domingo, 25 de outubro de 2026
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Caso Orelha leva a debate sobre violência contra animais e impulsiona denúncias em Goiás

Goiânia registra cerca de 200 denúncias de maus-tratos a animais por mês, segundo a Polícia Civil

Renata Ferrazpor em
Orelha
Manifestações em cidades goianas pediram justiça para animais vítimas de maus-tratos e cobraram punições mais rígidas - Foto: Reprodução

A morte do cachorro comunitário conhecido como Orelha, em Santa Catarina, provocou uma onda de indignação em todo o País e reacendeu um debate antigo, porém ainda urgente: a violência contra animais. Em Goiás, a repercussão do caso teve reflexos imediatos, com aumento da mobilização popular, manifestações públicas e maior procura por canais de denúncia. 

Dados da Polícia Civil de Goiás apontam que maus-tratos e abandono continuam liderando os registros de crimes contra animais no Estado, cenário que preocupa autoridades e reforça a necessidade de fiscalização constante e responsabilização efetiva dos agressores.

O caso Orelha ganhou projeção nacional após a divulgação de imagens que mostravam o animal sendo agredido até a morte. A brutalidade do crime gerou protestos em diversas Capitais brasileiras e impulsionou campanhas nas redes sociais, pressionando o poder público por respostas mais duras. 

Em Goiás, o episódio serviu como catalisador para expor uma realidade já conhecida pelas forças de segurança e por protetores independentes: a violência contra animais é recorrente e, em muitos casos, invisibilizada.

Ativistas e organizações da causa animal organizaram manifestações pacíficas pedindo justiça para o cachorro Orelha e punições mais severas para crimes semelhantes. Cartazes, faixas e discursos destacaram que a morte do animal não representa um caso isolado, mas sim parte de um problema estrutural que se repete diariamente em diferentes regiões do Estado.

Além das ruas, a mobilização ganhou força nas redes sociais. Publicações com denúncias, vídeos e relatos de maus-tratos se multiplicaram, ampliando o alcance das discussões e incentivando a população a procurar a Polícia Civil. Protetores afirmam que, após a repercussão do caso, houve aumento no número de pessoas interessadas em denunciar situações de abandono e agressão, especialmente envolvendo cães e gatos em áreas urbanas.

Maus-tratos e abandono lideram denúncias no Estado

Levantamentos da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (DEMA) mostram que maus-tratos e abandono seguem como as principais denúncias de crimes contra animais em Goiás. 

Apenas em Goiânia, a média chega a cerca de 200 registros por mês, o que representa mais de 2 mil ocorrências formalizadas ao longo de 2025. Os dados incluem agressões físicas, privação de água e alimento, confinamento inadequado, exploração, negligência veterinária e abandono em vias públicas.

Em janeiro de 2026, o volume de denúncias manteve tendência de alta em comparação ao mesmo período do ano anterior. A Polícia Civil observa que os registros aumentam principalmente em períodos de férias e feriados prolongados, quando o abandono de animais costuma crescer. 

A DEMA atua diretamente na apuração dos crimes e no resgate de animais em situação de risco. Após o recebimento da denúncia, as equipes analisam as informações, realizam diligências no local indicado e, quando necessário, solicitam apoio da Polícia Militar. Fotografias, vídeos e testemunhos são considerados fundamentais para fortalecer as investigações e embasar pedidos de perícia.

Em casos mais graves, como agressões que resultam em lesões ou morte do animal, a polícia pode efetuar prisão em flagrante. Quando não há flagrante, a DEMA instaura inquérito policial para identificar o autor, reunir provas e encaminhar o caso ao Ministério Público. Animais resgatados são encaminhados para clínicas veterinárias, ONGs ou lares temporários, dependendo da situação.

Segundo a delegada Simelli Lemes de Santana, do Grupo de Proteção Animal da Polícia Civil, a repercussão nacional de episódios de violência contra animais, como o caso do cachorro Orelha, tem incentivado mais pessoas a procurar a polícia. 

“A sociedade está mais atenta e isso reflete diretamente no aumento das denúncias. Maus-tratos e abandono são, hoje, os crimes mais recorrentes contra animais no Estado”, afirmou.

Ainda de acordo com a delegada, as investigações seguem rigor técnico e podem resultar em punições severas aos responsáveis. “Quando comprovado o crime, o autor pode responder por maus-tratos, que prevê pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa e proibição de guarda de animais. Em casos mais graves, como morte ou reincidência, a responsabilização é ainda mais rigorosa”, destacou. Ela também reforçou a importância das denúncias bem fundamentadas, com fotos, vídeos e informações que ajudem na identificação dos suspeitos.

O que diz a legislação brasileira sobre crimes de maus-tratos

A legislação brasileira avançou nos últimos anos no combate aos maus-tratos. A Lei Sansão (Lei nº 14.064/2020) aumentou significativamente as penas para crimes cometidos contra cães e gatos, prevendo reclusão de dois a cinco anos, além de multa e proibição da guarda do animal. Para outras espécies, as punições seguem previstas na Lei de Crimes Ambientais, com penas que variam de três meses a um ano de detenção.

Em Goiás, a legislação estadual complementa a lei federal. Normas recentes ampliaram penalidades administrativas, autorizaram multas mais elevadas e permitiram a perda definitiva da guarda do animal. Além disso, o agressor pode ser obrigado a custear tratamento veterinário, responder por danos morais coletivos e sofrer restrições legais relacionadas à posse de animais.

Segundo investigadores, muitos crimes de maus-tratos ocorrem dentro de residências, o que dificulta a fiscalização. Em diversos casos, vizinhos percebem a situação, mas demoram a denunciar por medo de represálias ou por desconhecimento dos canais adequados. A Polícia Civil reforça que a denúncia pode ser feita de forma anônima e que a colaboração da população é essencial para interromper ciclos de violência.

Outro desafio enfrentado pelas autoridades é a reincidência. Há registros de suspeitos que, mesmo após autuações administrativas, voltam a cometer crimes semelhantes. Por isso, especialistas defendem a aplicação rigorosa da legislação e a ampliação de programas educativos sobre guarda responsável e bem-estar animal.

Para protetores e entidades da causa animal, o caso Orelha deixou uma mensagem clara: a sociedade não tolera mais violência contra animais. No entanto, eles alertam que a indignação precisa se transformar em ações concretas.

A DEMA reforça que qualquer cidadão pode denunciar crimes contra animais pelos canais oficiais, como a Delegacia Virtual, o Disque Denúncia 197 ou diretamente em uma unidade policial. Em situações de flagrante, a orientação é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo 190.

Leia mais: Capital goiana se une a ato nacional por justiça no caso do cachorro Orelha

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