Césio-137: intervenção em Goiânia resgata gesto decisivo de Maria Gabriela
“Áspera espera” percorre pontos ligados ao Césio-137 e recoloca a personagem no centro da memória do acidente
Na madrugada desta segunda-feira (28), uma cadeira de estrutura metálica foi instalada em quatro pontos de Goiânia ligados ao acidente com o césio-137. Sobre o assento, um saco de tecido recompõe a cena de 39 anos atrás, quando Maria Gabriela Ferreira atravessou a cidade de ônibus levando à Vigilância Sanitária a peça que suspeitava estar por trás do adoecimento de familiares e vizinhos.
A intervenção “Áspera espera”, do artista e professor Glauco Gonçalves, ocupa o Centro de Convenções, a Rua 57, a Rua 26-A e o Palácio das Esmeraldas. As cadeiras ficam nos locais até que alguém as retire. A escolha da data contesta o calendário da tragédia, que costuma começar em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores retiraram o aparelho de radioterapia do antigo Instituto Goiano de Radioterapia. Para Glauco, o marco deveria ser 1985, quando a clínica deixou o prédio com o equipamento dentro. “A tragédia criminosa não começa com esses dois pobres catadores que andam pela cidade em busca de um material para reciclagem”, afirma. Do outro lado, estavam “responsáveis por uma clínica que tinham plena consciência do que estavam deixando naquele terreno”, diz.
Se o 13 não marca o começo, o 28 marca o início do fim. “Eu acho que o dia 28 é quando se começa a acabar com o problema”, diz. “O dia 28 talvez seja o dia mais decisivo a meu ver.”
A mulher que levou a peça
Aos 37 anos, Maria Gabriela vivia com o marido, Devair Alves Ferreira, e ajudava no ferro-velho da família, no Setor Aeroporto. Depois que partes do equipamento chegaram ao local, pessoas próximas passaram a ter náuseas, vômitos, fraqueza e irritações na pele.
Foi ela quem relacionou o objeto aos adoecimentos. Com o funcionário Geraldo Guilherme, recuperou a peça em outro ferro-velho e seguiu de ônibus até a Vigilância Sanitária, na Rua 16-A. Ainda não sabia que carregava uma fonte radioativa.
Sem esse gesto, avalia Glauco, a contaminação “poderia chegar a proporções em que essa cidade nem sequer poderia seguir sendo habitada”. “Quantas pessoas mais poderiam ter morrido?”, questiona.
Glauco conta que demorou a encontrar uma forma de tratar artisticamente um episódio marcado por mortes, sofrimento e sequelas que seguem na vida de sobreviventes e familiares. “É muito difícil fazer trabalhos sobre esse tema porque eu tinha um receio muito grande de ser desrespeitoso com as pessoas vivas e também com as que já não estão mais aqui”, afirma. A intenção era produzir algo com “sensibilidade, força” e, acima de tudo, reconhecimento.
A saída veio da cena protagonizada por Maria Gabriela. “Não é repetir o pó brilhando e se espalhando pela cidade. É repetir a cena quando esse pó foi retirado da cidade, quando essa peça radioativa foi retirada da cidade”, diz.
Foi sobre uma cadeira semelhante que a peça ficou na Vigilância Sanitária, e o título parte da expressão “esperar sentado”. “A cadeira é um objeto muito singelo, muito corriqueiro da vida cotidiana, mas aqui ela ganha um peso”, diz Glauco. A réplica já não sustenta material radioativo. Para o artista, carrega agora o reconhecimento ainda devido a Maria Gabriela, às vítimas e aos trabalhadores da emergência.
Quatro endereços
O Centro de Convenções ocupa a área onde funcionava o instituto. “Foi ali que tudo começou”, diz o artista. Levar a cadeira até lá é, para ele, quase “devolver o material de onde ele nunca deveria ter saído”.
Na Rua 57, no Centro, ficava a casa de um dos catadores, onde o aparelho começou a ser desmontado. Na Rua 26-A, funcionava o ferro-velho de Devair, onde a cápsula foi aberta por completo. Os dois lotes foram concretados e seguem vazios. Neles, a cadeira aparece sozinha, para evidenciar a falta de referências públicas ao que aconteceu ali.
No Palácio das Esmeraldas, a cadeira foi posicionada diante do busto de Pedro Ludovico e dirige-se ao ente que o artista aponta como principal devedor. Para ele, “a primeira instância e a mais responsável era e segue sendo o poder público estadual”. “É assustador, é estarrecedor, é inacreditável”, diz sobre a ausência de um agradecimento público a Maria Gabriela.
Glauco inclui entre as pendências o memorial dedicado ao césio-137. A Lei Municipal 11.692/2026, sancionada pelo prefeito Sandro Mabel em agosto, criou o Memorial e Museu Césio-137, mas o local ainda não foi definido.
A espera
Maria Gabriela morreu em 23 de outubro de 1987, 25 dias depois de entregar a peça à Vigilância Sanitária. A mulher que tirou o césio do meio da cidade foi a primeira vítima fatal do acidente. Horas depois, morreu a sobrinha Leide das Neves, de 6 anos, que se tornaria o símbolo da tragédia.
A data de sua morte deu nome ao Dia Maria Gabriela Ferreira, no calendário oficial de Goiânia. Para Glauco, é pouco diante do que ela fez. “Essa mulher de maneira solitária e heroica retira esse material do meio da cidade, do meio da sociedade, do meio das pessoas”, afirma. “Até quando a sociedade goianiense vai seguir sem prestar as devidas homenagens a Maria Gabriela?”
Enquanto a resposta não vem, as cadeiras seguem nos quatro endereços, à espera de quem as retire. “Até quando essa áspera espera terá que continuar?”, pergunta o artista.
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