Césio-137: 39 anos depois, Goiânia ainda convive com as marcas da tragédia
O acidente que mobilizou milhares de pessoas em 1987 deixou quatro vítimas fatais, 249 contaminados e consequências que permanecem na vida de gerações
Há 39 anos, Goiânia foi palco do maior acidente radiológico do mundo. O episódio, envolvendo o Césio-137, ocorreu em setembro de 1987 e provocou uma mobilização que envolveu autoridades, profissionais de saúde, pesquisadores, imprensa e milhares de moradores. Ao todo, 112,8 mil pessoas foram monitoradas, e 249 apresentaram algum grau de contaminação.
O acidente não terminou com a retirada da fonte radioativa e a descontaminação das áreas atingidas. Quase quatro décadas depois, vítimas e descendentes continuam sendo acompanhados pelo sistema de saúde de Goiás, enquanto a história permanece como um dos episódios mais marcantes da capital.
Como aconteceu
O acidente começou em 13 de setembro de 1987, quando parte de um aparelho de radioterapia abandonado no antigo prédio onde funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia foi retirada do local. A cápsula que continha a fonte de Césio-137 acabou sendo levada para um ferro-velho, onde foi manipulada e desmontada.
A partir daí, o material radioativo passou por diferentes locais e entrou em contato com várias pessoas. O pó de Césio-137, que emitia uma luz azulada no escuro, acabou sendo levado para casas e compartilhado entre familiares e conhecidos.
A descoberta da contaminação ocorreu somente dias depois. Segundo o livro Césio 137 – 37 anos: a história do acidente radioativo em Goiânia, os primeiros sintomas — como náuseas, vômitos, tonturas e diarreia — começaram algumas horas após o contato com o material. Sem saber a origem dos sintomas, algumas pessoas procuraram farmácias e hospitais e chegaram a ser tratadas como se tivessem doenças infectocontagiosas.
Em 29 de setembro de 1987, a presença de radiação foi identificada no ferro-velho de Devair Alves Ferreira. O local foi isolado, e Devair, familiares e alguns vizinhos foram retirados da área.
A confirmação desencadeou uma grande operação de monitoramento e descontaminação. A população foi encaminhada ao Estádio Olímpico para passar por medições de radioatividade. No total, 112.800 pessoas foram monitoradas; desse grupo, 249 apresentaram algum grau de contaminação e, em 120 casos, a contaminação era externa, restrita às roupas e aos sapatos.
Atendimento às pessoas contaminadas
Das 249 pessoas contaminadas, 129 precisaram de acompanhamento médico especial. Trinta delas foram atendidas em regime de semi-isolamento em estruturas montadas no Estádio Olímpico e na antiga Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem). Outras 20 foram encaminhadas ao Hospital Geral de Goiânia.
Quatorze pacientes tiveram agravamento do quadro e foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, referência no atendimento a radioacidentados.
A descontaminação de Goiânia começou em 30 de setembro de 1987 e foi concluída em 21 de dezembro daquele ano.
As quatro vítimas fatais
Quatro pessoas morreram em decorrência direta do acidente com o Césio-137: Leide das Neves Ferreira, Maria Gabriela Ferreira, Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza. O próprio livro da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) apresenta os quatro como as vítimas fatais diretas do acidente.
Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, filha de Ivo Ferreira, foi a vítima que recebeu a maior dose de contaminação radioativa. Ela morreu em 23 de outubro de 1987, no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, em decorrência de hemorragia em múltiplos órgãos; seu caixão especial, revestido com chumbo, pesava 700 quilos. No mesmo dia, morreu Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos, esposa de Devair Ferreira, proprietário do ferro-velho , segundo o livro, ela adoeceu cerca de três dias depois de ter contato com a substância e também foi sepultada em um caixão especial.
Israel Baptista dos Santos, de 22 anos, era funcionário de Devair e trabalhou na remoção do chumbo que envolvia a fonte radioativa; foi internado no Hospital Naval Marcílio Dias e morreu em 27 de outubro de 1987. A quarta vítima foi Admilson Alves de Souza, de 18 anos, também funcionário de Devair, que manipulou a fonte radioativa e morreu em 28 de outubro de 1987, no mesmo hospital.
Os corpos das vítimas foram transportados em caixões especiais. O livro registra imagens dos caixões de chumbo e relata a reação da população durante os sepultamentos: no enterro de Leide, mais de duas mil pessoas se concentraram no Cemitério Parque, e houve tentativa de impedir a entrada do caixão.
O impacto que permaneceu
O acidente deixou marcas que ultrapassaram a contaminação radioativa. O livro da SES-GO reúne relatos de vítimas, familiares, profissionais de saúde, pesquisadores, trabalhadores envolvidos na descontaminação e jornalistas que acompanharam o episódio.
A assistência às pessoas atingidas também não terminou com o encerramento da operação de descontaminação. O Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (Cara) passou a oferecer acompanhamento aos radioacidentados e a seus descendentes. A publicação da SES-GO afirma que esse acompanhamento alcança atualmente a terceira geração.
A experiência também produziu conhecimentos científicos e protocolos relacionados à exposição à radiação e ao acompanhamento de longo prazo. Segundo o livro, o monitoramento epidemiológico da população radioacidentada permanece entre as atividades desenvolvidas pelo Cara.
Memorial e Museu Césio-137
Quase quatro décadas depois do acidente, Goiânia também avançou na criação de um espaço dedicado à preservação dessa memória.
A Lei Municipal nº 11.692/2026, sancionada pelo prefeito Sandro Mabel em 27 de agosto de 2026, instituiu oficialmente o Memorial e Museu Césio-137 no município. A proposta é de autoria do vereador Lucas Kitão.
De acordo com a lei, o espaço será implantado em área pública a ser definida pelo Poder Executivo. Entre os objetivos estão preservar a memória das vítimas, reconhecer o trabalho dos profissionais envolvidos e promover a conscientização sobre os impactos do acidente. A legislação também prevê exposições permanentes e temporárias, além de atividades culturais, científicas e educativas.
Exposição resgata memória de Leide
Enquanto o novo memorial ainda aguarda a definição do local, a história do acidente também ganha espaço em uma exposição no Museu de Arte de Goiânia (MAG).
A exposição “Memórias de Dona Lourdes: Ver para não esquecer” foi aberta na terça-feira (15), às 19h, e permanece em cartaz até 12 de outubro. A mostra reúne fotografias, documentos jornalísticos, relatos e parte do testemunho de Dona Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide das Neves.
A proposta é apresentar uma perspectiva diferente sobre o acidente radiológico com o Césio-137, aproximando a memória pessoal da história coletiva e mostrando Leide para além da condição de vítima fatal, com registros de sua infância, dos afetos e da convivência familiar.
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Leide é um dos nomes mais lembrados do acidente. Aos seis anos, ela foi a vítima que recebeu a maior dose de contaminação radioativa pelo Césio-137 e morreu em 23 de outubro de 1987, no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro.
A exposição, portanto, busca deslocar o olhar exclusivamente sobre a tragédia e recuperar também a história da menina antes do acidente, preservando memórias familiares que ajudam a mostrar quem era Leide para além do episódio que marcou sua vida e a história de Goiânia. (Especial para O HOJE)
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