Vitórias da direita tiram do poder da deusa Katy Perry a Maduro
No voto ou na marra, a esquerda vai sendo varrida das chefias de Estado e governo nas Américas, o que já acendeu a luz vermelha do PT, que tem em Lula um favorito na maior economia do Cone Sul
As forças dos Estados Unidos, coordenadas pelo presidente Donald Trump, gastaram exatamente 47 segundos para tirar do poder o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua cúmplice, a primeira-dama Cilia Flores. O casal responde por crimes como tráfico de drogas e, como a Suprema Corte venezuelana é servil ao Executivo, jamais o entregaria para ser julgado no País em que estão milhões de suas vítimas, os dependentes químicos. Para dar ideia do prejuízo em saúde e economia, basta ler sobre a decadência das maiores cidades dos EUA, Nova York, Los Angeles e Chicago – a droga tomou conta das ruas. Em menos de 1 minuto foi retirado um mal que já durava quase três décadas, o que vai repercutir na política brasileira.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua favorito para se reeleger, mas com a queda de Maduro a direita saiu das cordas, pois quase beijou a lona quando Trump, a pedido da família Bolsonaro, impôs o tarifaço a produtos brasileiros, depois amainado. Eis os dois fatores e os dois nomes em torno dos quais vai se concentrar o debate eleitoral. Permanecem pré-candidatos os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), e do Paraná, Ratinho Jr. (PSD). Ficaram pelo caminho os dois maiores, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Romeu Zema (Novo), dos Estados campeões em demografia, São Paulo (47 milhões de habitantes, quase 7 vezes mais que Goiás) e Minas Gerais (3 vezes mais). Tarcísio pode voltar, mas já foi.
Caiado e Ratinho têm grandes trunfos, como a honorabilidade e os seguidos bons governos, mas a palavra Bolsonaro ainda supera qualquer outro termo na direita nacional. O duplo impedimento (por estar inelegível e preso) do pai, Jair Bolsonaro, vitaminou a madrasta, Michelle, e o irmão mais explosivo, Eduardo, ex-deputado federal por São Paulo. Mas Jair escolheu Flávio, senador pelo Rio de Janeiro, para ser candidato a presidente da República pelo PL. Durante seu período no Palácio do Planalto (2019/2022), Bolsonaro se opôs ferrenhamente a Maduro e não reconhecia a legitimidade de seu mandato. Portanto, a queda do tirano da Venezuela conta ponto para o clã. Os governadores de direita caíram matando sobre o ditador, porém, os Bolsonaro haviam bebido água limpa.
A derrubada de Maduro fortalece Caiado em diversos âmbitos, como o da segurança pública, conforme se vê no exemplo de Nayib Bukele, presidente de El Salvador. Há um sentimento de que a esquerda convive com os autores de crime como se fossem vítimas da sociedade e não seus algozes. Por isso, a derrocada de um governante considerado chefão do tráfico internacional de drogas provoca empatia com quem combate ambos – o chefão e o tráfico. É o caso de Caiado. No entanto, a cobertura da imprensa nacional se concentrou nos protagonistas, Trump e Maduro, deixando pouco para os atores internos. Afinal, se o Brasil é considerado periferia nos embates ideológicos, imagine seus Estados-membros.
Em 1992, Hugo Chávez, o padrinho de Maduro, tentou entrar na presidência via golpe militar. Não funcionou. Foi para o infalível, o populismo. Ficou no cargo de 1999 até morrer, em 2013, quando foi sucedido por Maduro, sustentado no poder até o último fim de semana. Chávez tinha votos, seu sucessor só herdou dele o tino para a tirania. Fraudou seguidas eleições, seus mandatos não eram reconhecidos pela comunidade internacional e ficava por isso mesmo, graças aos apoios de Brasil, China e Rússia. Mas, no roubo mais recente, nem a diplomacia brasileira o alisou. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva não reconheceu a vitória cantada pelos bolivarianos, o movimento criado por Chávez.
Das lideranças latinas que ascenderam ao poder neste século, o único sobrevivente é Lula, que está no terceiro mandato, vai bem nas pesquisas para nova reeleição, e fez Dilma Rousseff sair do nada e ganhar de José Serra em 2010 e de Aécio Neves em 2014. Foi o auge da esquerda no lado de cá do Atlântico, até porque o conceito está bem alargado – até o Partido Democrata dos Estados Unidos e o Partido Liberal do Canadá são considerados esquerdistas. Até há pouco tempo, o 1º exercia o comando com o presidente Joe Biden e o 2º, com o primeiro-ministro Justin Trudeau. No mês passado, a superstar norte-americana Katy Perry e Trudeau assumiram o que o mundo já sabia desde que ele governava o Canadá.
No lugar de Biden, os eleitores americanos recolocaram Donald Trump, do Partido Republicano, e no de Trudeau, Mark Carney, do Partido Liberal, mas de ala diferente – presidiu o Banco do Canadá e o Banco da Inglaterra, uma mistura de Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo sem ministro pedindo para passar pano em instituição financeira encrencada. No México, foi mantida a esquerda com Claudia Sheinbaum. Na América Central, o astro é Bukele, pois a esquerda tem a mácula dos irmãos cubanos Castro, iniciadores do comunismo no continente.