Cannabis medicinal e o custo legal do cuidado
Documentário Quanto Custa o Remédio do Meu Pai acompanha a intimidade de uma família diante do Alzheimer e transforma a luta em memória, afeto e debate público
A história de Ivo Suzin atravessou o Brasil ao revelar o cotidiano de uma família diante do Alzheimer precoce e a transformação provocada pelo uso da cannabis medicinal. Antes do tratamento, as imagens registram um homem consumido pela agressividade, pela inquietação constante e pela perda progressiva de si. A convivência era marcada pelo medo e pelo esgotamento emocional. A doença avançava não apenas sobre o corpo de Ivo, mas sobre toda a dinâmica familiar.
Com a adoção da cannabis medicinal, o registro passa a revelar outra possibilidade de convivência. A violência cede espaço a um estado de maior serenidade. Surgem gestos de afeto, momentos de brincadeira, um sorriso discreto que retorna sem alarde. Não há promessa de reversão do diagnóstico nem discurso de cura. O que se observa é a redução do sofrimento e a preservação de vínculos em um quadro de demência avançada. Ivo volta a ocupar, dentro de casa, o lugar de pai, marido e presença afetiva.
Essas imagens começaram a ser produzidas anos antes, no projeto Curando Ivo, criado pelo filho, Filipe Barzan Suzin, como tentativa de lidar com a ausência de respostas eficazes para o avanço da doença. O vídeo ultrapassou 10 milhões de visualizações na internet e passou a circular como referência no debate sobre o acesso à cannabis medicinal no Brasil. Ao expor o antes e o depois sem mediações técnicas ou narrativas, o material levou para o espaço doméstico uma discussão que, até então, permanecia concentrada em decisões judiciais, consultórios médicos e artigos científicos.
É desse acervo que nasce o documentário Quanto Custa o Remédio do Meu Pai, agora com outra proposta narrativa. O filme não se propõe a repetir o impacto viral do material original, mas a aprofundar a experiência cotidiana do cuidado. A câmera desacelera, observa, permanece. O interesse não está no choque, mas no que sustenta a convivência quando o tratamento é atravessado por estigma, insegurança jurídica e alto custo.
Dentro da mesma casa, o cuidado se organiza de maneiras distintas. Filipe, que convive com uma leucemia desde a juventude, utiliza principalmente a via inalatória da cannabis medicinal, pela rapidez da ação em momentos de maior desconforto. Ivo fazia uso de óleo rico em THC, indicado para lidar com sintomas associados ao Alzheimer. A coexistência desses tratamentos reforça um dos eixos centrais do filme: a recusa da ideia de um modelo único de cuidado e a compreensão de que cada organismo responde de forma diferente às terapias disponíveis.
A narrativa encontra em Solange Suzin, mãe e esposa, um eixo sensível e constante. Sua presença conduz o olhar do filme para a dimensão menos visível do cuidado contínuo, marcado por decisões difíceis, rotina exaustiva e escolhas feitas fora dos protocolos tradicionais. É a partir dessa intimidade que o documentário constrói sua força, sem recorrer a especialistas em cena ou explicações técnicas.
Responsável pelo roteiro, pela produção e pela montagem, o cineasta Milson Santos afirma que a decisão de transformar o material em documentário surgiu na universidade, a partir de uma proposta de curta centrado em um personagem. A escolha por Filipe foi imediata. “A história do pai já era conhecida, mas havia pouca atenção ao próprio Filipe, que também é paciente de cannabis medicinal. O filme nasce dessa necessidade de ampliar o olhar”, afirma.
Milson relata que dedicou cerca de um mês à construção do roteiro antes de apresentá-lo à equipe, formada por estudantes do primeiro período do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás (UEG), no campus Laranjeiras. “Eu tinha muito claro como queria contar essa história. Para mim, o filme já existia enquanto estrutura”, diz. Essa concepção orientou escolhas centrais, como o ritmo contido da montagem e a ausência de especialistas como mediadores do discurso.
O contato prolongado com o material de arquivo da família foi um dos pontos mais exigentes do processo. “Passei semanas assistindo às imagens gravadas pelo Filipe durante o tratamento do pai. Foi emocionalmente pesado”, relata. O avanço da demência de Ivo acionou lembranças pessoais do diretor, que perdeu o avô para a mesma condição antes de conhecer o uso terapêutico da cannabis.
Com a morte de Ivo Suzin, em novembro do ano passado, em Goiânia, o documentário passa a ser atravessado por um dado incontornável. As imagens deixam de registrar apenas um processo em curso e passam a operar como testemunho de um cuidado exercido até o fim, em um contexto marcado por incerteza jurídica, custo elevado e ausência de políticas públicas consistentes. A experiência acompanhada pelo filme se encerra na vida concreta de Ivo, mas permanece como evidência das condições em que esse cuidado foi possível.
A partir desse ponto, a narrativa se insere de forma ainda mais direta no debate sobre a regulamentação da cannabis medicinal no Brasil. O filme chega ao público em meio a discussões legislativas que propõe restringir o cultivo ao cânhamo, com limites baixos de THC, modelo que, na prática, exclui pacientes cujo tratamento depende justamente dessa substância. A dimensão política não aparece como discurso, mas como consequência da experiência vivida, visível no custo dos medicamentos importados, na dependência de decisões judiciais, na prática do autocultivo e na desigualdade de acesso entre famílias.
Disponível gratuitamente no YouTube, Quanto Custa o Remédio do Meu Pai convida o público a acompanhar, sem atalhos, uma experiência familiar que expõe as tensões entre cuidado, legislação e desigualdade no acesso à cannabis medicinal no Brasil.

Esse filme surgiu da iniciativa de alunos de 1º período do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás e foi vencedor do Festival Miracine 2025 na categoria Jovem Cineasta, do Festival Internacional de Cine Canábico do Rio de Janeiro (FICC-2026) e do Festival Universitário do Audiovisual (FUÁ 2025) de São Caetano do Sul. Ele também passou por telas de várias mostras e sessões pelo Brasil, incluindo o palco “Cannabis é medicinal” da ExpoCannabis Brasil 2025, o maior evento do tema na América Latina.
Uma produção Santa Ganja e Cinema UEG em parceria com a Associação Curando Ivo.
Apoio: NUPECC- Núcleo de Pesquisa em Cultivo de Cannabis Sativa-UFG, Vereador Fabrício Rosa e LIS-UEG.
Direção e Entrevista: Isabella Abreu
Produção, Roteiro e Montagem: Milson Santos
Direção de fotografia: Sol Santiago
Cinegrafista: Léury Garcia
Som: Natan Augusto
Still: Kadu Oliveira
Imagens de Arquivo: Álvaro Dias e Filipe Suzin
Arte do poster: Camilla Guimarães
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