Governos mostram a adversários alcance possível em ano eleitoral
Caiado e Lula apresentam suas armas, como as realizações e os aliados, inclusive os que colocam os pés em mais de uma canoa, mas quando a maré começa a virar a escolha recai sempre por quem está no poder, não somente querendo chegar lá
Ronaldo Caiado estava em tratamento médico quando o presidente da Assembleia agendou uma votação fundamental para o Estado. Mesmo contra orientação médica, o governador ligou para o chefe do Legislativo e pediu a gentileza de adiar a pauta, pois Goiás precisava da aprovação como o projeto chegou à Alego. Prorrogá-lo em nada afetaria a possível implantação ou a rejeição.
Seu pedido foi ignorado pela outra autoridade, em clara violação à harmonia entre os Poderes. Caiado aceitou, respeitando a independência, mas não esqueceu. É o mesmo caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Quem atrapalhou suas propostas no Congresso Nacional deve esperar a reciprocidade. Como se viu nos últimos dias, a conta começa a chegar, tanto a estadual quanto a federal.
Lula e Janja em busca de Aava
Houve um movimento de Lula para tirar do PSDB a vereadora Aava Santiago, que foi auxiliar de Marconi Perillo em seus programas ligados a juventude e empreendedorismo. É de tal maneira grande a ausência de lideranças de esquerda no meio evangélico que Lula e a primeira-dama Rosângela Janja, ambos pessoalmente, procuraram a integrante da Câmara de Goiânia.
Mal virou o ano e Aava foi para um partido da base de Lula, o PSB, ocupando a presidência regional, antes com o ex-deputado federal Elias Vaz. O Governo Federal mostrou vitalidade: se Marconi não quer se aliar a Lula, seu partido não pode ficar com alguém tão ligado ao casal. Foi um tapa com luva de 30 onças – insuficiente para derrubar, o bastante para oferecer resistência.
PSB é uma saída para quem teme se filiar ao PT
A esquerda estava sem novidade para concorrer ao Senado ou ao governo. Agora, um partido que estava à margem dos cargos majoritários passa a ser um refúgio para quem rejeita aliança com o bolsonarismo e ao mesmo tempo teme a fúria dos conservadores caso se filie ao PT.
O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, saiu do PSDB para o PSB, assumiu ministério com Lula (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e manteve com o empresariado e os industriais o respeito conquistado nos quatros mandatos de governador de São Paulo. É um dos fatores para explicar a vitória de Lula (50,9%) sobre Jair Bolsonaro em 2022, diferença tão pequena que se o vice fosse alguém da esquerda não levaria voto novo.
Daniel ajudou na reeleição de Caiado em 1º turno
Eis o ovo de Colombo, quem pensa igual não fura a bolha dos diferentes, nem muito menos a da indiferença. Foi o que ocorreu com o governador Ronaldo Caiado, autor do convite para aliança com o MDB de Daniel Vilela. Os dois são de vieses completamente opostos na política goiana, um originário da UDN, outro do PSD (não o atual, mas o de meados do século XX). Caiado estava tão correto na aproximação que sua vitória no 1º turno foi como a de Lula no 2º, por uma pequena fração, 51,81%.
Com o andar da pré-campanha, essas atitudes de líderes como Caiado e Lula vão delineando os passos. Nesta mesma época do ano passado, o deputado federal Gustavo Gayer era o único claramente identificado com a campanha de senador. Pois apareceram três mulheres na concorrência, a primeira-dama Gracinha Caiado (União Brasil), a empresária Ana Paula Rezende (MDB) e, mais recentemente, Aava. O deputado federal Zacharias Calil pode também mudar de partido para tentar a cúpula ao lado, a de tapete azul, o Senado. O eleitorado vai se diluindo.
Governador e presidente correm de traíras
Está ocorrendo o mesmo com os pretendentes à Câmara dos Deputados. Caiado (que à época não estará mais no Palácio das Esmeraldas), Daniel Vilela (que será o governador) e Lula vão determinar seus preferidos ao Congresso. Raríssimos são eleitos de surpresa entre os 17 deputados federais e os 41 estaduais. O governador e o presidente da República têm seus eleitores cativos e não arriscam a recomendar a esse público os candidatos infiéis. Na hora em que a bancada em Brasília se reúne para definir as obras, o chefe do Executivo precisa contar com seguidores, não com quem vai discutir cada uma de suas recomendações.
Ainda está fresca na memória dos analistas a estratégia de Marconi Perillo para tirar do páreo o radialista Jorge Kajuru, que foi o 10º mais votado para deputado federal (106.291), porém compunha exército de um homem só: o então governador simplesmente esvaziou a chapa, o que impediu o coeficiente do PRP, o partido de Kajuru à época. O governador atual também dispõe de ótima memória. Quem o contrariou nas horas mais difíceis certamente será lembrado.
Dilma salvou reeleição de Marconi com R$ 13 bilhões
Em 2010, Marconi Perillo voltou a ganhar a eleição de governador, mas dois anos após foi abatido pela fábrica de fake news, termo que depois se popularizaria. Aconteceu a Operação Monte Carlo, mais conhecida como Caso Cachoeira. O prestígio dos envolvidos foi lá embaixo, pois a máquina contrária agiu com vitalidade. Era um período difícil também administrativamente, pois havia oito anos não se fazia obra de infraestrutura e, em consequência, as rodovias eram buracos do começo ao fim. De uma tacada só, a presidente Dilma Rousseff livrou Marconi das más notícias e viabilizou sua reeleição.
Dilma repassou a Goiás R$ 13 bilhões, uma imensidão de recursos inédita que nunca mais foi repetida. Para dar ideia do tamanho da fortuna, o Governo do Estado vai dispor neste ano de pouco mais de R$ 1 bilhão para investimento. Com os recursos, Marconi refez a malha viária. Não foram operações tapa-buracos: as GOs foram refeitas. Resultado, o prestígio de Marconi se renovou e foi reeleito.
Era o raio caindo novamente no mesmo lugar. Marconi havia sido premiado em seu 1º mandato de governador com a última oportunidade dos mandatários goianos com a coincidência de o presidente da República estar filiado a seu partido. Alcides Rodrigues e Ronaldo Caiado não tiveram a mesma sorte.