Quase 60% dos hipertensos abandonam o tratamento quando a pressão melhora; cardiologista explica o erro
Pressão controlada pelo medicamento não significa cura, mas que o tratamento está funcionando; doença pode causar AVC, infarto e danos ao cérebro sem dar nenhum sinal
A pressão volta ao normal, o paciente se sente bem e chega a uma conclusão lógica, porém equivocada: não precisa mais do remédio. O raciocínio ajuda a explicar o dado de um estudo multicêntrico com 2.578 pacientes de todas as regiões do país, publicado no International Journal of Cardiovascular Sciences: quase 60% dos brasileiros com hipertensão não seguem o tratamento prescrito.
A cardiologista Lorena Rebouças conhece bem a cena. “Como a hipertensão geralmente não causa sintomas, a pessoa começa a tomar o remédio, a pressão melhora, ela pensa que está bem e abandona o tratamento. Mas, muitas vezes, ela está bem justamente porque o tratamento está funcionando”, afirma.
O paradoxo resume a dificuldade de lidar com a doença. O número baixo no visor não é sinal de cura, e sim de controle. “Hipertensão controlada por medicamento continua sendo hipertensão”, diz a médica.
Dano sem aviso
Definida pela pressão persistentemente igual ou acima de 140/90 mmHg, a hipertensão trabalha sem incomodar. Enquanto isso, sobrecarrega o coração, desgasta as artérias e abre caminho para AVC, infarto, insuficiência cardíaca, arritmias, doença renal crônica e até cegueira. O estrago pode alcançar também a memória, já que a pressão alta tem relação com quadros de demência.
“A pessoa pode passar anos com a pressão alta, sentindo-se bem, enquanto a doença vai prejudicando os vasos, o coração, os rins e o cérebro. Por isso, não devemos esperar sentir alguma coisa para medir a pressão”, alerta Lorena.
Quando o corpo finalmente dá sinal, costuma ser tarde. “Quando aparece um sintoma ou uma complicação, como um AVC ou um infarto, muitas vezes a doença já vinha evoluindo há bastante tempo. A hipertensão não costuma avisar. A única forma de saber se a pressão está alta é medir”, diz.
Não é doença de idoso
O risco cresce com os anos, mas a medição não deveria esperar a velhice. A pressão alta aparece em adultos jovens e, em alguns casos, em crianças e adolescentes, sobretudo quando há excesso de peso, sedentarismo, apneia do sono, doença renal ou casos na família.
“Genética é predisposição, não destino. Mesmo quem tem histórico familiar pode reduzir bastante o risco cuidando dos fatores que podem ser modificados”, afirma a cardiologista.
É na rotina que o tratamento ganha ou perde força. Menos sal, açúcar e ultraprocessados, mais frutas e verduras, exercício, sono em dia, cigarro fora e álcool com moderação formam a base. A barriga pede atenção extra, pela ligação com obesidade, resistência à insulina e síndrome metabólica. Quando isso não basta, os remédios completam o cuidado, às vezes combinados.
No Setembro Vermelho, mês dedicado à prevenção das doenças cardiovasculares, a mensagem da médica vai além do coração. “Controlar a pressão é cuidar do cérebro. Quando tratamos a hipertensão não estamos apenas baixando um número no aparelho, mas protegendo o coração, o cérebro, os olhos, os rins e os vasos sanguíneos”, diz. A pressão normal no visor, afinal, não é alta médica. É a prova de que o remédio está fazendo o seu trabalho.
LEIA MAIS:
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.