Terminal Praça da Bíblia alaga após temporal e expõe falhas no projeto recém-inaugurado
Chuva intensa inundou o terminal, provocou atrasos no transporte coletivo e levantou questionamentos sobre a drenagem de uma obra entregue há pouco mais de três meses ao custo de R$ 29 milhões
A tarde da primeira segunda-feira do ano (5) foi marcada por transtornos e insatisfação entre usuários do transporte coletivo em Goiânia. O Terminal Praça da Bíblia, um dos principais eixos de mobilidade da Capital, ficou completamente alagado após uma forte tempestade que atingiu a cidade.
O episódio chamou atenção não apenas pela intensidade da enxurrada, mas também pelo fato de o terminal ter sido reinaugurado recentemente, em 29 de setembro de 2025, após um ano de obras e investimento de R$ 29 milhões.
O volume de chuva registrado foi elevado. No Setor Campinas, os acumulados chegaram a 25 milímetros, enquanto a região do Setor Universitário, onde está localizado o terminal, também enfrentou precipitações intensas.
A água invadiu a pista entre as plataformas B e C, comprometendo o embarque e desembarque de passageiros e provocando atrasos no sistema. Usuários relataram que o espaço ficou semelhante a uma “piscina”, inviabilizando a circulação segura no local.
Em entrevista exclusiva ao jornal O HOJE, o diretor da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra), Lucas Gontijo, apresentou explicações técnicas sobre o alagamento ocorrido em uma estrutura recém-entregue. Segundo ele, houve falhas no planejamento do projeto em relação à antiga configuração do terminal.
“O terminal, quando foi planejado, do ponto de vista da execução, teve um equívoco em relação ao projeto altimétrico”, afirmou. De acordo com Gontijo, a estrutura anterior era menor e terminava antes da Rua 256, o que permitia que a água proveniente dessa via e da Avenida Anhanguera seguisse o fluxo natural pelas sarjetas. Com a ampliação do terminal, a nova geometria não considerou adequadamente o volume de água pluvial externa.
“O que acontece hoje é que o projeto não contemplou, do ponto de vista de captação, a recondução da água. A água fluvial chega lenta para dentro do terminal porque o projeto do perímetro não considerou que a água que desce pela Rua 256 e a contribuição da Anhanguera e que precisam ser retiradas de dentro do terminal”, explicou. Segundo o diretor, a inclinação da área também favorece o problema, já que direciona a enxurrada das vias adjacentes para o interior do terminal.
Ainda conforme Gontijo, a rede interna de drenagem foi dimensionada apenas para a água proveniente da própria estrutura, e não para o excedente das ruas vizinhas, que estão em nível mais elevado. Ele afirmou que, apesar do erro identificado, a prefeitura atuará para solucionar o problema.
“Não existe uma responsabilidade da prefeitura em relação ao projeto executado, mas a gente não está se isentando. Vamos resolver o problema e atuar junto com a CMTC”, declarou.
Diante da repercussão, a Seinfra divulgou nota oficial informando que equipes trabalham na Rua 256, no Setor Leste Universitário, realizando limpeza e desobstrução da rede de drenagem e iniciando a ampliação da capacidade de captação das bocas de lobo. Segundo a pasta, a ação emergencial deve durar até uma semana, com o objetivo de minimizar novos alagamentos no Terminal Praça da Bíblia.
Posição da companhia sobre o terminal
A reportagem também procurou a Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) para esclarecer sobre a fiscalização do projeto e a responsabilidade pela obra, executada no âmbito da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC). Em resposta, a companhia informou que a responsabilidade é da Seinfra e do Paço Municipal, classificando a situação como um “problema crônico”.
O alagamento no Terminal Praça da Bíblia ocorreu em meio a um cenário mais amplo de instabilidade climática na Capital. A Defesa Civil de Goiânia emitiu nove alertas de emergência via SMS e avisos sonoros em menos de duas horas na tarde de segunda-feira, com classificações entre “Severo”, de caráter preventivo, e “Extremo”, indicando risco iminente à vida.
Outros pontos da cidade também registraram ocorrências. A Marginal Botafogo foi interditada temporariamente na altura da Avenida Jamel Cecílio devido ao acúmulo de água. No Conjunto Vera Cruz 2, um motociclista foi arrastado pela enxurrada na Avenida Gercina Borges e resgatado por populares, sem ferimentos graves. Já o Centro de Saúde da Família do Setor São Judas Tadeu enfrentou goteiras intensas, o que exigiu o uso de baldes nos corredores para manter o atendimento.
As equipes do Gabinete de Crise Climática seguem em monitoramento permanente. De acordo com o Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), a previsão indica continuidade da instabilidade ao longo da semana, em razão da atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). A orientação às pessoas é evitar áreas historicamente suscetíveis a alagamentos e não tentar atravessar vias inundadas.