sábado, 22 de agosto de 2026
ART DÉCO

Goiânia recebe título de Capital Nacional da Art Déco com desafio da preservação

Lei reconhece oficialmente o acervo arquitetônico da Capital como patrimônio cultural material e reacende discussões sobre revitalização do Centro, conservação urbana e potencial turístico

Anna Salgadopor Anna Salgado em
Teatro Goiânia
Teatro Goiânia | Teatro Goiânia, Museu Zoroastro Artiaga e Palácio das Esmeraldas estão entre os principais símbolos do conjunto Art Déco presente no núcleo pioneiro da Capital | Foto; Gabriel Louza/ O HOJE

No dia 21 de maio de 2026, Goiânia passou a ter oficialmente o título de Capital Nacional da Art Déco. A Lei nº 11.630, sancionada pelo prefeito Sandro Mabel, reconhece o acervo arquitetônico da cidade como patrimônio cultural material e reforça a identidade urbana presente desde a fundação da Capital, na década de 1930. Para arquitetos, urbanistas e pesquisadores, o reconhecimento amplia o debate sobre preservação histórica, revitalização do Centro e utilização do patrimônio como instrumento de desenvolvimento econômico, cultural e turístico.

O reconhecimento ocorre em meio às discussões sobre o futuro da região central da cidade, marcada pela degradação de imóveis históricos, pelo avanço da descaracterização arquitetônica e pela perda de espaços tradicionais de convivência urbana. Para especialistas, a nova legislação deve servir não apenas como reconhecimento simbólico, mas como ponto de partida para políticas públicas permanentes voltadas à preservação e à ocupação qualificada do Centro.

O estilo Art Déco em Goiânia esteve diretamente ligado ao projeto político de modernização implementado durante o governo de Getúlio Vargas e à atuação do interventor Pedro Ludovico Teixeira. Segundo o arquiteto e urbanista Fred Le Blue Assis, a arquitetura foi utilizada como símbolo da ideia de progresso defendida pela política da “Marcha para o Oeste”, que buscava estimular a ocupação e o desenvolvimento do interior do País.

“Goiânia foi a capital de Vargas, assim como Brasília foi a de JK”, afirma Fred. De acordo com ele, a nova capital goiana foi planejada para representar uma ruptura com o passado colonial associado à antiga capital, Vila Boa, atual Cidade de Goiás. A escolha pelo Art Déco buscava transmitir uma imagem de modernidade, racionalidade urbana e desenvolvimento econômico.

Com linhas geométricas, fachadas simétricas e elementos escalonados, o estilo passou a marcar a paisagem urbana da Capital. Entre os principais exemplos estão o Museu Zoroastro Artiaga, o Teatro Goiânia, o Lyceu de Goiânia, o Jóquei Clube e o Palácio das Esmeraldas. As construções apresentam características como o streamline, inspirado em formas aerodinâmicas de navios e locomotivas, além de vitrais e elementos decorativos relacionados ao avanço urbano e industrial.

Apesar do reconhecimento oficial, especialistas alertam que parte significativa do patrimônio arquitetônico da cidade enfrenta problemas de conservação e descaracterização. O professor de arquitetura e urbanismo da UFG, Glauco Gonçalves, afirma que o acervo histórico do Centro permanece escondido sob placas publicitárias e intervenções urbanas desordenadas.

Segundo ele, muitas fachadas Art Déco deixaram de ser percebidas pela população devido à poluição visual causada pela instalação irregular de letreiros comerciais. Para o professor, o novo título nacional deveria impulsionar medidas de requalificação urbana semelhantes à “Lei Cidade Limpa”, implantada em São Paulo para regulamentar a publicidade externa.

“Temos centenas de casarios e fachadas com o estilo Art Déco tampados por placas de publicidade desproporcionais e feias”, afirma Glauco. De acordo com ele, uma política de padronização de letreiros comerciais e reorganização visual da paisagem urbana já permitiria recuperar parte da visibilidade do patrimônio histórico sem necessidade de grandes investimentos públicos.

A preservação do acervo também enfrenta pressão do mercado imobiliário. Glauco cita a demolição do prédio da Selvi como exemplo das perdas arquitetônicas registradas nos últimos anos em Goiânia e defende incentivos fiscais, como redução de IPTU, para proprietários que preservam imóveis históricos.

Especialistas avaliam ainda que o reconhecimento nacional pode fortalecer a imagem de Goiânia no cenário turístico e cultural. Fred Le Blue Assis afirma que a Capital possui o segundo maior sítio Art Déco do mundo, atrás apenas de Miami Beach. Segundo ele, a diferença entre as duas cidades está na mobilização social em defesa do patrimônio histórico.

Fred defende que o título pode ampliar a captação de recursos junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e incentivar a criação de roteiros turísticos voltados ao acervo Art Déco. “Os goianienses precisam se tornar turistas-aprendizes da própria cidade”, afirma.

 

Lyceu Goiânia
Lyceu Goiânia | Especialistas defendem políticas permanentes de preservação, reorganização visual do Centro e incentivo à ocupação cultural e econômica da região histórica de Goiânia | Foto: Gabriel Louza/ O HOJE

Revitalização do Centro coloca patrimônio histórico como ativo econômico

A revitalização da região central aparece como um dos principais desafios ligados ao reconhecimento do título de Capital Nacional da Art Déco. Para Glauco Gonçalves, a preservação do patrimônio histórico deve estar associada à retomada das atividades econômicas, culturais e sociais no Centro de Goiânia.

Segundo ele, a presença de atividades ligadas à cultura, gastronomia, moda, arte e entretenimento contribui diretamente para a valorização urbana da região. “A presença de atividades artísticas, culturais, de gastronomia e moda no centro, em associação ao patrimônio, gera uma valorização desses espaços e a roda vira”, afirma.

Fred Le Blue Assis relaciona esse debate às ações do observatório comunitário “Goiânia 100 Por Centro”, iniciativa voltada à ocupação e valorização da região central da Capital. O projeto busca incentivar o uso cotidiano do Centro por diferentes públicos e ampliar o acesso da população aos espaços históricos da cidade.

Entre as iniciativas está a série documental “8X Centro”, que busca dar visibilidade a locais históricos muitas vezes ignorados pela própria população. Entre eles estão a Torre do Relógio, o Beco da Codorna e o Mercado da 74.

A proposta é estimular a ocupação contínua da região central, associando segurança urbana à circulação de pessoas e ao fortalecimento das atividades culturais e comerciais. Para Fred, o patrimônio arquitetônico não pode ser tratado apenas como cenário estético desconectado da vida cotidiana da cidade.

“A arquitetura não é formada só pelo ambiente construído, mas pelo natural e o vivido também”, afirma. Segundo ele, a valorização do Art Déco precisa considerar também as experiências sociais e culturais construídas ao longo da história da Capital.

A lei sancionada em maio de 2026 reconhece a importância do núcleo pioneiro planejado por Attílio Corrêa Lima e posteriormente ampliado por Armando de Godoy. Especialistas defendem, no entanto, que a consolidação de Goiânia como referência internacional em Art Déco depende da articulação entre poder público, universidades, iniciativa privada e sociedade civil para identificar, catalogar e proteger edificações históricas ainda não tombadas oficialmente.

Para Glauco Gonçalves, a preservação do patrimônio exige planejamento urbano permanente, projetos técnicos detalhados e ações contínuas de gestão pública. A avaliação é de que o reconhecimento nacional pode contribuir para transformar o Centro de Goiânia em um espaço voltado à preservação da memória da modernização do Brasil Central e da própria formação histórica da Capital.

“Assim como Goiás não pode abrir mão de Goiânia, Goiânia não pode abrir mão do Centro”, resume Fred Le Blue.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Veja também

Justiça de Goiás decreta prisão preventiva de suspeito de manter ex em cativeiro

Justiça

Justiça de Goiás decreta prisão preventiva de suspeito de manter ex em cativeiro

Ailton Rodrigues de Souza é acusado de manter a ex-esposa presa e acorrentada por cinco dias em uma...
Jovem

MOMENTOS DE TERROR

“Ele enfiava panos com ácido na minha boca”, relata jovem mantida em cativeiro em Goiás

Após passar cinco dias acorrentada e amordaçada, Emiliane Tamara apareceu nas redes sociais, mostr...
Incêndio destrói ônibus na BR-364, no interior de Goiás

Acidente

Incêndio destrói ônibus na BR-364, no interior de Goiás

Veículo pegou fogo na zona rural de Mineiros, no sudoeste do Estado; passageiros conseguiram deixar...
suspeita anel

furto

Diarista é presa suspeita de furtar joias de R$ 6 mil durante teste em Goiânia

Câmeras registraram furto no Setor Marista; suspeita disse à polícia que considerou baixo o valor...
Operação apreende 58 kg de drogas na divisa entre GO e MT

Ação Conjunta

Operação apreende 58 kg de drogas na divisa entre GO e MT

Ação conjunta entre forças policiais localizou 29 kg de cocaína e 29 kg de skunk escondidos em u...
Justiça derruba norma que permitia harmonização orofacial por dentistas

Decisão

Justiça derruba norma que permitia harmonização orofacial por dentistas

Decisão do TRF1 anulou resolução do Conselho Federal de Odontologia, mas ainda cabe recurso e a m...
Jovem

MOMENTOS DE TERROR

Jovem encontrada amarrada e acorrentada relata momentos de terror vividos em Goiás

Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, foi localizada amarrada, amordaçada e acorrentada dentr...
neifa

despedida

Família se despede de mulher morta após acidente com adolescente bêbado em Goiânia

Neifa, de 50 anos, morreu após colisão; marido segue internado em estado grave