quarta-feira, 14 de outubro de 2026
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Enamed expõe baixo desempenho da maioria dos cursos de medicina em Goiás

Enamed aponta que 63% das graduações avaliadas no Estado tiveram avaliação insuficiente

Anna Salgadopor em
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Foto: Marcelo Camargo/ABr

O ensino médico em Goiás passou a vivenciar um novo momento após a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, que trouxe um panorama detalhado do desempenho das instituições avaliadas no Estado. 

A partir desses dados, o Ministério da Educação (MEC) confirmou que as faculdades e universidades que registraram rendimento considerado insuficiente serão submetidas a um processo de supervisão estratégica a partir do primeiro semestre de 2026, conforme os critérios técnicos adotados pelo órgão.

No levantamento, 10 dos 16 cursos analisados, o que corresponde a aproximadamente 63% do total, obtiveram notas 1 ou 2, patamar que os enquadra nos parâmetros definidos pelo ministério para a aplicação das medidas regulatórias. 

De acordo com o MEC, a adoção dessas providências está inserida no conjunto de ações voltadas à regulação e ao acompanhamento do ensino superior no País, especialmente no que se refere à expansão de vagas na graduação em medicina. 

O objetivo declarado pelo ministério é assegurar que esse crescimento ocorra em consonância com os padrões oficiais de qualidade, contemplando aspectos relacionados à estrutura dos cursos, à formação profissional dos estudantes e à prestação de serviços de saúde à população, dentro das diretrizes estabelecidas para o setor educacional.

Os resultados do Enamed evidenciam forte desigualdade na formação médica goiana. Enquanto instituições públicas federais e a UniEvangélica mantiveram conceitos satisfatórios, um conjunto expressivo de faculdades privadas e municipais aparece na base do ranking nacional. 

Entre os cursos com nota 1 (conceito crítico), estão o Centro Universitário Alfredo Nasser (Unifan), em Aparecida de Goiânia, com 26,2% de proficiência; a Universidade de Rio Verde (UniRV), nas unidades de Goianésia (27,9%) e Formosa (29,5%); a Faculdade de Medicina Zarns, em Itumbiara (34,5%); e o Centro Universitário de Goiatuba (Unicerrado), em Goiatuba (39,2%). 

Já entre as instituições com nota 2 (conceito insatisfatório) figuram a Faculdade Morgana Potrich (FAMP), em Mineiros (41,5%); a UniRV, nas unidades de Rio Verde (51,3%) e Aparecida de Goiânia (52,3%); e o Centro Universitário de Mineiros (Unifimes), nas unidades de Mineiros (56%) e Trindade (57%). 

Em contrapartida, obtiveram conceito 4 a UEG (Itumbiara), a UFG (Goiânia), a UFJ (Jataí), a UniEvangélica (Anápolis) e a UFCAT (Catalão), enquanto a PUC Goiás ficou com conceito 3.

O MEC definiu punições escalonadas conforme o grau de proficiência dos estudantes, que devem vigorar até a obtenção de novo conceito satisfatório, prevista para a avaliação de 2026. Cursos com nota 1 terão suspensão total do ingresso de novos alunos, bloqueio de novos contratos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e impedimento de participação no Programa Universidade para Todos (Prouni). 

Já os cursos com nota 2 ficam proibidos de ampliar vagas e estarão sujeitos à redução compulsória, que pode variar entre 25% e 50%, além de restrições ao Fies nos casos em que menos de 50% dos concluintes foram considerados proficientes. 

Todos os cursos enquadrados nas notas 1 e 2 passarão ainda por visitas de avaliação in loco em 2026, sob supervisão direta da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres/MEC), ficando impedidos de qualquer processo de expansão. 

De forma específica, cursos com proficiência entre 30% e 40% sofrerão redução de 50% das vagas, enquanto aqueles entre 40% e 50% terão corte de 25%. As instituições terão 30 dias para apresentar defesa após a publicação oficial no Diário Oficial da União, mas as sanções podem permanecer válidas até a próxima edição do Enamed, em outubro de 2026.

“Objetivo não é punir” diz ministro sobre o Enamed

O ministro Camilo Santana tem afirmado que “o objetivo não é punir por punir, mas garantir excelência”. Segundo ele, o Enamed funciona como um diagnóstico essencial diante do aumento expressivo de cursos de medicina entre 2017 e 2022. Santana também ressaltou que instituições privadas que cobram mensalidades elevadas precisam oferecer infraestrutura compatível, com laboratórios adequados e corpo docente qualificado. 

O ministro alertou que, caso as deficiências não sejam corrigidas após o período de supervisão, o MEC poderá determinar o fechamento definitivo das graduações. Para a pasta, o Enamed representa um avanço regulatório por unificar a avaliação do antigo Enade com o acesso à residência médica via Enare, ampliando o engajamento dos estudantes e a confiabilidade dos dados.

A situação em Goiás reflete uma preocupação nacional com a abertura indiscriminada de escolas médicas nos últimos anos. Os dados nacionais reforçam essa crítica: universidades federais e estaduais registraram médias de proficiência de 83,1% e 86,6%, respectivamente, enquanto a rede privada com fins lucrativos ficou em 57,2%. Na rede municipal, o cenário é ainda mais grave, com proficiência média de 49,7% e 85% dos cursos classificados como insatisfatórios. 

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Foto: Marcelo Camargo

Cremego defende rigor no ensino médico e reação judicial de mantenedoras

O Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) avalia que os dados reforçam a necessidade de maior rigor na autorização e fiscalização de novos cursos de Medicina no País. Para a entidade, a expansão acelerada de faculdades, sem a garantia de infraestrutura adequada, corpo docente qualificado e campos de prática suficientes, compromete a formação dos futuros médicos e representa risco direto à qualidade da assistência prestada à população. 

O conselho também defende a implementação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (ProfiMed) como instrumento essencial para aferir de forma objetiva o nível de preparo dos recém-formados e estimular melhorias no ensino médico brasileiro.

A divulgação das notas gerou reação imediata por parte das mantenedoras das instituições de ensino. A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) ingressou com pedido na Justiça para tentar impedir a publicação dos resultados, argumentando que a exposição dos dados poderia provocar danos reputacionais e perdas financeiras consideradas irreversíveis para grupos educacionais com ações negociadas na bolsa de valores. 

A entidade sustentou que os impactos poderiam afetar diretamente a imagem das instituições e a confiança de investidores. O pleito, no entanto, foi negado pelo Judiciário, que entendeu que a divulgação das informações atende ao princípio da transparência e ao interesse público, especialmente no contexto da avaliação de políticas educacionais e da qualidade da formação profissional.

A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) também relatou inconsistências entre os microdados divulgados pelo MEC em dezembro de 2025 e os resultados finais publicados em janeiro de 2026. O Inep admitiu uma falha sistêmica na base do sistema e‑MEC, mas garantiu que as notas divulgadas nesta semana são corretas e fidedignas. 

Em Goiás, a Unifan informou que aguarda comunicação oficial para se posicionar. A Faculdade Zarns declarou que aguarda o posicionamento do MEC em relação às inconsistências nas notas divulgadas. A UniRV, por sua vez, afirmou que não irá se pronunciar sobre o caso.

 

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