IA avança no cotidiano, mas também impulsiona golpes cada vez mais sofisticados
Fraudes bancárias, ataques cibernéticos e engenharia social se multiplicam em 2025; especialistas alertam para riscos, direitos das vítimas e formas de prevenção
O avanço acelerado da tecnologia trouxe ganhos de eficiência para a economia e transformou profundamente o dia a dia da população. Como já abordado pelo jornal O HOJE, o uso da inteligência artificial atingiu diversas áreas da vida cotidiana, da educação à saúde, do mercado de trabalho ao entretenimento, e agora realização de golpes.
Em meio a esse cenário de inovação sem precedentes, ferramentas de IA passaram a ocupar espaços antes restritos à interação humana, como o suporte emocional. No entanto, especialistas alertam que, apesar da aparência empática, esses sistemas não substituem o acompanhamento qualificado e podem gerar dependência emocional ou interpretações equivocadas.
Ao mesmo tempo em que amplia possibilidades, esse avanço tecnológico também abriu espaço para um cenário preocupante. A mesma tecnologia que oferece conveniência e apoio passou a ser explorada por organizações criminosas, tornando os golpes financeiros mais sofisticados, frequentes e difíceis de identificar.
Em 2025, o Brasil registrou milhões de tentativas de fraude, muitas delas diretamente ligadas ao setor bancário e impulsionadas por ferramentas de IA capazes de simular vozes, mensagens e comportamentos humanos. O impacto vai além do prejuízo imediato.
Isso porque famílias têm o orçamento comprometido, planos adiados e, em muitos casos, recorrem a empréstimos para cobrir perdas inesperadas, evidenciando que a evolução tecnológica, sem o devido cuidado, também traz riscos significativos à segurança financeira da população.
Dados recentes indicam que os ataques cibernéticos já somam milhões por hora no País. A maioria dessas investidas é automatizada, executada por sistemas inteligentes capazes de imitar comportamentos humanos, personalizar mensagens e explorar falhas técnicas e emocionais das vítimas. Para especialistas, o crime digital deixou de ser artesanal e passou a operar em escala industrial, com impacto direto sobre consumidores, empresas e instituições financeiras.
A inteligência artificial como aliada do crime digital
Relatórios internacionais divulgados pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), apontam que a IA transformou profundamente a dinâmica das fraudes. De acordo com o State of the Internet (SOTI), da Akamai Technologies, a atividade de bots alimentados por inteligência artificial cresceu 300% em apenas um ano.
Hoje, esses sistemas já representam quase 1% de toda a automação detectada na plataforma da empresa, o que equivale a bilhões de interações diárias usadas para raspagem de dados, manipulação de preços e tentativas de fraude.
“Os bots com IA impulsionam ataques ao manipular e imitar ações legítimas de pessoas, permitindo fraudes digitais, transações não autorizadas e identidades falsas”, explica Fernando Serto, Field CTO da Akamai Technologies para a América Latina.
Segundo ele, o Brasil se tornou um ambiente especialmente atrativo para criminosos por conta da ampla digitalização do consumo e da popularização de meios de pagamento instantâneo, como o PIX.
Entre julho e agosto de 2025, a Akamai identificou 948 bilhões de interações de bots na América Latina. Desse total, 697 milhões foram geradas por bots com IA, sendo o Brasil responsável por 408 milhões dessas ações, o maior volume da região. O varejo lidera o ranking de setores mais atingidos, seguido pelos serviços financeiros e pelo setor público.
Além disso, levantamentos da Check Point Research mostram que organizações brasileiras sofrem, em média, mais de 3.300 ciberataques por semana, superando a média global. A integração da IA generativa aos fluxos de trabalho também elevou o risco de vazamento de dados e ampliou as brechas para ataques de ransomware e fraudes financeiras.
Golpes bancários se multiplicam e atingem todos os perfis
Com o avanço e o uso cada vez mais estratégico, os golpes bancários se multiplicaram no Brasil e passaram a atingir pessoas de todas as idades e classes sociais. Em 2025, crimes como phishing, falso funcionário de banco, golpes no Pix, boletos falsos, clonagem de WhatsApp, falsas lojas virtuais e leilões fraudulentos seguem entre os mais recorrentes, explorando principalmente a engenharia social, técnica que manipula emoções como medo, urgência e confiança.
Segundo Raimundo Nonato, presidente da Associação Brasileira de Defesa dos Clientes de Operações Financeiras e Bancárias (Abradeb), o crime aprendeu a reproduzir o comportamento cotidiano do consumidor. “As quadrilhas combinam pressão psicológica, dados reais e abordagens cada vez mais ensaiadas. Hoje, o golpe não parece amador: ele imita a rotina bancária, jurídica e até familiar da vítima”, explica. Um exemplo, segundo ele, é o golpe do falso advogado, no qual criminosos acessam dados públicos de processos e simulam situações urgentes para exigir pagamentos, geralmente via Pix.
Além disso, os fraudadores passaram a adotar golpes com aparência técnica para aumentar a credibilidade. “Temos visto o chamado acesso remoto, ou ‘mão fantasma’, em que a vítima instala um aplicativo e o criminoso passa a controlar o aparelho. Mais recentemente, cresce o uso de deepfakes e clonagem de voz, o que torna ligações e mensagens extremamente realistas”, afirma Nonato.
Investigação, responsabilização e atuação policial
Do ponto de vista criminal, a advogada Giovanna Guerra destaca que os golpes se tornaram mais rápidos, digitais e focados na distração da vítima. “Antes, o criminoso precisava convencer a pessoa a sair de casa, ir ao banco e passar pelo crivo de um gerente. Hoje, basta um clique em um link ou uma transferência instantânea para que o dinheiro seja perdido”, explica. Segundo ela, a legislação acompanhou essa evolução e prevê enquadramentos específicos, como o estelionato na modalidade de fraude eletrônica e o furto mediante fraude por meio digital.
A advogada ressalta ainda que, dependendo do caso ou dos golpes, as instituições financeiras podem ser responsabilizadas judicialmente. “O Superior Tribunal de Justiça já consolidou o entendimento de que os bancos respondem objetivamente quando há falha na segurança ou vazamento de dados. Nesses casos, o consumidor não precisa provar culpa da instituição”, afirma. No entanto, ela reforça que a prevenção continua sendo fundamental, com cuidados como não compartilhar dados, ativar autenticação em duas etapas e desconfiar de contatos urgentes.
Na esfera policial, a delegada Marcella Cordeiro Orçai, da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos (DERCC), confirma o aumento de ocorrências envolvendo golpes digitais em Goiás, conforme dados do observatório da Secretaria de Segurança Pública (SSP). “Não existe um perfil único, mas os golpes envolvendo dados falsos e prejuízo financeiro são maioria”, afirma.
Uso de IA, perfil das vítimas dos golpes e orientações

De acordo com a delegada, a inteligência artificial tem sido usada para facilitar a vulnerabilização das vítimas. “Os criminosos utilizam IA para se passar por pessoas ou empresas, simulando vozes, imagens e comunicações oficiais. Isso cria uma falsa sensação de segurança”, explica. Ainda assim, ela ressalta que os golpes não são necessariamente mais difíceis de identificar. “O que muda são os cuidados. As pessoas não devem acreditar em vantagens, preços abaixo do mercado ou promessas de lucros exorbitantes. A checagem de informações é essencial”, alerta.
Para Raimundo Nonato, o golpe “escolhe” a vulnerabilidade, e ela pode surgir em qualquer idade. “Pesquisas divulgadas em 2025 mostram maior incidência entre idosos, mas trabalhadores também são muito atingidos pela pressa do dia a dia e pelo medo de bloqueio de contas. Pessoas endividadas ficam ainda mais expostas a promessas de crédito ou regularizações urgentes”, observa.
Os impactos financeiros, segundo a Abradeb, vão além do prejuízo. “Esses golpes geram um efeito dominó: a família recorre ao cheque especial, atrasa contas, cancela planos e, em casos mais graves, compromete a própria subsistência”, afirma Nonato.
Ao perceber que foi vítima de um golpe, a orientação é agir rapidamente. “Se envolver instituição financeira, o cidadão deve entrar em contato com o banco, bloquear operações e registrar a ocorrência na Polícia Civil, inclusive pela internet”, orienta a delegada Marcella Orçai. A advogada Giovanna Guerra reforça a importância de preservar provas, como prints de conversas, comprovantes de transferências e links utilizados.