quinta-feira, 22 de outubro de 2026
NEGOCIOS

Dormir virou negócio: como a crise do sono alimenta um mercado bilionário

A economia global do bem-estar alcançou US$ 6,8 trilhões em 2025, com o sono ganhando protagonismo no setor

Otavio Augustopor em
Dormir virou negócio: como a crise do sono alimenta um mercado bilionário
Foto: Divulgação

Nunca se falou tanto em autocuidado. E, paradoxalmente, nunca se dormiu tão mal. Entre millennials e a geração Z, o sono deixou de ser apenas uma necessidade biológica para se tornar um problema cotidiano – e, cada vez mais, um ativo econômico. A dificuldade para descansar, agravada pela hiperconectividade, pela pressão por performance e pela fragmentação do tempo, alimenta um setor bilionário: a economia do sono, que cruza saúde, tecnologia, comportamento e consumo.

No Brasil, cerca de 72% da população apresenta algum tipo de distúrbio do sono, segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A insônia lidera os diagnósticos e se manifesta na dificuldade de iniciar ou manter o sono, além de despertares precoces, comprometendo funções cognitivas, humor, produtividade e saúde mental. Globalmente, estima-se que 45% das pessoas enfrentem episódios de insônia ao longo da vida, enquanto ao menos 15% convivem com formas crônicas do problema.

Gerações exaustas e a normalização do cansaço

O cansaço deixou de ser exceção e passou a definir a experiência cotidiana de jovens adultos. Jornadas de trabalho fragmentadas, disponibilidade permanente, consumo excessivo de telas e pressão por desempenho criam um cenário de exaustão contínua. Não por acaso, o filósofo Byung-Chul Han cunhou o termo “sociedade do cansaço”, hoje amplamente incorporado ao debate público.

Em 2024, o Dicionário Oxford escolheu “brain rot” (apodrecimento cerebral) como palavra do ano, refletindo o impacto cognitivo do consumo incessante de conteúdos digitais curtos. Esse ambiente agrava a crise do sono e ajuda a explicar por que o descanso se tornou um recurso escasso – algo que precisa ser otimizado, monitorado e, muitas vezes, comprado.

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Foto: Divulgação

O sono como fronteira do mercado de bem-estar

O Global Wellness Institute estima que a economia global do bem-estar tenha alcançado US$ 6,8 trilhões em 2025. Dentro desse ecossistema, o sono ganhou protagonismo. Segundo a Allied Market Research, o mercado global de produtos e serviços voltados ao descanso deve ultrapassar US$ 585 bilhões até 2027, com crescimento médio anual de 7%.

O setor se organiza em múltiplas frentes: aplicativos de monitoramento, dispositivos vestíveis, colchões inteligentes, suplementos, terapias, exames diagnósticos e até experiências de luxo. O sono, antes tratado apenas como questão médica, passou a ser comercializado como serviço contínuo e personalizado, combinando tecnologia, design e prevenção.

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Sleeptech, dados e novos modelos de negócio

A ascensão das chamadas sleeptechs é um dos motores desse mercado. Relógios inteligentes, anéis, sensores domésticos e aplicativos analisam padrões de sono em tempo real, oferecendo relatórios e recomendações personalizadas. Pesquisa apresentada no Congresso Mundial do Sono, em 2023, com dados de 64 milhões de usuários de relógios inteligentes em 195 países, apontou queda na eficiência do sono global e aumento do tempo acordado durante a noite.

Além disso, surgem soluções que prometem democratizar o acesso a diagnósticos. Startups desenvolvem versões domiciliares da polissonografia, exame tradicionalmente caro e concentrado em clínicas especializadas. No Brasil, mais de 12 mil pessoas aguardavam na fila do SUS para realizar o exame em 2024, evidenciando gargalos no sistema público e oportunidades para a iniciativa privada.

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Foto: Divulgação

Fármacos, terapias e os limites do consumo

O avanço do mercado também passa pelo setor farmacêutico. Suplementos como melatonina ganharam popularidade, embora especialistas alertem para riscos da automedicação. Medicamentos mais recentes, como antagonistas de orexina – já aprovados em países como os Estados Unidos – prometem tratar a insônia com menor risco de dependência, mas ainda enfrentam barreiras regulatórias e de acesso no Brasil.

Ao mesmo tempo, cresce a adoção de terapias não farmacológicas, como a Terapia Cognitivo-Comportamental para insônia, considerada padrão-ouro por especialistas. Ainda assim, a adesão é lenta, especialmente em contextos de vulnerabilidade social, onde o problema do sono se agrava.

Entre saúde pública e oportunidade econômica

Apesar da expansão do mercado, o sono segue sub-reconhecido nas agendas de saúde pública. Estudo publicado na revista The Lancet aponta que apenas 22% dos países membros da Organização Mundial da Saúde monitoram dados populacionais sobre duração do sono. As consequências da privação afetam não só a saúde individual, mas também a economia: perdas de produtividade, aumento de acidentes, gastos médicos e impacto fiscal.

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