sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Trânsito

Aumento do limite para 50 km/h no Centro de Goiânia reacende debate sobre segurança viária

Especialista alerta para maior risco de atropelamentos e defende mudanças na geometria das vias do Centro, enquanto motoristas reclamam de lentidão histórica no tráfego da região

Letícia Leitepor em
Aumento do limite para 50 km/h no Centro de Goiânia reacende debate sobre segurança viária
Medida anunciada pela prefeitura divide opiniões e coloca em discussão a prioridade entre fluidez do trânsito e proteção de pedestres em área de grande circulação. Foto: Alex Malheiros/Secom Goiânia

A decisão da prefeitura de Goiânia de elevar de 40 km/h para 50 km/h o limite de velocidade em importantes vias estruturais do Centro reacendeu o debate sobre mobilidade urbana, segurança viária e o papel do pedestre no planejamento da cidade. A mudança, anunciada nesta terça-feira (3) pelo prefeito Sandro Mabel (União Brasil), passa a valer em avenidas como Araguaia, Tocantins, Paranaíba, Anhanguera e Rua 3, e foi baseada em estudos técnicos que apontaram incompatibilidade entre o limite anterior e a chamada “velocidade natural” das vias.

Apesar da justificativa oficial de que a medida busca melhorar a fluidez e manter a segurança, especialistas na área alertam para os riscos associados ao aumento da velocidade em uma região marcada por intenso fluxo de pedestres, comércio ativo e travessias frequentes. Para o especialista em mobilidade urbana Marcos Rothen, a decisão vai na contramão das boas práticas adotadas em centros urbanos.

“O aumento do limite de velocidade vai contra a segurança de pedestres, ciclistas e até dos próprios veículos. Hoje, com o limite de 40 km/h, o pedestre já enfrenta dificuldade para atravessar principalmente a Tocantins e a Araguaia que são muito largas, como a Tocantins e a Araguaia. Agora, além da dificuldade, a insegurança irá aumentar”, afirma.

Segundo Rothen, o problema central não está no limite imposto, mas na configuração das vias. Ele defende que, em vez de aumentar a velocidade permitida, o poder público deveria investir na alteração da geometria urbana. “As avenidas induzem a uma velocidade maior, mas a solução não é elevar o limite. O que deveria ser feito é a redução da largura das vias, implantando canteiros, pelo menos nas travessias. Assim o pedestre, caso não consiga efetuar a travessia de uma vez, fique protegido”, explica.

A situação, segundo ele, já representa risco em vias como a Paranaíba, onde é comum ver pedestres parados no meio da avenida, aguardando uma oportunidade segura para concluir a travessia. “Em outras cidades são implantadas medidas para reduzir o espaço para os carros aumentando para os pedestres. Por exemplo na Paranaíba o pedestre fica no meio do fluxo dos carros, ali deveria ter um canteiro central que diminuiria o espaço para os veículos e aumentaria a segurança dos pedestres”, pontua.

O especialista também alerta para a gravidade dos acidentes em velocidades mais altas, já que ao aumentar de 40 para 50 km/h eleva significativamente a gravidade dos atropelamentos. “Uma coisa é um impacto a 40 km/h, outra completamente diferente é a 50 km/h. A chance de morte cresce de forma expressiva”, ressalta. Para ele, a tendência mundial é clara: “Desconheço alguma cidade do mundo que tenha aumentado o limite de velocidade no centro. A tendência nas cidades organizadas é sempre a diminuição do limite privilegiando os pedestres e ciclistas. ”.

Tráfego no Centro

centro
Foto: Alex Malheiros/Secom Goiânia

Entre motoristas, porém, a percepção é diferente. Muitos reclamam que, historicamente, o tráfego no Centro se tornou excessivamente lento. “Tem trecho que parece que a gente está quase parando o carro. Você anda olhando mais para o velocímetro do que para a rua”, relata o comerciante João Batista, que circula diariamente pela região central. Ainda assim, ele reconhece o impacto positivo da redução anterior. “Depois que baixou para 40, os atropelamentos diminuíram bastante. A gente percebe mais atenção, principalmente perto das faixas.”

Do lado dos pedestres, o receio predomina. A aposentada Maria Helena, que atravessa diariamente a Avenida Tocantins, diz que a travessia já é difícil. “Mesmo com 40, os carros vêm rápidos. Às vezes a gente fica ilhado no meio da avenida. Com mais velocidade, vai ficar ainda pior”, afirma.

Rothen reforça que o ganho de fluidez com o aumento do limite tende a ser pequeno, já que o principal fator de atraso no trânsito urbano está nos semáforos. “Rapidamente os motoristas vão circular mais rápido, mas os pedestres vão demorar mais tempo para perceber isso, o que aumenta o risco de acidentes. Ainda o principal tempo perdido pelos motoristas é nós semáforos”, analisa.

Para o especialista, a segurança do pedestre deve ser prioridade nas áreas urbanas, mesmo que isso impacte o tempo de deslocamento dos veículos. “É importante destacar que nas áreas urbanas a segurança do pedestre é prioridade e deve ser garantida. Claro que essa prioridade para o pedestre afeta a velocidade dos motoristas”, conclui.

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