Nikolas, o único nome da direita capaz de falar aos corações bolsonaristas
Ato que reuniu 18 mil pessoas em Brasília mostrou que, sem Bolsonaro, deputado federal mineiro seria o único capaz de mobilizar emocionalmente a base do ex-presidente
Bruno Goulart
Durante a semana passada, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) protagonizou um movimento: a caminhada em defesa dos condenados pelos atos de 8 de janeiro, que teve início discreto em Paracatu, Minas Gerais, mas ganhou densidade ao atravessar Goiás, um dos Estados mais bolsonaristas do País, e terminou com uma grande mobilização em Brasília.
No começo, o grupo que acompanhava o parlamentar era pequeno. No entanto, à medida que o trajeto avançou, especialmente após a entrada em território goiano, o cenário mudou de forma significativa. Em Cristalina, no Entorno do Distrito Federal, o movimento começou a atrair apoiadores. Já em Luziânia, a adesão foi ainda maior, e indicava que Nikolas havia conseguido algo que outros líderes da direita não alcançaram: mobilizar emocionalmente a base bolsonarista. O ápice ocorreu na tarde de domingo (25), na Praça do Cruzeiro, em Brasília, quando cerca de 18 mil pessoas se reuniram, segundo levantamento do Monitor do Debate Político, da Universidade de São Paulo (USP).
No discurso final, Nikolas adotou um tom direto e de confronto. Apontou a mira das críticas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF): “O Brasil não tem medo de você”. Disse ainda que o objetivo do ato era “despertar o País”, que, segundo o deputado federal, vive “um pesadelo terrível”. “Não conseguimos mais viver nesse país”, completou.
Apoio logístico
Ao longo do percurso, a caminhada chamou atenção pela estrutura e pelo engajamento. Houve escolta aérea, apoio logístico de empresários, recepção com churrasco à base de “picanha do Bolsonaro” e até serviços voluntários de massagem oferecidos por profissionais de Goiás aos participantes, o que revela organização e financiamento robustos.
Bolsonaro do Novo Testamento
Ouvido pelo jornal O HOJE, o estrategista político Marcos Marinho afirma que a mobilização confirma Nikolas como o único ator da direita capaz de conversar diretamente com o coração do bolsonarismo. “O Nikolas é o Bolsonaro do Novo Testamento. Ele entendeu que, no contexto da realpolitik, ainda é irrelevante institucionalmente. Não faz parte da liderança partidária nem dos grupos decisores de Brasília”, analisa.
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Segundo Marinho, justamente por isso, o deputado optou por uma estratégia distinta dos demais nomes da direita. “Ele não tentou disputar cargos nem se colocar como presidenciável. Partiu para aquilo que sabe fazer muito bem, que é mobilização e narrativa. E, nesse campo, foi o único que conseguiu capturar a atenção e a paixão dos fiéis bolsonaristas.”
Na avaliação do estrategista político, esse espaço ficou vago após a prisão de Jair Bolsonaro e ainda não foi ocupado por outro nome considerado relevante. “Nem Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nem Michelle Bolsonaro (PL-DF), nem Ronaldo Caiado (UB) conseguiram estabelecer essa conexão emocional com a base. O Nicolas foi atrás exatamente disso: da atenção que estava solta”, observa.
Banco Master
Marinho destaca ainda que a caminhada serviu para deslocar o foco de temas sensíveis ao deputado, como questionamentos a respeito do Banco Master e das relações com a Igreja Batista da Lagoinha. “Ele sequestra a atenção pública pelas redes sociais e constrói uma narrativa ligada ao messianismo bolsonarista, essa ideia de cruzada contra o mal, contra a corrupção, algo que sempre foi central no bolsonarismo”, aponta.
Para o cientista político Lehninger Mota, ainda é cedo para tratar Nikolas como um “novo Bolsonaro”. Na sua leitura, o deputado atua em um contexto de vácuo de liderança e ocupa o espaço, que segue momentaneamente vazio, ao atuar como um representante do bolsonarismo, mas não como seu sucessor natural. “Bolsonaro ainda é o maior líder desse campo, com capacidade de transferência de votos, algo que ninguém mais demonstrou até agora.”
Ativo estratégico
Já o especialista em marketing político Luiz Carlos Fernandes avalia que, embora Nikolas ainda não seja um herdeiro eleitoral direto de Bolsonaro, tornou-se um ativo estratégico. “Ele é apenas mais um do grupo disputando o espólio de Bolsonaro para o futuro. No caso dele, para 2034, já que em 2030 ele ainda não terá idade [no mínimo 35 anos] para se candidatar a presidente”, pontua. (Especial para O HOJE)