PrEP injetável amplia opções de prevenção ao HIV em Goiás
Cabotegravir poderá ser incorporado ao SUS em meio a desafios de adesão à PrEP oral e de acesso à rede de atendimento no Estado
Com recomendação favorável para incorporação do cabotegravir de longa duração ao Sistema Único de Saúde (SUS), o Brasil se prepara para ampliar as opções de prevenção ao HIV. Em Goiás, onde 29.503 pessoas vivem com HIV/Aids e 20% das pessoas diagnosticadas não estão em tratamento regular, a chegada da tecnologia ocorre em um cenário marcado por desafios relacionados à adesão terapêutica, à estrutura da rede de atendimento e ao estigma social.
A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) injetável utiliza o cabotegravir, comercializado sob o nome Apretude pela farmacêutica GSK/ViiV Healthcare. O medicamento é um antirretroviral inibidor da integrase, classe que atua bloqueando uma enzima utilizada pelo HIV para inserir material genético no DNA das células humanas, impedindo a replicação viral antes do estabelecimento da infecção.
Diferentemente da PrEP oral diária, disponibilizada pelo SUS desde 2018 e composta por tenofovir e entricitabina, o cabotegravir é administrado por via intramuscular profunda, com liberação prolongada no organismo. O esquema inicial prevê duas aplicações com intervalo de um mês, seguidas de uma injeção a cada dois meses.
Carlos Antônio(nome fictício) de 27 anos que utiliza a PrEP oral há cerca de dois anos vê a versão injetável como uma alternativa mais prática. “Às vezes esqueço de tomar o comprimido e também existe o receio de alguém encontrar o frasco. Ter a aplicação a cada dois meses facilitaria bastante minha rotina”, afirma.
Estudos clínicos internacionais apontam proteção superior a 99% com o cabotegravir injetável, acima da eficácia observada com a PrEP oral diária. Em pesquisas de vida real, a taxa anual de infecção entre usuários acompanhados foi de 0,1%. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o medicamento em 2023, mas, até então, o acesso estava restrito ao mercado privado, com custo em torno de R$ 4 mil por dose.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) emitiu recomendação preliminar favorável à inclusão do cabotegravir no sistema público. O processo passou por consulta pública, já concluída, e o Ministério da Saúde projeta a disponibilização inicial ainda neste ano. O acesso, porém, deverá ocorrer de forma gradual e direcionada a populações consideradas de maior vulnerabilidade.
A nova modalidade também está relacionada a uma das dificuldades da prevenção combinada: a descontinuação da PrEP oral. Dados do Ministério da Saúde apontam que 55% dos usuários no Brasil abandonam o uso diário dos comprimidos. Entre jovens com menos de 18 anos, o índice chega a 68%. Esquecimento, rotinas irregulares, efeitos colaterais renais e o receio de manter os frascos em casa por causa do estigma familiar e social estão entre os fatores relacionados à continuidade do tratamento oral.
Com a aplicação bimestral realizada em uma unidade de saúde, a necessidade de ingestão diária de comprimidos é eliminada. O público prioritário indicado na avaliação do SUS inclui homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, travestis e jovens de 15 a 30 anos em situação de vulnerabilidade.
No cenário internacional, outra tecnologia em avaliação é o lenacapavir, desenvolvido pela Gilead, com aplicação injetável a cada seis meses. As negociações para a entrada do medicamento no Brasil enfrentam entraves relacionados ao custo exigido pela farmacêutica, enquanto o governo brasileiro prioriza o cabotegravir no orçamento público. Também está em desenvolvimento o Alimatravir, da MSD, um comprimido de administração mensal que interrompe a transmissão uma hora após a ingestão.

Estado registra 29,5 mil pessoas que vivem com HIV e Aids
Enquanto a rede de saúde se prepara para a distribuição da PrEP de longa duração, os dados epidemiológicos mostram o cenário do HIV no Estado. Segundo informações da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) e do Boletim Epidemiológico, Goiás registra 29.503 pessoas vivendo com HIV/Aids (PVHA).
No período de 2015 a 2025, foram contabilizados 25.100 casos em adultos, sendo 18.654 novos diagnósticos de infecção pelo HIV e 6.446 casos que evoluíram para Aids.
Em 2024, o Ministério da Saúde contabilizou 1.397 novos casos de HIV em Goiás, com taxa de detecção de 19,0 casos por 100 mil habitantes. No mesmo ano, foram registrados 1.153 casos de Aids, com taxa de 15,7 por 100 mil habitantes. Em 2023, as taxas eram de 19,8 e 17,6 por 100 mil habitantes, respectivamente.
Até setembro de 2025, os dados preliminares apontavam 1.074 casos de HIV e 760 de Aids no Estado. O coeficiente de mortalidade por Aids caiu de 5,0 óbitos por 100 mil habitantes em 2015 para 3,7 em 2024. Ao longo de 2024, foram registradas 247 mortes. Outros recortes do Estado apontam coeficiente de 4,3 óbitos por 100 mil habitantes no mesmo período.
Em relação à transmissão vertical, Goiás registrou 153 notificações de crianças expostas ao HIV durante a gestação ou o parto em 2024. Desde 2015, foram acumulados 1.343 casos notificados.
Cerca de 80% dos diagnósticos anuais ocorrem em homens. A maior incidência está concentrada na população parda e na faixa etária de 20 a 39 anos, com destaque para pessoas de 20 a 29 anos.
Na distribuição territorial, a Região de Saúde Central, liderada por Goiânia, concentra o maior volume de registros, com mais de 10 mil casos nos mapas epidemiológicos. Também apresentam alta densidade de notificações as regiões Centro Sul, Pirineus, Sudoeste I, Entorno Sul e Sul do Estado.
Tratamento
Apesar da oferta gratuita da Terapia Antirretroviral (TARV) pelo SUS, 20% das pessoas diagnosticadas com HIV em Goiás não estão em tratamento regular. Desse grupo, 5% não possuem nenhum vínculo com serviços de saúde e 15% abandonaram ou nunca iniciaram a medicação.
Em 2025, Goiás registrou 1.058 pessoas diagnosticadas com Aids avançada, com contagem de linfócitos CD4 abaixo de 200/mm³, condição associada a maior vulnerabilidade a infecções oportunistas graves.
A continuidade do tratamento também está relacionada ao controle da transmissão do HIV. Pessoas que utilizam corretamente a medicação podem atingir carga viral indetectável no sangue e alcançar o princípio científico de Indetectável = Intransmissível (I=I), segundo o qual não ocorre transmissão sexual do vírus.
Rede de atendimento
Atualmente, Goiás conta com 26 unidades do SUS credenciadas para dispensação de PrEP, distribuídas por 21 municípios. Entre os pontos de atendimento estão o Hospital Estadual de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad (HDT), o Hospital das Clínicas da UFG e unidades especializadas de Aparecida de Goiânia, Anápolis, Rio Verde, Jataí, Catalão, Itumbiara, Formosa e Águas Lindas de Goiás.
Em Goiânia, a rede especializada passou por mudanças estruturais. O Centro de Referência em Diagnóstico e Terapêutica (CRDT) teve as atividades desmobilizadas após o acúmulo de uma dívida de R$ 1,7 milhão. Os serviços do Serviço de Atendimento Especializado (SAE) e do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) foram transferidos para o Centro de Saúde Cidade Jardim. Recentemente, a oferta de PrEP na Capital também foi ampliada para o Cais Jardim Novo Mundo.
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