quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Preocupação

Agro goiano se preocupa após anúncio da China de tarifas para carne bovina

Após investigação prolongada, governo chinês impõe cotas e tarifa adicional de 55% sobre volumes excedentes

Renata Ferrazpor em
Carne Bovina
Divulgação/SIC e Abiec

A China anunciou, nesta quarta-feira, 31 de dezembro, a adoção de medidas de salvaguarda contra a importação de carne bovina, após duas prorrogações da investigação iniciada em dezembro do ano passado. A decisão foi comunicada pelo Ministério do Comércio da China (Mofcom), que afirmou que a apuração não teve como alvo nenhum país específico, mas sim a proteção da indústria nacional, que enfrenta dificuldades diante do aumento expressivo das importações nos últimos anos.

A investigação ocorreu em meio à pressão de associações da indústria de carne bovina chinesa, que, na semana passada, pediram ao governo a adoção imediata de salvaguardas para estabilizar o mercado interno e garantir a sobrevivência dos criadores locais. 

Segundo o jornal estatal Global Times, desde 2023 o setor pecuário da China acumula prejuízos significativos, influenciados por fatores como excesso de oferta e crescimento das importações, o que levou muitos produtores a abaterem até animais reprodutores para reduzir custos.

Importações recordes e reação do governo chinês

O movimento do governo ocorre após a China importar um recorde de 2,87 milhões de toneladas métricas de carne bovina em 2024. Já no período de janeiro a novembro deste ano, as importações somaram 2,59 milhões de toneladas, uma leve queda de 0,3% em relação ao ano anterior, mas ainda em patamar elevado. 

Diante desse cenário, o Mofcom concluiu que houve aumento relevante no volume importado e relação direta com os danos sofridos pela indústria nacional, argumento que já havia sido apresentado pelo país junto à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Com isso, a China decidiu estabelecer cotas específicas por país, com a aplicação de uma tarifa adicional de 55% para os volumes que excederem os limites definidos. As medidas entram em vigor em 1º de janeiro e terão validade de três anos, até 31 de dezembro de 2028, com ampliação gradual das cotas ao longo do período.

Brasil terá maior cota de exportação de carne bovina, mas risco permanece

Principal fornecedor de carne bovina ao mercado chinês, o Brasil recebeu a maior cota individual. Para 2026, o limite será de 1,106 milhão de toneladas sem tarifa adicional, volume que sobe para 1,128 milhão em 2027 e 1,154 milhão em 2028.

Ainda assim, o número preocupa o setor produtivo, já que, apenas no acumulado até novembro deste ano, o País exportou 1,499 milhão de toneladas para a China, gerando US$ 8,028 bilhões em receita.

A adoção das salvaguardas já era considerada iminente por autoridades brasileiras e pelo setor produtivo. Interlocutores do governo relatam que a China vinha sinalizando uma aplicação “moderada” das medidas, justamente para minimizar impactos na relação bilateral. 

Além do Brasil, outros grandes exportadores também terão vendas limitadas, como Argentina, Uruguai, Nova Zelândia, Austrália e Estados Unidos, com cotas proporcionais à participação de cada país no mercado chinês.

Goiás no centro da atenção

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Portal Goiás

Nesse contexto, Goiás surge como um dos Estados brasileiros mais atentos aos desdobramentos da decisão chinesa. O Estado é atualmente o terceiro maior exportador de carnes para a China, respondendo por cerca de 11% das exportações nacionais da proteína ao país asiático. 

Em 2023, as vendas goianas de carnes e miudezas ao mercado chinês alcançaram US$ 909,7 milhões. Já no primeiro semestre de 2024, o valor somou US$ 409,4 milhões, evidenciando a importância estratégica desse mercado para a economia estadual.

A China, por sua vez, é a maior parceira comercial de Goiás, concentrando mais de 50% das exportações do Estado, que também incluem soja, milho e ferro-ligas. Diante disso, qualquer restrição ao comércio da carne bovina tende a gerar reflexos diretos sobre a cadeia produtiva goiana, especialmente na pecuária, na indústria frigorífica e na geração de empregos ligados ao setor.

Apesar disso, com o caráter gradual das medidas e a liderança do Brasil nas cotas indicam que o impacto pode ser amenizado, sobretudo se houver coordenação entre governos e setor produtivo. Ainda assim, o episódio reforça a dependência do mercado chinês e a importância de estratégias de longo prazo para reduzir riscos e garantir a sustentabilidade do agronegócio goiano diante de mudanças no comércio global.

Leia mais: Produção em massa leva China ao topo do mercado mundial de tambaqui

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