Por que prisão de Bolsonaro já não inflama as ruas
Após dez dias internado, cirurgias e negativa de prisão domiciliar, retorno do ex-presidente à sede da Polícia Federal no DF reforça percepção de cárcere efetivo; analistas avaliam que estratégia de vitimização pela saúde perdeu força, enquanto escândalo do Banco Master vira ativo político para oposição
Bruno Goulart
Após receber alta médica na noite da última quinta-feira (1º), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deixou o Hospital DF Star, em Brasília, e foi reconduzido à Superintendência da Polícia Federal (PF), onde cumpre pena de 27 anos e 3 meses de prisão pela condenação relacionada à tentativa de golpe de Estado em 2022. A saída ocorreu pouco depois das 18h40, em viatura descaracterizada da PF, acompanhada por batedores da Polícia Militar do Distrito Federal. Minutos antes, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também deixou o hospital.
A decisão que manteve Bolsonaro no regime fechado foi reforçada horas antes pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que negou novo pedido de prisão domiciliar humanitária. Na avaliação do magistrado, a defesa não apresentou “fatos supervenientes” capazes de afastar as razões que fundamentaram a prisão. Pelo contrário, Moraes destacou que houve “quadro clínico de melhora” após cirurgias eletivas e descartou o argumento de agravamento da saúde.
Ainda assim, aliados do ex-presidente passaram a explorar politicamente o estado clínico de Bolsonaro na tentativa de reativar a versão de perseguição para buscar repercussão nacional e internacional. A estratégia, contudo, encontra limites claros, segundo especialistas ouvidos pelo jornal O HOJE.
Prisão na PF x prisão domiciliar
Para o estrategista político Marcos Marinho, a diferença entre os regimes é central para entender o impacto político do momento. “A prisão na PF é totalmente diferente da prisão domiciliar. Na PF, você tem uma percepção de cárcere mesmo, com muito mais cerceamento, regramento e vigia 24 horas por dia”, afirma. “Em casa, querendo ou não, há mais conforto, maior fluxo de pessoas e uma dinâmica de vida muito mais vantajosa para qualquer cidadão.”
No entanto, Marinho avalia que essa distinção já não mobiliza a base bolsonarista como no passado. “Eu não vejo isso mais como uma questão apelativa, um chamariz para mobilização. Isso já é página virada. A maioria da população entende que ele tem que pagar pelos crimes”, diz. Segundo o analista, se a prisão ou os problemas de saúde tivessem potencial explosivo, “já teria acontecido”.
Além disso, Marinho considera que a pauta perdeu centralidade emocional. “Tanto as doenças quanto a discussão sobre prisão domiciliar ou na PF já não comovem como no início. Isso não vai mudar muita coisa”, resume.
Discurso enfraquecido
Na mesma linha, o mestre em História e especialista em políticas públicas Tiago Zancopé aponta que a prisão domiciliar, se concedida, inclusive enfraqueceria o discurso bolsonarista. “Quando você está preso em casa, o discurso de perseguido político perde força. A comparação com o Lula é inevitável: Lula ficou preso na cadeia da PF, não em casa”, observa.
Zancopé reforça que, do ponto de vista simbólico, a permanência de Bolsonaro na PF dificulta a versão de vitimização extrema, mas também não gera grande comoção. “Isso não tem mais efeito mobilizador. Não enfraquece nem fortalece”, avalia.
Saúde de Bolsonaro
Bolsonaro passou o Natal e o Réveillon internado, com autorização judicial, para tratar uma hérnia inguinal — sua oitava cirurgia desde o atentado a faca em 2018 — e crises recorrentes de soluços. Apesar disso, Moraes sustentou que o quadro clínico não se agravou. Ainda assim, a defesa insistiu na transferência para prisão domiciliar, pedido novamente negado.
Contudo, há uma pauta que, de fato, pode gerar mais ruído político: o escândalo do Banco Master e a pressão sobre ministros do STF, como Alexandre de Moraes e Edson Fachin, em razão da proposta de elaboração de um código de ética para a Corte. Para Marcos Marinho, esse tema tem potencial de gerar “buzz (zumbido)”. “Você consegue mobilizar grupos de direita e até setores da esquerda para inflamar essa pauta, criando narrativas de descredibilização do Supremo”, pondera. (Especial para O HOJE)