Proibição das apostas afeta plataformas e reduz fluxo diário em R$ 652 milhões
Ações de empresas ligadas ao setor recuaram até 34% no mercado internacional após suspensão das operações no Brasil
A medida provisória que proibiu casas de apostas no Brasil interrompeu quase todo o fluxo financeiro diário das plataformas e provocou uma retirada em massa de recursos pelos usuários. Segundo balanço divulgado na última sexta-feira (2) pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, e pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, o saldo mantido nas contas das casas de apostas encolheu 31% desde o dia 26 de setembro, caindo de cerca de R$ 2,1 bilhões para R$ 1,453 bilhão, uma redução de R$ 652,6 milhões.
De acordo com Dario Durigan, a movimentação diária das plataformas, antes estimada em mais de R$ 600 milhões, praticamente cessou após a publicação da medida provisória, no dia 25 de setembro. “Você teve aí um fluxo de R$ 600 milhões por dia que foi basicamente anulado depois da medida”, afirmou o ministro.
O corte refletiu de imediato no Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI) do Banco Central. Nos três dias seguintes à proibição, entre sábado (26) e segunda-feira (28), o volume de transações via Pix somou 608,6 milhões de operações, uma retração de 10% em comparação com a média do mesmo intervalo das quatro semanas anteriores.
Apesar do volume de saques, cerca de R$ 1,453 bilhão ainda permanece distribuído em contas vinculadas a 28,65 milhões de CPFs. O governo orienta os apostadores a resgatarem os valores até as 23h59 desta segunda-feira (5), último dia de funcionamento dos sites e aplicativos. Entre os dias 7 e 8 de outubro, as empresas informarão aos bancos os saldos remanescentes para que a devolução ocorra de 9 a 14 de outubro. Caso o repasse não seja feito pelas operadoras, os recursos serão transferidos à Caixa Econômica Federal, que assumirá a restituição aos titulares.
Fiscalização e bloqueios
Durante o monitoramento das carteiras digitais, o Ministério da Fazenda identificou 48 contas com saldo individual superior a R$ 500 mil, que passarão por análise detalhada e poderão ser alvo de investigação caso apresentem indícios de irregularidades. Além disso, entre 25 de setembro e 1º de outubro, 10.435 páginas ilegais foram enviadas para bloqueio pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), somando cerca de 78 mil sites derrubados anteriormente.
A proibição passou a atingir também as empresas responsáveis pelas plataformas e as instituições que processam pagamentos, permitindo o bloqueio de contas e a destinação de valores ligados a operações ilegais para a segurança pública. Na quinta-feira (1º), um decreto criou o Departamento de Fiscalização e Prevenção de Danos ao Consumidor na Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), enquanto a Polícia Federal estruturou a Coordenação-Geral de Repressão à Lavagem de Dinheiro e Recuperação de Ativos para monitorar apostas ilegais e manipulação esportiva.
Queda nas Bolsas e impacto econômico
A decisão do governo brasileiro derrubou em até 34% as ações de companhias do setor nas Bolsas internacionais. O recuo mais acentuado foi o da Better Collective, que caiu 33,8% em Estocolmo, suspendeu a recompra de ações e cortou projeções após ver ameaçada uma receita estimada em 45 milhões de euros no Brasil em 2026. Em Nova York, a Flutter, dona da Betnacional e da Betfair, perdeu 6,74%.
Em Londres, a Entain, controladora da Sportingbet e da Betboo, cedeu 3,85%. A Allwyn, sócia da dona da Betano, recuou 4,65%, e a Betsson caiu 1,83%. Fornecedoras de tecnologia e jogos como Evolution (-3,14%), Playtech (-2,83%) e Kambi (-1,44%) também registraram baixas.
O volume bilionário que deixou de circular nessas plataformas mostra o peso que o setor exercia no País. Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA/USP, estima que as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o equivalente a até 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) e à metade do crescimento econômico daquele ano. Nas contas públicas, mesmo descontando os R$ 9 bilhões pagos pelas plataformas, a perda líquida de arrecadação ficou entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões.
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