Goiânia recebe título de Capital Nacional da Art Déco com desafio da preservação
Lei reconhece oficialmente o acervo arquitetônico da Capital como patrimônio cultural material e reacende discussões sobre revitalização do Centro, conservação urbana e potencial turístico
No dia 21 de maio de 2026, Goiânia passou a ter oficialmente o título de Capital Nacional da Art Déco. A Lei nº 11.630, sancionada pelo prefeito Sandro Mabel, reconhece o acervo arquitetônico da cidade como patrimônio cultural material e reforça a identidade urbana presente desde a fundação da Capital, na década de 1930. Para arquitetos, urbanistas e pesquisadores, o reconhecimento amplia o debate sobre preservação histórica, revitalização do Centro e utilização do patrimônio como instrumento de desenvolvimento econômico, cultural e turístico.
O reconhecimento ocorre em meio às discussões sobre o futuro da região central da cidade, marcada pela degradação de imóveis históricos, pelo avanço da descaracterização arquitetônica e pela perda de espaços tradicionais de convivência urbana. Para especialistas, a nova legislação deve servir não apenas como reconhecimento simbólico, mas como ponto de partida para políticas públicas permanentes voltadas à preservação e à ocupação qualificada do Centro.
O estilo Art Déco em Goiânia esteve diretamente ligado ao projeto político de modernização implementado durante o governo de Getúlio Vargas e à atuação do interventor Pedro Ludovico Teixeira. Segundo o arquiteto e urbanista Fred Le Blue Assis, a arquitetura foi utilizada como símbolo da ideia de progresso defendida pela política da “Marcha para o Oeste”, que buscava estimular a ocupação e o desenvolvimento do interior do País.
“Goiânia foi a capital de Vargas, assim como Brasília foi a de JK”, afirma Fred. De acordo com ele, a nova capital goiana foi planejada para representar uma ruptura com o passado colonial associado à antiga capital, Vila Boa, atual Cidade de Goiás. A escolha pelo Art Déco buscava transmitir uma imagem de modernidade, racionalidade urbana e desenvolvimento econômico.
Com linhas geométricas, fachadas simétricas e elementos escalonados, o estilo passou a marcar a paisagem urbana da Capital. Entre os principais exemplos estão o Museu Zoroastro Artiaga, o Teatro Goiânia, o Lyceu de Goiânia, o Jóquei Clube e o Palácio das Esmeraldas. As construções apresentam características como o streamline, inspirado em formas aerodinâmicas de navios e locomotivas, além de vitrais e elementos decorativos relacionados ao avanço urbano e industrial.
Apesar do reconhecimento oficial, especialistas alertam que parte significativa do patrimônio arquitetônico da cidade enfrenta problemas de conservação e descaracterização. O professor de arquitetura e urbanismo da UFG, Glauco Gonçalves, afirma que o acervo histórico do Centro permanece escondido sob placas publicitárias e intervenções urbanas desordenadas.
Segundo ele, muitas fachadas Art Déco deixaram de ser percebidas pela população devido à poluição visual causada pela instalação irregular de letreiros comerciais. Para o professor, o novo título nacional deveria impulsionar medidas de requalificação urbana semelhantes à “Lei Cidade Limpa”, implantada em São Paulo para regulamentar a publicidade externa.
“Temos centenas de casarios e fachadas com o estilo Art Déco tampados por placas de publicidade desproporcionais e feias”, afirma Glauco. De acordo com ele, uma política de padronização de letreiros comerciais e reorganização visual da paisagem urbana já permitiria recuperar parte da visibilidade do patrimônio histórico sem necessidade de grandes investimentos públicos.
A preservação do acervo também enfrenta pressão do mercado imobiliário. Glauco cita a demolição do prédio da Selvi como exemplo das perdas arquitetônicas registradas nos últimos anos em Goiânia e defende incentivos fiscais, como redução de IPTU, para proprietários que preservam imóveis históricos.
Especialistas avaliam ainda que o reconhecimento nacional pode fortalecer a imagem de Goiânia no cenário turístico e cultural. Fred Le Blue Assis afirma que a Capital possui o segundo maior sítio Art Déco do mundo, atrás apenas de Miami Beach. Segundo ele, a diferença entre as duas cidades está na mobilização social em defesa do patrimônio histórico.
Fred defende que o título pode ampliar a captação de recursos junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e incentivar a criação de roteiros turísticos voltados ao acervo Art Déco. “Os goianienses precisam se tornar turistas-aprendizes da própria cidade”, afirma.

Revitalização do Centro coloca patrimônio histórico como ativo econômico
A revitalização da região central aparece como um dos principais desafios ligados ao reconhecimento do título de Capital Nacional da Art Déco. Para Glauco Gonçalves, a preservação do patrimônio histórico deve estar associada à retomada das atividades econômicas, culturais e sociais no Centro de Goiânia.
Segundo ele, a presença de atividades ligadas à cultura, gastronomia, moda, arte e entretenimento contribui diretamente para a valorização urbana da região. “A presença de atividades artísticas, culturais, de gastronomia e moda no centro, em associação ao patrimônio, gera uma valorização desses espaços e a roda vira”, afirma.
Fred Le Blue Assis relaciona esse debate às ações do observatório comunitário “Goiânia 100 Por Centro”, iniciativa voltada à ocupação e valorização da região central da Capital. O projeto busca incentivar o uso cotidiano do Centro por diferentes públicos e ampliar o acesso da população aos espaços históricos da cidade.
Entre as iniciativas está a série documental “8X Centro”, que busca dar visibilidade a locais históricos muitas vezes ignorados pela própria população. Entre eles estão a Torre do Relógio, o Beco da Codorna e o Mercado da 74.
A proposta é estimular a ocupação contínua da região central, associando segurança urbana à circulação de pessoas e ao fortalecimento das atividades culturais e comerciais. Para Fred, o patrimônio arquitetônico não pode ser tratado apenas como cenário estético desconectado da vida cotidiana da cidade.
“A arquitetura não é formada só pelo ambiente construído, mas pelo natural e o vivido também”, afirma. Segundo ele, a valorização do Art Déco precisa considerar também as experiências sociais e culturais construídas ao longo da história da Capital.
A lei sancionada em maio de 2026 reconhece a importância do núcleo pioneiro planejado por Attílio Corrêa Lima e posteriormente ampliado por Armando de Godoy. Especialistas defendem, no entanto, que a consolidação de Goiânia como referência internacional em Art Déco depende da articulação entre poder público, universidades, iniciativa privada e sociedade civil para identificar, catalogar e proteger edificações históricas ainda não tombadas oficialmente.
Para Glauco Gonçalves, a preservação do patrimônio exige planejamento urbano permanente, projetos técnicos detalhados e ações contínuas de gestão pública. A avaliação é de que o reconhecimento nacional pode contribuir para transformar o Centro de Goiânia em um espaço voltado à preservação da memória da modernização do Brasil Central e da própria formação histórica da Capital.
“Assim como Goiás não pode abrir mão de Goiânia, Goiânia não pode abrir mão do Centro”, resume Fred Le Blue.