Falta de doadores limita transplantes em crianças; recusa familiar chegou a 45% dos casos em 2025
Apenas 2% das notificações de doadores falecidos correspondem a crianças; tamanho do órgão é fator decisivo na compatibilidade e restringe ainda mais as possibilidades de transplante pediátrico
No transplante pediátrico, encontrar um órgão disponível não significa, por si só, encontrar um órgão que possa ser usado. Em crianças, peso, altura e tamanho do órgão entram de forma decisiva na compatibilidade, tornando a busca mais restrita do que em muitos casos adultos. A dificuldade começa na própria oferta: apenas cerca de 2% das notificações de doadores falecidos correspondem a crianças.
Esse cenário aparece nos números nacionais. Dados do Ministério da Saúde mostram que, de janeiro a julho de 2026, foram realizados 278 transplantes pediátricos de órgãos no país: 24 de coração, 114 de fígado e 140 de rim. Em 2025, foram 589 procedimentos, entre transplantes cardíacos, hepáticos, pulmonares e renais. Dos 829 serviços de saúde autorizados a transplantar órgãos no Brasil, 70 realizaram transplantes pediátricos naquele ano.
A distribuição dos órgãos não segue apenas o tempo de espera. A lista única do SUS considera critérios técnicos, clínicos e a compatibilidade entre doador e receptor. Para crianças, o tamanho do órgão é um dos pontos centrais. Mais da metade dos transplantes pediátricos, 53%, utiliza órgãos de doadores de 11 a 17 anos.
Mesmo quando há possibilidade de doação, outra barreira pode interromper o processo. Em 2025, a recusa familiar ocorreu em 45% dos casos de potenciais doadores, de acordo com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos. Nos casos que envolvem crianças, a resistência tende a ser ainda maior, em meio ao impacto de mortes súbitas e à dificuldade de discutir a doação em um momento de luto.
Em situações específicas, a doação em vida amplia as alternativas. Adultos saudáveis e juridicamente capazes podem doar um dos rins ou parte do fígado, desde que haja compatibilidade e avaliação médica que confirme segurança para o doador.
Para crianças na fila, o problema não é apenas esperar por um órgão. É esperar por um órgão adequado ao seu corpo e que chegue efetivamente ao sistema de transplantes. Em um cenário de oferta limitada, ampliar a conversa sobre doação pode ajudar a reduzir uma das barreiras que ainda separam pacientes pediátricos do procedimento.
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