sexta-feira, 2 de outubro de 2026
NEGOCIOS

Indústria de materiais de construção reage, mas fecha 2025 no vermelho

Materiais básicos puxam crescimento no fim do ano, enquanto acabamento segue pressionado e limita recuperação do setor

Otavio Augustopor em
Indústria de materiais de construção reage, mas fecha 2025 no vermelho
Divulgação/ Sinduscon-MG

O faturamento deflacionado da indústria de materiais de construção registrou uma recuperação no fim de 2025, avançando 1,3% em dezembro sobre novembro, segundo o Índice ABRAMAT, elaborado pela Ecconit para a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (ABRAMAT). Mesmo assim, o setor fechou o ano com retração de 0,5% no acumulado, reflexo de um desempenho fraco ao longo dos trimestres que não foi revertido nos últimos meses.

Na comparação com dezembro de 2024, o faturamento apresentou avanço de 0,7%, puxado sobretudo pelos materiais básicos, que cresceram 2,4% no período, enquanto os materiais de acabamento recuaram 1,8%, sinalizando que o consumo final ainda está sob pressão.

O desempenho de novembro reforça esse quadro adverso. Naquele mês, o faturamento total do setor foi 4,3% menor do que em novembro de 2024, com queda tanto nos materiais básicos quanto nos de acabamento, que recuaram 3,9% e 4,8%, respectivamente.

Segundo o presidente executivo da ABRAMAT, Paulo Engler, o resultado de 2025 reflete um ambiente econômico desafiador, marcado por juros elevados e crédito mais restrito, que dificultaram a recuperação sustentada da demanda ao longo do ano. Para ele, a melhora em dezembro é importante, mas ainda insuficiente para inverter as perdas acumuladas.

A trajetória de 2025 ficou aquém das expectativas iniciais do setor. No início do ano, projeções indicavam crescimento, com estimativas de alta de até 2,8% no faturamento para o ano, mas os números foram se ajustando ao longo dos meses até consolidar a estimativa de retração no acumulado.

Pressões sobre o crédito e juros impactam atividade

A indústria de materiais de construção e a construção civil em geral sentiram fortemente o impacto das taxas de juros elevadas e do acesso mais restrito ao crédito. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) chegou a reduzir sua projeção de crescimento do setor para cerca de 1,3% em 2025, citando justamente o contexto de juros altos como principal entrave ao avanço das obras e da compra de insumos.

Especialistas consultados também destacam que a atitude cautelosa de consumidores e empresas diante da incerteza econômica resultou em menor dinamismo nas compras de materiais de acabamento — mais sensíveis à demanda por reformas e novos projetos residenciais. A melhora observada em dezembro foi alimentada, em parte, pelo efeito sazonal do fim de ano, quando famílias tendem a investir em pequenas obras, pintura e reparos antes das festas.

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Divulgação/ CIEPI

Mercado observa sinais mistos em insumos

Dados de outras cadeias correlatas também mostram nuances da atividade em 2025: a demanda por cimento no Brasil, por exemplo, avançou aproximadamente 3,7% em dezembro ante o mesmo mês de 2024, segundo a Associação Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), com destaque para regiões como Nordeste e Sudeste, embora o Centro-Oeste tenha registrado recuo na comparação anual.

Ao mesmo tempo, indicadores de custos continuam pressionados. O Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi) apontou que o custo por metro quadrado subiu em dezembro, com materiais respondendo por uma parcela importante do aumento, o que pode afetar ainda mais as margens e o ritmo de contratações de novas obras.

Leia também: Pequi sem espinhos atrai investimentos milionários em Goiás

Expectativas para 2026: melhora gradual, mas condicionada a políticas de crédito

Para 2026, a avaliação no setor é de que pode haver uma melhora gradual da atividade, desde que haja avanços significativos no ambiente de crédito e políticas de estímulo. Engler, da ABRAMAT, enfatiza que iniciativas voltadas para a construção e, em particular, à reforma habitacional — como o Programa Reforma Casa Brasil — têm potencial para ampliar o acesso ao crédito para melhorias em moradias urbanas e, assim, destravar a demanda reprimida.

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Foto: Divulgação

Em paralelo, dados de índices de expectativa da indústria apontam que, no fim de dezembro, os índices de confiança e projeções de empresários passaram para a zona positiva, indicando que a percepção de melhora da atividade já se reflete em intenções de compra e investimentos na abertura de 2026.

Analistas de mercado destacam, porém, que a trajetória de recuperação ainda será bastante dependente de cenários macroeconômicos mais favoráveis, inclusive com a possibilidade de redução gradual da taxa básica de juros e avanços em programas de habitação popular e financiamento imobiliário. Caso essas condições se consolidem, o setor poderá não só sair da retração de 2025, mas também capturar ganhos de produtividade e ampliar o acesso a projetos reformistas e de pequena construção, segmentos que têm apresentado maior resiliência.

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