Mabel prevê R$ 1,65 bi para investir em Goiânia, mas Imas segue com contas no vermelho
Enquanto o Paço prevê forte alta nos investimentos para 2027, instituto acumula passivo de R$ 226 milhões e enfrenta discussão sobre alternativas para equilibrar as contas
A proposta da Lei Orçamentária Anual (LOA) de Goiânia para 2027 chega ao debate com uma cifra expressiva: R$ 1,65 bilhão previsto para investimentos. O valor representa crescimento superior a 80% em relação ao montante previsto na LOA de 2026, dentro de um orçamento total estimado em R$ 11,7 bilhões, alta de 8,27%. O prefeito Sandro Mabel apresentou o próximo ano como o “ano da transformação”, associando a expansão dos investimentos à recuperação das contas municipais.
O número, porém, não responde sozinho à principal questão sobre a capacidade financeira da prefeitura. Uma previsão de investimento não significa que o município já tenha esse dinheiro em caixa, nem que todo o montante esteja livre para qualquer área. A LOA estima receitas e autoriza despesas; a execução dependerá da arrecadação e das fontes previstas no orçamento.
É nessa diferença entre orçamento, dinheiro disponível e prioridades que aparece a questão do Instituto Municipal de Assistência à Saúde dos Servidores de Goiânia (Imas). Enquanto a prefeitura anuncia uma capacidade de investimento muito maior para 2027, o instituto continua com passivo estimado em R$ 226 milhões e enfrenta dificuldades financeiras e operacionais que levaram a gestão a defender uma reestruturação.
A discussão, portanto, não é simplesmente perguntar por que os R$ 1,65 bilhão não são usados para recuperar o Imas. É saber quanto desse valor tem fonte definida, quanto dependerá de receitas futuras e qual será a margem financeira disponível para enfrentar problemas já existentes.
Receita prevista precisa virar recurso disponível
Ainda assim, o ponto central para avaliar os R$ 1,65 bilhão é saber de onde virá cada parcela. O orçamento pode reunir recursos próprios, transferências, convênios, operações de crédito e outras fontes, com regras diferentes de utilização. Por isso, o valor anunciado para investimentos não pode ser tratado automaticamente como dinheiro livre no caixa.
O economista Leonardo Ferraz chama atenção para essa diferença. Segundo o especialista, é preciso identificar a origem dos recursos e verificar quanto depende de receitas que ainda serão arrecadadas. Também é necessário separar previsão orçamentária, disponibilidade de caixa e dinheiro efetivamente disponível para investimentos.
Essa distinção é importante porque uma prefeitura pode projetar investimentos elevados e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades financeiras em órgãos com despesas próprias. A previsão de recursos para obras não significa que esses valores possam ser simplesmente deslocados para cobrir um passivo de saúde.
Imas continua com passivo milionário
O Imas, responsável pela assistência à saúde de servidores municipais e seus dependentes, enfrenta passivo estimado em R$ 226 milhões e reúne mais de 83 mil usuários. Além do desequilíbrio financeiro, há problemas de gestão e estrutura operacional.
A contratação de uma empresa especializada em apoio à gestão do instituto é uma das medidas defendidas pela prefeitura para reorganizar o modelo. A proposta vencedora ficou em aproximadamente R$ 10,6 milhões, abaixo da estimativa inicial de R$ 12,3 milhões. O processo, contudo, também passou por questionamentos nos órgãos de controle e pela Justiça.
A contratação pode reorganizar processos, mas não elimina automaticamente o passivo. O problema envolve a sustentabilidade financeira do instituto e a necessidade de garantir atendimento aos usuários sem transformar a dívida atual em uma conta ainda maior.
É nesse ponto que se abre uma discussão sobre patrimônio. A utilização ou venda de imóveis públicos pode gerar receita extraordinária, mas representa uma solução patrimonial, e não necessariamente uma resposta estrutural para despesas que se repetem todos os anos. Se um ativo é vendido para fazer frente a uma obrigação, o município recebe um recurso pontual; a necessidade de custeio permanece.
Patrimônio não resolve despesas permanentes
A prefeitura apresenta 2027 como um ano de expansão dos investimentos em saúde, educação, infraestrutura, mobilidade, saneamento e urbanismo. Entre os anúncios estão R$ 250 milhões para investimentos na Saúde, R$ 400 milhões na Educação, R$ 127 milhões em ciência e tecnologia e pelo menos R$ 500 milhões para macrodrenagem e infraestrutura.
A cifra cria uma expectativa sobre a capacidade do município de enfrentar também problemas financeiros antigos. Mas o orçamento de investimentos não é uma conta bancária única. Parte dos recursos possui destinação vinculada e parte depende da realização de receitas futuras. Assim, não é possível afirmar que os R$ 1,65 bilhão poderiam ser integralmente usados para solucionar o Imas.
O questionamento é outro: se a situação fiscal permite ampliar em mais de 80% a previsão de investimentos, qual será o espaço de recursos livres da prefeitura no ano de 2027.
A resposta também precisa considerar que patrimônio público é finito. A venda de imóveis pode gerar receita, mas uma receita extraordinária não substitui uma solução para despesas permanentes. No caso do Imas, a pergunta não é apenas como pagar os R$ 226 milhões acumulados, mas como impedir que um novo passivo seja formado.
Execução será o teste da LOA
A prefeitura afirma que recuperou sua capacidade de investimento e que 2027 será marcado pela realização de obras e projetos. A proposta será analisada pela Câmara Municipal antes da votação.
A experiência dos anos anteriores foi importante para medir a distância entre o que foi projetado e o que efetivamente saiu do papel, acompanhando a arrecadação e os valores empenhados, liquidados e pagos. O mesmo vale para o Imas: será necessário observar se o passivo diminui, se os pagamentos aos prestadores são regularizados e se o instituto reduz a dependência de medidas extraordinárias.
Nesse caso, se há mais dinheiro disponível, é preciso mostrar quanto existe, de onde vem e quais compromissos já estão vinculados ao recursos. A prefeitura também precisa explicar por que, diante de uma previsão de R$ 1,65 bilhão em investimentos, a solução para um passivo de R$ 226 milhões pode envolver a venda de patrimônio público.
Leia mais aqui:
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.