O Hoje, O Melhor Conteúdo Online e Impresso, Notícias, Goiânia, Goiás Brasil e do Mundo - Skip to main content

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Alquimia do prazer

Morte de turista russo expõe avanço de drogas sintéticas e do chemsex no Rio

Caso ocorrido no Horto, na Zona Sul, revela a popularização de substâncias como GHB e “cocaína rosa”, associadas a festas, músicas e a um mercado ilícito cada vez mais sofisticado, enquanto atendimentos por uso de álcool e drogas disparam na rede pública

Micael Silvapor Micael Silva em 5 de janeiro de 2026
Rio
Caso de turista russo morto no Horto expõe a disseminação de drogas sintéticas no Rio Foto: Divulgação/Conselho Federal de Farmácia

Um turista russo de 33 anos, Denis Kopanev, foi encontrado morto em uma trilha do Horto, na Zona Sul do Rio, em 30 de setembro do ano passado, após permanecer desaparecido por quase quatro meses. Ao lado do corpo, dentro de uma pochete, a polícia encontrou GHB, substância química usada na limpeza de aviões que, no Rio e em outras grandes cidades, passou a circular entre adeptos do chemsex — prática sexual sob efeito de drogas.

Conhecido como gama-hidroxibutirato, o GHB provoca relaxamento e pode levar à morte, sobretudo quando combinado a outros psicoativos. De acordo com a investigação, Kopanev teria consumido tina (metanfetamina, apelidada de “crack dos ricos”), cocaína e o solvente.

Entre cariocas e turistas dispostos a flertar com o risco, cresce o uso de substâncias que elevam neurotransmissores e produzem sensações que se sobrepõem, de forma perigosa, às dos hormônios ligados ao prazer sexual. Embora ocorram de maneira clandestina, essas práticas se tornam cada vez mais comuns na cidade e integram a série de reportagens “Alquimia do prazer: recortes de um Rio oculto”, do O GLOBO.

O apelo não se restringe aos encontros privados. Em boates e festas ao ar livre, novas drogas aparecem associadas a canções populares e deixam de ser tabu entre diferentes classes sociais. O cantor Bad Bunny, por exemplo, menciona em letras a chamada “cocaína rosa”, também conhecida como tusi — um pó rosado de alto custo e efeitos intensos, formado por misturas que podem incluir cetamina, MDMA e metanfetamina.

Mil reais o grama

O nome tusi deriva de “2C-B”, referência a uma fórmula química. No Rio, a droga ganhou fama de artigo de luxo. Um economista carioca relatou ao GLOBO ter experimentado a substância em um bloco de carnaval, levada por um amigo colombiano. O preço pode ultrapassar R$ 1 mil por grama, o que reforça o rótulo de “droga de rico”.

Apesar da aparência inofensiva, os componentes do tusi figuram entre os mais consumidos no mercado global de ilícitos. O Relatório Global sobre Drogas, divulgado pelo UNODC, aponta crescimento contínuo das drogas sintéticas, especialmente os estimulantes do tipo anfetamina (ATS), como a metanfetamina. No Rio, o documento destaca um cenário favorável à expansão, com facções estruturadas como empresas.

Rio
Foto: Reprodução/ André Mello

Um traficante que atua nas zonas Sul e Norte contou que abandonou o consumo de tusi após perceber o potencial de dependência. “Vicia muito. Chegou a um ponto em que não dava mais”, disse.

Atendimentos em alta

Os reflexos aparecem na rede pública. Dados da Secretaria municipal de Saúde mostram que 8.997 pacientes foram atendidos nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) em 2023. Em 2024, o número saltou para 13.789, alta de mais de 53%. Em 2025, mesmo sem o fechamento do ano, 14.956 pessoas já passaram por acompanhamento. Na urgência e emergência, os atendimentos por consumo de álcool e drogas também cresceram.

Dois jovens ouvidos pela reportagem afirmaram que a curiosidade por novas substâncias surgiu a partir de conversas com amigos e da exposição constante a memes e músicas nas redes sociais.

Para o psiquiatra Paulo Roberto Telles Pires Dias, do Núcleo de Estudos em Uso de Drogas da UERJ, fatores culturais e sociais aceleram a disseminação. “O que aparece numa balada de São Paulo rapidamente chega ao Rio”, afirma.

O toxicologista Álvaro Pulchinelli, presidente da SBPC/ML, chama atenção para a diversidade crescente de compostos. Entre as principais apreensões estão canabinoides sintéticos, catinonas conhecidas como “sais de banho”, opioides sintéticos — como o fentanil — e benzodiazepínicos de design. Diante do risco, o país publicou recentemente a primeira norma de Toxicologia para laboratórios.

Substâncias cada vez mais potentes

A tusi já esteve associada à morte de adolescentes na Europa e nos Estados Unidos. Entre os efeitos estão aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial; em casos de superdosagem, pode haver infarto. Em 2023, as apreensões de ATS bateram recorde mundial, segundo a ONU.

No Brasil, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), ligada ao Ministério da Justiça, prepara um levantamento específico sobre drogas sintéticas e divulgou uma cartilha de alerta sobre nitazenos, opioides de alta potência.

Pesquisas da USP e da Unicamp indicam que esses compostos podem ser até 20 vezes mais potentes que o fentanil, substância já considerada 50 vezes mais forte que a heroína. Em São Paulo, um comprimido vendido como MDMA foi identificado como nitazeno adulterado.

Para especialistas, o caso do turista russo é um alerta de como o consumo recreativo, embalado por glamour e referências culturais, esconde riscos elevados — e, em alguns casos, fatais.

Siga o Canal do Jornal O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do Jornal O Hoje.
Tags:
Veja também