Goiás já perdeu mais que uma Alemanha e litígio continua
Exército Brasileiro, o imperador Dom Pedro I, os separatistas do Tocantins, Juscelino Kubitschek e políticos de Mato Grosso e Bahia estão entre os que colaboraram para o Estado cair de 713.917km² (maior que o 38º país do mundo) para 340.242km² (um Congo)
A Alemanha tem 356.733km², pouco maior que os 340.242km² de Goiás. A má notícia é que a grande potência europeia se reunificou, enquanto o Estado do Centro-Oeste brasileiro vem perdendo terreno. E muito. Quando se separou de São Paulo, no século XVIII, tinha 713.971km². Portanto, perdeu 373.729km², mais que a Alemanha unificada. E não para de ser depenado. Agora, o Tocantins quer mais uma fatia recheada de minério no Nordeste goiano.
O imperador Dom Pedro I tirou de Goiás o Triângulo Mineiro, um gigante do Sudeste com mais de 90 mil quilômetros quadrados – exatamente, 90.545km² ou quase cinco vezes o Estado de Sergipe, quatro Alagoas e mais que o dobro do Rio de Janeiro, o Estado, não apenas a cidade. Reza a lenda (e algum grupo de historiadores) que o imenso território foi um presente do soberano para uma amante.
Outro desfalque em terra ocasionou a maior fortuna de Goiás, o corte do quadradinho que resultou no Distrito Federal. Foram 5.761km² a menos, porém não se pode imaginar as paragens do Cerrado sem a interferência de Juscelino Kubitschek, o presidente que interiorizou o Brasil, seguindo a Marcha para o Oeste bolada por Getúlio Vargas.
Motivo da invasão: minério
De todas, a maior defecção se deu com os 277.423km² do Tocantins, autor das mais recentes dores de cabeça para os procuradores do Estado de Goiás. O jornal O Popular veiculou a encrenca de 12 mil e 900 hectares na divisa entre as duas unidades da federação. A turma que diz respeitar os direitos humanos, a diversidade, está louca para se apossar em definitivo de um estranho triângulo do município de Cavalcante, terra dos quilombolas. O jornal publicou em outra página a razão do interesse: 318 pedidos de pesquisas de minérios já liberadas. Só de ouro foram 212, mais 150 de manganês e, filé do filé, 49 de terras raras.
O que ninguém tem mostrado é uma faixa de terra vizinha ao assalto no quilombo dos Kalunga. Em 1919, ficou decidido que Goiás iria recuperar 42 mil e 300 hectares tomados na marra pela Bahia na fronteira entre Posse (GO) e Correntina (BA). Em 2014, o Supremo Tribunal Federal resolveu acabar com a leniência quase secular e mandou a Bahia devolver a terra, agora valiosíssima, pois nesse período por ali se instalaram agricultores tecnológicos que transformaram em diamante cada grão daquele terreno.
Sinônimo de produtividade é goiano
Setembro de 2016 foi a data do último recurso, porque o STF havia determinado ao Exército Brasileiro que mudasse os marcos divisórios. Aquele lugar agora é sinônimo internacional de produtividade, pois ali foi formado um dos municípios que deram fama ao agro, o de Luís Eduardo Magalhães. Em 2014, foram colhidas na parte goiana invadida pela Bahia 2 milhões de sacas de soja. A contenda abrangia mais dois Estados das proximidades, Piauí e Tocantins, porém a rusga não se acabou do lado de cá. A Bahia continua produzindo soja e dando banana para Goiás.
É preciso manter o cuidado e os olhos arregalados com relação ao território. Com a omissão das autoridades goianas dos séculos anteriores, o Mato Grosso, então unificado, deu o perdido em largas faixas de terra na região próxima às nascentes do Rio Araguaia. Foi uma subtração na mão grande. A fama de Goiás ter gente fina, só bonzinho, custou ao Estado mais essa mexida na cartografia.
Marcos mudam, mapas são violados
Os rios Araguaia, Paranaíba e Tocantins definem grande parte das linhas limítrofes, porém é Goiás piscar e os marcos mudam. Até na divisa com o Distrito Federal já foi tentado violar o mapa. Quando as autoridades goianas reconheceram a omissão, foi tarde: agora, há partes de prédios que estão dos dois lados da fronteira, apartamentos em que a sala é goiana e a cozinha, brasiliense.
No frigir das gemas de tanta pedra preciosa, o que interessa de fato é o que há não muito tempo era considerado de pouca valia. Quem imaginaria produção de nióbio e terras raras no território Kalunga? Ou o mundo de grãos entre Posse e Correntina? No mínimo, respeito à latitude e à longitude com que desejam asfixiar o Estado que já teve o formato de um coração, o coração do Brasil, e os vizinhos acham que continua apenas com a cor, a ação quem tem são eles. (Especial para O HOJE)