Risco de direita ter só 1 nome no 1º turno é não haver 2º
Governadores bolsonaristas que deixarem de ser candidatos à presidência vão tentar o Senado, uma campanha dificílima, da qual sobra pouco tempo e menos ainda estratégia para espalhar as qualidades do aliado que tenta o Planalto
Romeu Zema ganhou duas eleições de governador de Minas Gerais, 2º Estado mais populoso do Brasil. Em ambas, apoiou o candidato de seu partido, o Novo, a presidente da República. Em 2018, João Amoêdo ficou em 5º lugar no Estado, com 3,88% dos votos dos mineiros. Em 2022, o que estava ruim, piorou: Felipe D’Ávila ficou com mísero 0,82%, mesmo com Zema se reelegendo no 1º turno.
Como se vê, é difícil repassar votos. Portanto, é um erro estratégico que pode ser fatal a pretensão da direita nesta fase da campanha, que os governadores retirem suas candidaturas desde agora e se reúnam em torno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Vai facilitar ainda mais para o atual favorito, o detentor do cargo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A preocupação, em vez de ser com qual nome Lula vai disputar o 2º turno, é se tudo não acabaria no 1º.
Queriam correr o risco de ficar sem mandato…
Juntos, os governadores falados como pré-candidatos à presidência ou a vice pelo antipetismo chegaram a meia dúzia: além de Zema, Ronaldo Caiado, do União Brasil de Goiás; Tarcísio de Freitas, do Republicanos paulista; Ratinho Jr. e Eduardo Leite, do PSD de Paraná e Rio Grande do Sul; Cláudio Castro, do PL do Rio de Janeiro.
Em nome da causa do liberalismo, esses nomes se arriscariam a ficar sem mandato apenas para tentar impedir a continuidade do projeto de poder da esquerda. A ideia, de que o maior entusiasta era Caiado, seria o máximo de concorrentes encarando o PT diretamente em seus Estados. Ainda que a quantidade significativa de sufrágios se restringisse à área por ele administrada, aquele nome evitaria a migração de votos para Lula.
… Até o filho deputado ressuscitar o PT
Tudo ia bem até que o então deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) foi aos Estados Unidos e movimentou seus contatos num esforço final para salvar o pai, Jair Bolsonaro, da condenação e eventual cumprimento de pena em regime fechado. À época, meados de 2025, Lula estava mal nas pesquisas. O filho de Jair conseguiu que Donald Trump punisse o Brasil pelo que estava ocorrendo com o ex-presidente no Supremo Tribunal Federal.
A punição, em vez de ser aplicada a possíveis inimigos de Bolsonaro, foi passada para produtos brasileiros. Foi do que a esquerda precisava para ressuscitar o discurso nacionalista e, junto, a possibilidade de Lula ser reeleito. No episódio final dessa história, Eduardo acabou cassado, Lula não saiu mais do favoritismo e Trump recuou até das sanções ao ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Com Eduardo fora do mandato e do País, Jair convocou Flávio para herdar a candidatura e os votos. A intenção inicial parecia ser um blefe, mas o que parecia difícil se tornou impossível: retirar da disputa o senador fluminense. Veio, inclusive, a Goiás discutir com Caiado sobre a sucessão presidencial. Fontes informam que teria sugerido o governador goiano como seu vice, o que foi rechaçado: Caiado só sairia a presidente. O que falhou por aqui, em São Paulo deu certo ou muito errado, pois Tarcísio imediatamente se retirou do embate nacional e se concentrou na própria reeleição. Pode ter sido um passo atrás para voltar mais forte, porém, permanece distante da briga pelo Palácio do Planalto, a sede do Executivo federal.
A história mostra o erro
A tese, que se mostra errônea ao longo da história, é que a desistência dos governadores lhes daria mais tempo em seus Estados para fazer a campanha de Flávio à presidência. Não é assim que funciona. Assim como acontece com Zema e seu candidato a presidente em Minas, em Goiás, na eleição de 2022, Ronaldo Caiado foi reeleito governador no 1º turno e a candidata de seu partido à presidência, a senadora Soraya Thronicke, do União Brasil do vizinho Mato Grosso do Sul, tirou em Goiás 0,78% dos votos.
A complicação em transferir voto é geral, mais ainda para quem está com o seu futuro na reta. Um exemplo é Ratinho: vai ter de se virar, junto com o pai famoso, para conseguir mandato de senador, pois o caminho está congestionado, o governador é favorito, mas há fortes concorrentes, como o ex-deputado federal Deltan Dallagnol (o procurador da República que assessorou o então juiz Sergio Moro durante a Operação Lava Jato), o deputado federal Zeca Dirceu, filho de você sabe quem, mais Filipe Barros, do PL, e Cristina Graeml, do União Brasil de Moro, ambos bolsonaristas roxos. Ratinho vai bater de porta em porta, gravar vídeo e jogar a máquina nas ruas para pedir votos para quem à presidência? Mesmo que seja para Flávio Bolsonaro, o empenho de seus cabos eleitorais não será o mesmo do que se o candidato fosse o filho do apresentador popular do SBT.
É difícil transferir voto de senador para presidente
Tarcísio de Freitas lidera as pesquisas para se reeleger em São Paulo. Mesmo assim, a tarefa será exaustiva, pois há o risco de Lula encarregar seu próprio vice, Geraldo Alckmin (PSB), para encarar o ex-ministro de Jair Bolsonaro. Mesmo sendo fidelíssimo, de forma praticamente inédita na política brasileira atual, Tarcísio vai se dedicar mais à candidatura presidencial do filho de seu ex-chefe ou à sua para governador? O mesmo se diria de Cláudio Castro no Rio de Janeiro, que já tem problemas demais com os companheiros e a eles se juntariam as denúncias contra Flávio. Seria mais tempo explicando o comportamento dos componentes da chapa do que convencendo acerca de seus projetos. Transferir voto tem disso, é um assumindo a identidade do outro com todos os bônus e ônus.
Ronaldo Caiado enfrentaria menos obstáculos que Tarcísio e Cláudio Castro, mas teria de andar o Estado de Goiás inteiro pedindo votos para a reeleição de Daniel Vilela. Romeu Zema está numa fase ruim, 7º ano seguido governando Minas é uma prova de fogo para qualquer um, precisa suar bastante para conseguir uma vaga de senador. Como empregaria seus recursos de forma prioritária, consigo mesmo ou com Flávio, que pouco se dedicou até hoje ao Estado do seu vizinho?
O candidato a senador é um solitário. Duas grandes fontes de cabos eleitorais, as lideranças municipais e os que tentam vaga na Assembleia Legislativa, se dedicam especificamente a seus deputados federais. No máximo, ao candidato a governador. A senador, quase ninguém. Outro entrave é a vaga dupla, que derruba na hora em que o pedidor de voto está em frente ao eleitor. Precisa convencer a votar nos seus senadores e, ainda, dirimir a dúvida de por que existem duas vagas. O sujeito precisa decorar mais seis números (três de cada senador), que para alguns são algarismos, mas para o eleitor é número mesmo, juntamente com os dois de presidente, os quatro de deputado federal e os cinco de estadual.