Invisibilidade institucional marca gestação de homens trans no Brasil
Entre avanços legais e práticas excludentes, homens trans ainda enfrentam invisibilidade, despreparo médico e barreiras no acesso ao pré-natal no Brasil
A maior exposição de homens trans que engravidam, visível nos últimos anos em reportagens e produções audiovisuais, não foi acompanhada por transformações equivalentes no sistema de saúde. Estudos acadêmicos mostram que a gestação de homens trans continua sendo atendida sem protocolos específicos, em meio a lacunas institucionais e práticas que dificultam o acesso a um cuidado adequado.
Estudo publicado em 2025 por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, na revista Physis, aponta que o cuidado oferecido a homens trans gestantes ainda ocorre de forma fragmentada. A análise identificou invisibilidade institucional, fragilidade das evidências clínicas disponíveis e despreparo generalizado dos serviços de saúde para lidar com essa população.
Atendimento ainda não contempla homens trans
A pesquisa destaca que a inexistência de diretrizes claras contribui para abordagens inadequadas e, em alguns casos, excludentes. Em muitos serviços, a gestação continua sendo tratada como uma experiência exclusivamente feminina, o que dificulta o acolhimento de homens trans desde o planejamento reprodutivo até o puerpério.
Relatos reunidos por instituições de defesa dos direitos trans apontam que o atendimento inadequado inclui uso insistente do nome civil, desrespeito à identidade de gênero, constrangimentos em ambientes coletivos e dificuldades de acesso a exames e consultas especializadas. Mesmo quando o acesso formal ao serviço ocorre, o cuidado integral nem sempre é garantido.
Planejamento familiar fora do alcance
Outro ponto crítico identificado pelos pesquisadores é a exclusão de homens trans das políticas públicas de planejamento familiar. A ausência dessa população nos programas oficiais reforça a ideia equivocada de infertilidade ou de falta de interesse em exercer a parentalidade.
Como consequência, muitos homens trans só procuram os serviços de saúde quando a gravidez já está em curso, o que aumenta riscos clínicos e reduz as possibilidades de acompanhamento preventivo. A abordagem predominante, baseada em pressupostos cisheteronormativos, limita o acesso à informação e à orientação adequada.
Hormonioterapia e impactos emocionais
A interrupção da hormonioterapia durante a gestação aparece como uma das questões mais sensíveis no cuidado de homens trans. No Brasil, a recomendação de suspensão do uso de testosterona ainda é frequente, apesar da ausência de consenso científico definitivo sobre seus impactos na gestação.
Estudos internacionais citados na literatura indicam que, com acompanhamento profissional adequado, é possível manter o uso hormonal de forma segura, o que pode contribuir para a preservação da saúde mental. A suspensão abrupta do tratamento, por outro lado, está associada a sofrimento emocional, agravamento de disforias corporais e prejuízos à qualidade de vida.
Além disso, a gestação pode desencadear desconfortos psicológicos relacionados às transformações corporais, como o crescimento da barriga e a lactação, especialmente em contextos sociais marcados por preconceito e falta de apoio familiar.
Avanços legais ainda não se refletem na prática
Nos últimos anos, mudanças normativas começaram a enfrentar parte dessas barreiras. Em 2024, decisões judiciais e atualizações administrativas passaram a permitir que documentos oficiais e sistemas de informação reconheçam diferentes configurações familiares e identidades de gênero no momento do parto e do registro civil.
Também houve atualização das normas do Sistema Único de Saúde para eliminar entraves administrativos baseados no sexo registrado em documentos, permitindo que homens trans acessem serviços de ginecologia e obstetrícia sem recusas formais.
Essas mudanças possibilitaram iniciativas como a criação de cadernetas de pré-natal específicas para homens trans, voltadas ao acompanhamento clínico, à saúde mental e à produção de dados para políticas públicas. Pesquisas recentes indicam que esse tipo de instrumento contribui para atendimentos mais respeitosos e para a revisão de práticas institucionais já existentes.
Apesar dos avanços, especialistas avaliam que a inclusão plena de homens trans na saúde gestacional ainda ocorre de forma lenta e desigual. O consenso é que o reconhecimento legal precisa ser acompanhado de formação contínua dos profissionais de saúde, revisão dos protocolos clínicos e compromisso institucional com o atendimento digno e igualitário.
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