Câmara de Goiânia aprova criação do Museu e Memorial do Césio-137
Projeto aprovado pela Câmara prevê a criação de um memorial e reacende o debate sobre a preservação da história
Trinta e oito anos após o acidente radiológico com césio-137 em Goiânia, a Câmara Municipal aprovou por unanimidade, na última semana, o projeto de lei de autoria do vereador Lucas Kitão (Mobiliza) que cria o Museu e Memorial do Césio-137. A proposta segue agora para sanção do prefeito Sandro Mabel. A iniciativa ocorre após a morte de um sobrevivente histórico do acidente e um incêndio florestal nas proximidades do local onde os rejeitos radioativos estão armazenados, em Abadia de Goiás.
O projeto prevê a criação de um espaço cultural, educativo e científico destinado à preservação da memória do acidente ocorrido em 1987. Segundo Lucas Kitão, a proposta teve como referência espaços internacionais, como o Museu e Memorial do World Trade Center, em Nova York. A intenção é reunir exposições permanentes e temporárias sobre os impactos sociais, históricos e sanitários do episódio.
O endereço do futuro museu ainda será definido pelo Poder Executivo. Entre os locais considerados está a área de um antigo ferro-velho no Setor Aeroporto, apontada como um dos pontos centrais do acidente, onde a cápsula contendo césio-137 foi aberta e o material radioativo acabou sendo manipulado. A proposta também prevê a integração do espaço à malha urbana, com possibilidade de utilização em excursões escolares e pesquisas universitárias.
De acordo com Kitão, o projeto foi apresentado antes do interesse renovado sobre o acidente provocado pela série “Emergência Radioativa”, da Netflix. O vereador também critica o fato de produções audiovisuais relacionadas ao episódio serem frequentemente gravadas fora de Goiás. “O museu será não apenas um espaço de homenagem, mas também de reflexão e educação, contribuindo para que as futuras gerações conheçam os fatos, combatam o preconceito e valorizem a ciência”, afirmou.
A discussão sobre a preservação da memória ganhou novo destaque após a morte de Lucimar das Neves Ferreira, aos 52 anos, em 25 de julho de 2026. Irmão de Leide das Neves, Lucimar tinha 14 anos quando ocorreu o acidente. Leide, aos seis anos, tornou-se um dos principais símbolos da tragédia após ingerir partículas do material radioativo.
Segundo Marcelo Santos Neves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, Lucimar enfrentava problemas de saúde e lutava contra o alcoolismo. O corpo foi encontrado em uma residência em Aparecida de Goiânia e o sepultamento ocorreu em Abadia de Goiás, com a presença de familiares. A família também foi marcada pelas mortes de Leide e da tia, Maria Gabriela.
A morte de Lucimar também trouxe novamente para o debate a assistência às vítimas do acidente. O Governo de Goiás anunciou recentemente um reajuste de quase 70% nas pensões de mais de 600 beneficiários. Associações de vítimas, porém, ainda relatam dificuldades no acesso a medicamentos gratuitos e a suporte psiquiátrico especializado para o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático.

História do acidente
O acidente radiológico começou em 13 de setembro de 1987, quando os catadores de recicláveis Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves retiraram uma peça de chumbo de um aparelho de radioterapia abandonado nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no Centro de Goiânia. Após a abertura da blindagem, 19,2 gramas de cloreto de Césio-137 foram expostas. O material era um pó que emitia um brilho azulado no escuro.
A substância chegou ao ferro-velho de Devair Alves Ferreira, que distribuiu fragmentos para amigos e familiares. Parte do material entrou em contato direto com a pele e foi manipulada por crianças. A dimensão da contaminação começou a ser identificada em 28 de setembro, quando Maria Gabriela Ferreira levou a peça à Vigilância Sanitária em um ônibus. A partir da identificação do material, áreas foram isoladas e mais de 112 mil pessoas passaram por triagem no Estádio Olímpico.
O acidente resultou em 6 mil toneladas de rejeitos radioativos e quatro mortes imediatas confirmadas: Leide das Neves, Maria Gabriela Ferreira, Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza. Durante o período de contaminação, a população também tentou impedir o sepultamento de Leide com pedras, devido ao temor de contaminação do solo.
A segurança do armazenamento dos rejeitos voltou ao centro das atenções após um incêndio florestal atingir, um dia antes da aprovação do projeto, o Parque Estadual Telma Ortegal, em Abadia de Goiás. O fogo começou na área externa e avançou sobre a vegetação nativa da unidade de conservação.
A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad) e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) informaram que as estruturas de concreto onde o material está enterrado não foram atingidas pelo incêndio e que não havia risco de vazamento.
O monitoramento ambiental do Depósito Definitivo de Abadia de Goiás, localizado no Parque Estadual Telma Ortegal, é realizado trimestralmente pela CNEN, por meio do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO).
As análises abrangem amostras de solo, vegetação, águas superficiais e subterrâneas, com o objetivo de acompanhar possíveis alterações no ambiente e verificar a presença de material radioativo. Os rejeitos estão armazenados em contêineres concretados sob dois montes simétricos. Além do controle ambiental, o CRCN-CO utiliza a área para pesquisas científicas relacionadas à radioatividade. O monitoramento deve ser mantido por um período estimado entre 180 e 300 anos.
O vereador Anselmo Pereira destacou que a ocorrência do incêndio reforça, na avaliação apresentada durante a discussão do projeto, a necessidade de vigilância permanente e de ações de educação sobre os riscos relacionados ao acidente e aos rejeitos.
A proposta do museu também está relacionada ao debate sobre o estigma associado ao acidente e aos locais atingidos. Episódios recentes de discriminação, incluindo comentários ofensivos publicados em redes sociais por grandes marcas, mantiveram o tema em discussão.
Paralelamente ao projeto aprovado pela Câmara Municipal, tramita na Assembleia Legislativa uma proposta para transformar 13 de setembro em feriado cívico e memorial. A iniciativa prevê a realização de campanhas educativas anuais sobre o acidente.
A criação do Museu e Memorial do Césio-137 ainda depende da sanção do prefeito Sandro Mabel e da definição do local e das demais etapas para implantação.
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