos, com Goiás ocupando posição simbólica nesse processo. No final da década, artistas como Leandro & Leonardo e Zezé Di Camargo & Luciano ampliaram esse deslocamento do eixo estético-cultural.

O segundo momento identificado pelos pesquisadores está relacionado à Sauna e Academia do Tarzan, fundada nos anos 1980, em Campinas, Goiânia. O projeto, de 1983, foi registrado no inventário arquitetônico da Universidade Católica de Goiás. A documentação descreve o prédio como uma construção de “estilo inspirado em antigas construções gregas e romanas”.

A edificação possuía frontão sustentado por duas colunas com falsas cariátides, vitrais em arco romano em escala monumental e portal de dimensões convencionais. Fundada pelo atleta Tarzan, pioneiro do fisiculturismo em Goiás, a academia reunia musculação e banhos de vapor.

De acordo com os pesquisadores, o arranjo apresentava semelhanças com spas gays norte-americanos dos anos 1960. Embora esse não fosse o público-alvo do proprietário, práticas homossexuais masculinas contribuíram para a configuração daquele espaço. O estudo aponta ainda uma relação entre o culto ao corpo, a música sertaneja e o repertório arquitetônico historicizante.

O terceiro ato descrito no artigo é associado ao surgimento do “sertanejo universitário”, à figura do “agroboy” e à mansão do cantor Gusttavo Lima, que ganhou repercussão nas redes sociais em 2019. Com um pórtico de grandes dimensões, a residência passou a ser associada ao ideal de sucesso imediato.

Em 2025, o Barranco Ateliê instalou uma réplica de uma das colunas da mansão no Centro Cultural da UFG, durante a exposição Não Vou Negar, com curadoria de Paulo Duarte-Feitoza.

TEATRO GOIANIA
Foto: Gabriel Louza/O HOJE

Arquitetura greco-goiana divide espaço com Art Déco

A expansão da estética ocorre em um período de reconhecimento institucional do patrimônio Art Déco de Goiânia. Em 21 de maio de 2026, o prefeito Sandro Mabel sancionou a Lei nº 11.630, que concedeu oficialmente à cidade o título de Capital Nacional da Art Déco e reconheceu o acervo como patrimônio cultural material.

Goiânia possui o segundo maior conjunto Art Déco do mundo, atrás apenas de Miami Beach. Apesar do reconhecimento, o patrimônio enfrenta problemas de conservação e alterações visuais no centro da Capital, incluindo placas publicitárias e tapumes comerciais.

O arquiteto e urbanista Fred Le Blue Assis relaciona o cenário ao descaso com o patrimônio e à pressão imobiliária. Entre os exemplos citados está a demolição do edifício Selvi. Na avaliação do arquiteto, o processo contribuiu para a presença de estilos pós-modernos e ecléticos no mercado imobiliário.

Para Fred Le Blue, a arquitetura greco-goiana também está inserida em uma disputa sobre a identidade urbana de Goiânia. O Art Déco, segundo a análise, representava a ruptura com o coronelismo e a modernização associada ao período posterior a 1930. Já o neoclassicismo presente nas construções greco-goianas, em referências como as Lojas Havan, templos neopentecostais e mansões sertanejas, é associado pelo arquiteto ao bolsonarismo, ao neopentecostalismo e ao agronegócio liberal.

“Trata-se de um movimento sincrético que congrega paganismo politeísta com cristianismo monoteísta, militarismo neopositivista com neocoronelismo rural, patriotismo com norte-americanomania”, afirma Fred Le Blue.

Segundo a análise, a utilização de referências clássicas em propriedades privadas representa um processo de “espacialização política” e “mitologização”, por meio do qual determinados grupos buscam afirmar uma identidade e uma posição social.

Fred Le Blue também critica a substituição de referências arquitetônicas históricas por reproduções neoclássicas, comparando o processo à troca do Monumento às Três Raças por uma réplica da deusa Atenas amamentando Rômulo e Remo.

Apesar das críticas ao estilo, classificado pelo arquiteto como “cafonice aberrante” e associado a uma estética de motel, Fred Le Blue rejeita propostas de demolição. A demolição do Palácio Monroe, promovida por Lúcio Costa em nome do modernismo, é citada como um episódio que não deveria ser repetido. Para o arquiteto, a liberdade de criação deve coexistir com a preservação histórica.

 

 

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