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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Educação em risco

Calor extremo e eventos climáticos elevam risco de evasão escolar no ensino médio

Pesquisa revela que temperaturas acima de 34°C aumentam abandono escolar, enquanto calor, seca e temporais prejudicam a rotina de estudantes

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 4 de fevereiro de 2026
Evasão
Foto: Divulgação/Seduc

O avanço dos eventos climáticos extremos no Brasil passou a impactar diretamente não apenas a saúde e a economia, mas também a permanência de jovens na escola. Um estudo recente da Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com a Universidade Minerva, dos Estados Unidos, confirma que o aumento das temperaturas eleva o risco de evasão escolar no ensino médio público. 

Em Goiás, onde o calor extremo, a baixa umidade do ar, temporais e períodos prolongados de seca fazem parte da realidade climática, os prejuízos ao aprendizado se tornam cada vez mais evidentes.

A pesquisa, publicada na revista científica Nature Climate Change e divulgada em 1º de fevereiro de 2026, aponta que dias com temperaturas acima de 34 °C aumentam em 5% a probabilidade de estudantes abandonarem o ensino médio na rede pública. O fenômeno está associado ao estresse térmico, que compromete funções cognitivas essenciais, como concentração, raciocínio e autocontrole, afetando diretamente o desempenho escolar e a permanência dos alunos nas salas de aula.

Calor extremo compromete o aprendizado e a permanência dos alunos

9 abre 2 Calor intenso e baixa umidade do ar tornam o ambiente escolar mais dificil para alunos e professores Foto Divulgacao SES 1024x768 1
Foto: Divulgacao/SES

Os pesquisadores analisaram dados de mais de 80,7 milhões de matrículas do Censo Escolar, abrangendo cerca de 30 mil escolas públicas brasileiras entre 2007 e 2016, cruzados com informações climáticas de alta resolução do sistema europeu Copernicus (ERA5). O resultado revela que o impacto do calor ocorre de forma significativa apenas na rede pública, sobretudo em áreas urbanas, onde a infraestrutura escolar é mais precária.

Em Goiás, o problema se intensifica durante os meses mais quentes e secos do ano. Temperaturas que frequentemente ultrapassam os 38°C, associadas à baixa umidade do ar que em algumas regiões chega a índices inferiores a 20%, considerados críticos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), criam um ambiente hostil ao aprendizado.

Dados nacionais indicam que, em 2023, apenas cerca de 33% das salas de aula da rede pública brasileira eram climatizadas, realidade que também se reflete em muitas escolas goianas, especialmente no interior do Estado.

A professora do ensino médio Simone Santos relata que o calor excessivo tem efeito direto na frequência e no rendimento dos estudantes. “O calor impacta tudo. Em dias muito quentes, o rendimento cai, o cansaço aumenta e, em alguns casos, isso contribui para o afastamento gradual do aluno da rotina escolar”, afirma.

Segundo ela, os professores precisam se adaptar constantemente às condições climáticas adversas. “A gente flexibiliza a dinâmica das aulas, reduz atividades longas e fica atento aos sinais de mal-estar, como tontura, sonolência e desidratação. Muitas vezes o papel do professor vai além do conteúdo”, relata.

Simone também confirma que parte dos alunos deixa de frequentar as aulas em dias de calor extremo. “Alguns dizem que não conseguem ir à escola quando está muito quente, principalmente quando não há ventilador funcionando ou quando o transporte também é afetado. O calor acaba sendo mais um fator que empurra o jovem para a evasão.”

Além do calor extremo, os temporais registrados principalmente entre dezembro e março também interferem diretamente na continuidade do aprendizado. Chuvas fortes provocam alagamentos, danos à infraestrutura escolar e dificuldades de deslocamento, sobretudo em bairros periféricos e regiões rurais.

A combinação entre calor extremo, enchentes e seca prolongada transforma o clima em um fator estrutural de exclusão educacional. O estudo da FGV destaca que estudantes pobres, pretos, pardos e indígenas estão mais expostos a esses efeitos, por estarem concentrados em escolas com menor capacidade de adaptação às mudanças climáticas.

Infraestrutura, adaptação e resposta do poder público

Diante desse cenário, pesquisadores e educadores defendem a necessidade de planejamento do sistema educacional para lidar com crises climáticas cada vez mais frequentes. A evasão escolar causada por fatores ambientais não apenas compromete o futuro dos jovens, mas também aprofunda desigualdades históricas no acesso à educação.

Em Goiás, o governo estadual afirma trabalhar para ampliar a climatização das escolas da rede pública. A Secretaria de Estado da Educação (Seduc) iniciou a entrega de aparelhos de ar-condicionado e prevê a expansão do projeto para alcançar todas as salas de aula até o próximo ano, com investimentos que já ultrapassam milhões de reais em parceria com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Apesar dos avanços, professores alertam que a adaptação precisa ir além da instalação de equipamentos. “Não é falta de vontade de ensinar ou de aprender. Muitas salas são quentes e com a quantidade de alunos acaba piorando a situaçãr”, avalia Simone Santos.

Em Goiás, não são raros os episódios em que escolas suspendem atividades por conta de vias inundadas, falta de energia elétrica ou riscos estruturais. Esses episódios geram faltas frequentes e comprometem o acompanhamento do conteúdo, ampliando a defasagem escolar.

A temporada de seca, por sua vez, agrava problemas respiratórios, alergias e desidratação entre estudantes, o que também contribui para o aumento de ausências. O Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo) aponta que o Estado chegou a  enfrentar períodos com mais de 100 dias consecutivos sem chuvas, situação que intensifica o calor e a baixa umidade.

Especialistas alertam que a interrupção recorrente da rotina educacional atinge principalmente alunos em situação de vulnerabilidade social, que já enfrentam desafios econômicos, necessidade de trabalhar e longos deslocamentos.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Educação informou que realiza levantamentos para identificar se houve aumento específico de abandono escolar em Goiás relacionado a eventos climáticos extremos, mas destacou que a consolidação desses dados demanda tempo.

Enquanto isso, o clima segue impondo desafios diários às escolas goianas. O estudo da FGV reforça que a crise climática já não é apenas uma questão ambiental, mas também um problema educacional urgente, que exige ações estruturais para garantir o direito à educação e reduzir desigualdades no ensino médio público.

Leia mais: Governo de Goiás reforça ações de prevenção às ISTs durante o Carnaval de 2026

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