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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
dia da gula

Quando o prazer de comer cruza a linha do adoecimento

Entre o desejo socializado de comer e a compulsão alimentar, especialistas alertam para sinais clínicos, impactos emocionais e a importância do acompanhamento profissional

Luana Avelarpor Luana Avelar em 26 de janeiro de 2026
comer
Comer por prazer e comer por perda de controle são comportamentos distintos, alertam especialistas em saúde alimentar. Foto: iStock

O calendário reserva ao dia 26 de janeiro uma palavra carregada de julgamentos morais: gula. Associada historicamente ao pecado e ao exagero, ela segue mobilizando discursos simplistas sobre comportamento alimentar. Os números, porém, mostram um cenário mais complexo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 4,7% dos brasileiros convivem com a compulsão alimentar, índice que quase dobra a média global, de 2,6%, e desloca o debate do campo da moral para o da saúde pública.

A distinção entre o prazer de comer e o adoecimento começa pelo controle. Para a nutricionista Bárbara Ávila, a chamada gula não se confunde, necessariamente, com transtornos alimentares. “Geralmente está ligada ao paladar e ao contexto social. A pessoa consegue parar quando se sente satisfeita e não há perda de controle ou sofrimento psíquico profundo após o ato”, pontua.

O alerta surge quando o ato de comer deixa de ser episódico e passa a obedecer a um padrão. No Transtorno de Compulsão Alimentar, o consumo ocorre em quantidade maior do que a maioria das pessoas ingeriria em circunstâncias semelhantes, acompanhado da sensação de perda de controle. “Pra ficar mais claro, a vontade de comer torna-se um sinal de alerta quando ocorre pelo menos uma vez por semana, por três meses consecutivos, e vem acompanhada de sentimentos de culpa, nojo de si mesma ou necessidade de comer escondido, ou uma vontade compensação, fazer jejuns sem orientação ou excesso de exercícios, como compensação do exagero alimentar”, detalha a especialista.

Outro comportamento recorrente nos consultórios é a chamada fome ansiosa. De acordo com Bárbara, sua origem é multifatorial, mas pode ser compreendida a partir de três eixos centrais. O fisiológico, frequentemente associado a dietas restritivas; o emocional, quando a comida passa a funcionar como mecanismo de regulação de sentimentos como estresse, solidão ou tédio; e o comportamental, marcado por práticas como comer diante de telas ou pular refeições, o que compromete os sinais naturais de saciedade.

Identificar o tipo de fome é um passo decisivo para interromper ciclos de excesso. “A primeira surge gradualmente, é sentida no estômago e é ‘paciente’. Você aceita melhor alimentos variados, inclusive mais saudáveis. Já a fome emocional é súbita e específica para alimentos hiper palatáveis, em muitas situações os mais ricos em açúcar e/ou gordura. Não passa com uma refeição comum e busca conforto imediato”.

As estratégias de prevenção passam menos por proibições e mais por organização da rotina. A nutricionista destaca a importância do consumo adequado de fibras, proteínas e água, além do sono regulado. “A dica científica que eu uso em consultório é pedir para o paciente pensar: se você não comeria uma fruta agora, a sua necessidade provavelmente é emocional, não nutricional. Além, claro, de se ter uma boa higiene do sono, pois o sono irregular reduz a leptina (saciedade) e aumenta a ghrelina (fome)”.

Quando o comer passa a gerar sofrimento, isolamento social e práticas extremas de controle de peso, o cuidado precisa ser ampliado. “O acompanhamento é multidisciplinar, focado na nutrição que vai trazer a reabilitação comportamental e equilíbrio metabólico. Um psicólogo auxilia na regulação emocional e, quando percebemos o diagnóstico mais grave clínico, o paciente é encaminhado ao psiquiatra e trabalhamos todos em equipe”.

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