Perícias se intensificam e família cobra respostas no caso da corretora desaparecida em Caldas Novas
Polícia Civil apreende DVR do condomínio da desaparecida Daiane Alves Sousa, recolhe materiais genéticos e mantém investigação sob sigilo
Micael Silva e Letícia Leite
Os desdobramentos do desaparecimento da corretora de imóveis Daiane Alves Sousa, de 43 anos, em Caldas Novas, no sul de Goiás, seguem mobilizando forças policiais, familiares e a opinião pública. Mais de um mês após a última vez em que foi vista, a investigação permanece oficialmente classificada como caso de desaparecimento, sem confirmação de crime ou identificação de suspeitos.
Nos últimos dias, a Polícia Civil de Goiás realizou novas diligências no apartamento da corretora e intensificou a análise de materiais considerados essenciais para o avanço das apurações. Entre as ações, está a apreensão do gravador de imagens (DVR) do sistema de câmeras de segurança do condomínio onde Daiane morava.
O equipamento foi encaminhado para perícia técnica, com o objetivo de verificar se houve apagamento intencional de arquivos, falhas de funcionamento ou eventual adulteração dos registros.
Em entrevista à TV Anhanguera, o delegado André Luiz Barbosa explicou que o DVR foi recolhido para uma análise minuciosa. “O DVR foi apreendido para a gente certificar se não houve nenhum tipo de adulteração e, se houve, qual foi e em que momento foi, se existiam imagens que poderiam estar perdidas e que não tenham sido passadas para a Polícia Civil”, afirmou.
Além do DVR, objetos pessoais que estavam no apartamento da corretora também foram recolhidos. A Polícia Científica realizou exame de local, com registros fotográficos e documentais detalhados, e iniciou a extração de dados e mídias do sistema de vigilância. Também foram coletados materiais biológicos da vítima, como escova de cabelo e um absorvente, que foram encaminhados a Goiânia para extração de material genético e inserção no Banco Nacional de DNA.
A mãe de Daiane, Nilse Alves Pontes, de 61 anos, confirmou a coleta de alguns itens, mas disse não ter sido informada sobre todos os materiais apreendidos. “O que tem de recolhido, que eu saiba, foi que eles pegaram o notebook dela lá no começo e depois eles foram lá em casa e pegaram material, tipo escova de cabelo, para ver a questão de DNA”, afirmou ao O HOJE.
Em nota oficial, a Polícia Civil informou que, em razão da repercussão do caso e da necessidade de preservar as diligências em andamento, o delegado responsável não concederá esclarecimentos por contatos pessoais. Segundo a corporação, todas as informações oficiais serão divulgadas exclusivamente por meio da Assessoria de Comunicação, em momento oportuno, para evitar prejuízos à investigação.
Apesar de o caso estar sob responsabilidade do Grupo de Investigação de Homicídios (GIH), o delegado André Luiz Barbosa ressaltou que a principal linha de apuração considera a possibilidade de que Daiane esteja viva.
“A gente trabalha desde a hipótese de que Daiane pode ter deixado o local por conta própria. Trabalhamos com a hipótese dela poder ter sido levada do local e estar em outro lugar, ou até mesmo ter sido morta dentro do lapso temporal em que não teve contato com a família”, disse. Segundo ele, até o momento não há comprovação de crime, e cerca de 15 pessoas já foram ouvidas, todas na condição de envolvidas, não investigadas.
Em entrevista exclusiva ao jornal O HOJE, Nilse Alves Pontes detalhou o impacto emocional da repercussão do caso e criticou abordagens precipitadas. Ela relatou um episódio anterior de agressão envolvendo a filha, registrado oficialmente, e destacou que muitas informações divulgadas não consideraram o contexto completo dos fatos.
Nilse também ressaltou que, apesar das críticas, a exposição nacional ajudou a manter o caso em evidência. “A mídia tem nos ajudado mil por cento. Se não fosse a mídia, a gente não estaria onde está. Agora a cobrança é nacional”, afirmou.
A mãe descreveu Daiane como uma mulher independente, determinada e com forte senso de justiça. Segundo ela, a corretora mantinha uma rotina considerada previsível, dedicada ao trabalho e à administração de imóveis da família. No dia do desaparecimento, Daiane foi vista pela última vez descendo ao subsolo do prédio para verificar um problema recorrente de energia elétrica, após gravar um vídeo relatando a situação.
A Polícia Militar de Goiás também se manifestou por meio de nota, informando que está colaborando dentro de sua esfera de competência. Segundo a corporação, denúncias e informações recebidas pelo telefone 190 estão sendo encaminhadas à Polícia Civil. Equipes da PM também realizaram visitas aos familiares, prestaram orientações e manifestaram solidariedade, reforçando o compromisso institucional com a proteção da vida e o apoio às autoridades responsáveis pela investigação.
Enquanto as diligências seguem sob sigilo, familiares aguardam respostas e mantêm a esperança de localizar Daiane. Informações sobre o paradeiro da corretora podem ser repassadas, de forma anônima, pelo telefone ou diretamente à Delegacia de Polícia de Caldas Novas.
Relembre o caso da corretora Daiane Alves Sousa
Desaparecida desde o dia 17 de dezembro, a corretora de imóveis Daiane Alves Sousa, era responsável pela administração de apartamentos da família e de outros imóveis da cidade, cuidando diretamente da captação de hóspedes, segundo relato da mãe, Nilse Alves Pontes, em entrevista à reportagem.

Solteira e mãe de uma adolescente de 17 anos, Daiane morava em Caldas Novas havia cerca de dois anos. Segundo a mãe, ela não mantinha relacionamento fixo nem um círculo amplo de amizades na cidade, já que grande parte de sua convivência estava ligada ao trabalho. “Era uma rotina tranquila, sem novidade, sem comportamento diferente”, afirmou.
No dia do desaparecimento, Daiane foi até o subsolo do prédio onde morava para tentar restabelecer a energia elétrica do apartamento, que estava sem luz. Câmeras de segurança registraram o momento em que ela entrou no elevador, por volta das 19h, pouco antes de desaparecer. Desde então, não houve novos contatos nem registros de movimentação financeira, conforme apuração policial.
Nilse relatou que investigadores passaram horas no apartamento da família colhendo informações e realizando testes técnicos, inclusive simulando o uso simultâneo de equipamentos elétricos para verificar possíveis oscilações de energia, sem que falhas fossem constatadas.
A mãe também revelou conflitos antigos entre a família e a administração do condomínio, que resultaram em processos judiciais. Segundo documentos, uma assembleia realizada em agosto de 2025 registrou votação contrária à permanência de Daiane no local, decisão posteriormente contestada judicialmente pela família.
“Tem processo que já teve sentença, outros que estão conclusos aguardando decisão do juiz, outros que ainda faltam audiência”, relatou.
Segundo Nilse, a família evitou falar publicamente sobre esses conflitos por orientação jurídica, mas decidiu se manifestar diante da forma como o caso vem sendo tratado. “A partir do momento que estão mostrando só uma parte da história, eu tenho o direito de reagir. Minha filha está desaparecida e não tem como se defender”, afirmou.