País enfrenta evasão escolar; Goiás aposta em políticas de permanência
Mais de 8,7 milhões de brasileiros não concluíram o ensino médio, enquanto Goiás apresenta avanços, mas mantém o ensino médio como principal ponto de atenção
O Brasil ainda convive com um dos maiores desafios de sua política educacional: a evasão escolar entre adolescentes e jovens. Dados da PNAD Contínua Educação, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que mais de 8,7 milhões de brasileiros entre 14 e 29 anos estão fora da escola e não concluíram o ensino médio. O número expõe uma fragilidade estrutural que impacta diretamente o futuro do mercado de trabalho, a renda das famílias e o desenvolvimento social do País.
Embora o problema seja nacional, ele se manifesta de forma desigual entre os Estados. Goiás aparece em posição relativamente mais favorável, com índices de abandono inferiores à média brasileira, mas ainda enfrenta gargalos importantes, sobretudo no ensino médio.
Especialistas e gestores alertam que os avanços conquistados não eliminam a necessidade de políticas contínuas e direcionadas para garantir a permanência dos jovens na escola.
De acordo com o Censo Escolar 2024, divulgado em 2025, 5,9% dos estudantes brasileiros do ensino médio abandonaram a escola, tornando essa etapa a mais vulnerável da educação básica. Em Goiás, as taxas são menores, resultado de políticas de retenção adotadas nos últimos anos, mas o ensino médio segue como o principal ponto de atenção da rede estadual.
A análise dos dados mostra que a evasão não ocorre de forma homogênea. No Estado goiano, ela se concentra especialmente no 9º ano do ensino fundamental e no 1º e 2º anos do ensino médio, fases marcadas por transições escolares, aumento da complexidade curricular e maior pressão socioeconômica sobre os estudantes.
Evasão escolar vai além da sala de aula
A PNAD ajuda a explicar por que tantos jovens deixam os estudos antes de concluir o ensino médio. Entre os principais motivos estão a necessidade de trabalhar, a falta de interesse e a distância entre casa e escola. Esses fatores revelam que a evasão escolar é também um fenômeno social, fortemente associado à desigualdade de renda e às vulnerabilidades familiares.
O recorte social e racial reforça esse diagnóstico. Jovens pretos e pardos, em situação de maior vulnerabilidade econômica, apresentam índices mais elevados de abandono escolar, tanto no Brasil quanto em Goiás. Para especialistas, isso demonstra que políticas educacionais precisam caminhar junto com ações de proteção social, geração de renda e inclusão.
Goiás aposta em permanência e ensino integral
Nos últimos anos, Goiás tem adotado uma estratégia baseada na permanência escolar, com destaque para programas de incentivo financeiro e ampliação do tempo integral. Um dos principais exemplos é o Bolsa Estudo, voltado a alunos de baixa renda, que ajuda a aliviar a pressão financeira sobre famílias vulneráveis. Em 2025, o governo estadual ampliou o programa para estudantes de agrocolégios, Escolas Família Agrícola e Apaes.
Além disso, o Estado investe fortemente na expansão do ensino em tempo integral. Atualmente, 20,9% dos estudantes goianos permanecem na escola durante todo o dia, percentual superior à média nacional, que é de 17,8%. No ensino médio, o índice se repete, consolidando Goiás entre os Estados com maior proporção de alunos em jornada ampliada.
Apesar dos avanços, Goiás ainda enfrenta desafios relacionados à distorção idade-série, indicador que mede o atraso escolar. Dados do Inep mostram que 12,1% dos estudantes do ensino médio goiano estão com atraso de dois anos ou mais. O problema de evasão esclar se concentra no 1º ano, etapa considerada crítica para a permanência escolar.
Em áreas periféricas e rurais, as dificuldades se intensificam. A distância física até a escola, a oferta limitada de transporte escolar e a escassez de turmas regulares ainda são barreiras importantes, exigindo políticas específicas para esses territórios.
Programas buscam garantir permanência e conclusão escolar
Entre as iniciativas mais inovadoras está o Programa Jornada Ampliada, implementado pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc-GO) em parceria com a Demà. A proposta integra a formação geral do ensino médio com formação técnica e prática profissional, permitindo que o jovem permaneça na escola sem abrir mão da profissionalização.
Atualmente, mais de 7,6 mil estudantes da rede estadual participam do programa. A jornada diária soma nove horas, sendo cinco dedicadas às disciplinas regulares e quatro à formação técnica integrada ao currículo. Os alunos recebem salário de aprendiz, o Bolsa Estudo estadual e certificações profissionais progressivas, o que fortalece o vínculo com a escola.
Segundo a secretária estadual de Educação, Fátima Gavioli, o modelo é uma resposta concreta à evasão. “Ao integrar o ensino médio à experiência prática de forma estruturada e legalmente reconhecida, criamos condições reais para que o jovem permaneça na escola e conclua seus estudos”, afirma.
No plano nacional, o Ministério da Educação (MEC) lançou o programa Pé-de-Meia, considerado a principal política federal de combate à evasão no ensino médio. A iniciativa oferece incentivos financeiros vinculados à matrícula, frequência e conclusão da etapa, podendo chegar a R$ 9,2 mil por estudante ao longo dos três anos.
O programa atende jovens de baixa renda inscritos no Cadastro Único e funciona como complemento às políticas estaduais, reforçando a lógica de que renda, permanência e educação caminham juntas.
A experiência de Goiás mostra que é possível reduzir a evasão escolar quando políticas educacionais se articulam com ações sociais. No entanto, os dados nacionais deixam claro que o desafio permanece. Garantir que o jovem conclua o ensino médio exige mais do que vagas abertas: demanda renda, acolhimento, transporte, ensino atrativo e perspectiva de futuro.
Enquanto o Brasil ainda soma milhões de jovens fora da escola, iniciativas como as adotadas em Goiás indicam caminhos possíveis. O desafio agora é ampliar essas políticas, reduzir desigualdades regionais e transformar a permanência escolar em uma realidade para todos.
Além das ações já em curso, gestores educacionais avaliam que o enfrentamento da evasão escolar exige monitoramento constante e planejamento de longo prazo. Em Goiás, a Secretaria de Educação utiliza projeções de fluxo escolar para antecipar a demanda por novas turmas, salas de aula e profissionais, especialmente no ensino médio, etapa sob responsabilidade direta do Estado. Esse planejamento permite ajustar a oferta educacional à realidade demográfica e reduzir o risco de abandono.
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