Roblox entra no radar das autoridades após denúncias de aliciamento e crimes contra menores
Plataforma popular entre crianças é investigada por aliciamento, conteúdos impróprios e falhas de proteção
Colorido, interativo e aparentemente inofensivo, o Roblox se tornou um dos ambientes virtuais mais frequentados por crianças e adolescentes em todo o mundo. No entanto, por trás dos avatares personalizados e dos milhares de jogos criados pelos próprios usuários, cresce a preocupação de autoridades, especialistas e famílias diante do aumento de denúncias envolvendo aliciamento de menores, exposição a conteúdos inadequados e violência psicológica no ambiente digital.
Segundo dados divulgados pela própria plataforma, cerca de 144 milhões de pessoas acessam o Roblox diariamente, sendo 50 milhões com menos de 13 anos e outros 57 milhões entre 13 e 17 anos. A maior parte desse público joga pelo celular, o que amplia o tempo de exposição e dificulta o monitoramento constante por parte dos responsáveis. A criação de contas é simples, rápida e, até pouco tempo atrás, praticamente sem mecanismos eficazes de comprovação de idade.
Esse cenário fez com que o Roblox entrasse no radar de investigações no Brasil e em outros países. Delegacias especializadas em crimes cibernéticos relatam que, cada vez mais, plataformas de jogos online aparecem como ponto inicial de crimes graves contra crianças e adolescentes.
Quando Roblox e outros o jogos vira porta de entrada para crimes
A delegada Marcella Cordeiro, da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos de Goiás (DERCC-GO), explica que o problema muitas vezes não termina dentro do jogo, mas começa ali. “Temos registrado casos em que o primeiro contato entre o abusador e a vítima ocorreu em plataformas de jogos online, como o Roblox. Esses ambientes permitem que crianças interajam com desconhecidos, o que é explorado por criminosos para criar vínculos de confiança”, afirma.
De acordo com a delegada, após essa aproximação inicial, os suspeitos costumam migrar a conversa para aplicativos de mensagens privadas, como WhatsApp, Telegram ou Discord. “Embora o abuso nem sempre aconteça dentro da plataforma de jogos, ela funciona como uma porta de entrada”, alerta.
Nas delegacias, os crimes mais recorrentes relacionados a esse tipo de ambiente envolvem aliciamento sexual, produção e compartilhamento de material íntimo envolvendo menores, chantagem após obtenção de imagens e também violência psicológica, que pode evoluir para situações ainda mais graves.
Pertencimento, recompensa rápida e vulnerabilidade emocional
Do ponto de vista psicológico, o sucesso do Roblox entre crianças e adolescentes não é casual. A psicóloga Wanessa Gomes Guimarães, explica que esses ambientes digitais atendem a necessidades emocionais típicas dessa fase da vida.
“Os adolescentes buscam prazeres imediatos e recompensas rápidas. No jogo, eles ganham pontos, atenção, reconhecimento e, muitas vezes, alguém que os escuta”, explica. Segundo ela, isso se conecta diretamente à necessidade de pertencimento. “Às vezes, o jovem tem dificuldade de se expressar na escola ou em casa, mas no ambiente online encontra acolhimento.”
Wanessa ressalta que o desenvolvimento emocional nessa fase ainda está em construção. “A autorregulação emocional do adolescente não está totalmente formada. Hormônios, frustrações, conflitos familiares e solidão fazem com que ele busque refúgio nesses ambientes”, afirma. No mundo virtual, o jovem pode assumir outra identidade, evitar cobranças e escapar temporariamente da realidade.
Essa dinâmica, no entanto, pode abrir espaço para manipulação. “Ali ele não precisa se explicar completamente, pode ser quem quiser. Isso aumenta a vulnerabilidade para abordagens perigosas”, alerta a psicóloga.
Proteção digital de crianças exige diálogo em casa e fiscalização
Apesar de o risco não estar restrito a um único jogo, alguns comportamentos podem indicar que algo não vai bem. Wanessa destaca sinais clássicos de alerta: isolamento social, irritabilidade fora do padrão, alterações no sono, queda no rendimento escolar e mentiras para permanecer conectado.
“Não é um sinal isolado que confirma um problema, mas um conjunto de mudanças de comportamento que deve acender o alerta dos pais”, explica. Ela reforça que proibir o acesso de forma radical tende a ser ineficaz. “Quando os pais apenas proíbem, o adolescente tende a se fechar ainda mais.”
A orientação, segundo a psicóloga, é se aproximar do universo digital dos filhos. “É importante entender o que a criança está jogando, com quem ela joga, participar um pouco desse contexto. Jogar junto, perguntar, mostrar interesse”, afirma. Além disso, ela recomenda o uso de controles parentais, definição de horários e incentivo a atividades fora do ambiente digital, como esportes e convivência social.
A delegada reforça que, diante de qualquer suspeita, a reação dos pais é decisiva. “É fundamental manter um diálogo aberto e acolhedor. Reações punitivas ou explosivas podem fazer com que a criança se feche e não volte a relatar situações de risco”, orienta. Ela destaca ainda a importância de preservar provas, como prints e mensagens, e buscar imediatamente uma delegacia especializada.
Investigações, leis e responsabilidade das plataformas
Com o avanço desses crimes, as autoridades também têm ampliado a capacidade de investigação. Segundo a delegada Marcella, há investimento em tecnologia, cooperação com empresas de tecnologia e atuação conjunta com órgãos internacionais. “Mesmo quando há tentativa de apagar rastros digitais, temos avançado na identificação dos responsáveis”, diz.
No Brasil, a Lei 15.211/25 impôs novas obrigações às plataformas digitais voltadas ao público infantil, como verificação de idade, ferramentas de supervisão parental, restrições à coleta de dados, proibição de práticas abusivas e remoção imediata de conteúdos ilícitos envolvendo menores. O descumprimento pode gerar multas milionárias e até suspensão das atividades.
Apesar disso, especialistas avaliam que os controles ainda são frágeis. Casos recentes mostram que crianças conseguem burlar sistemas de verificação usando documentos de adultos. Além do Brasil, o Roblox é investigado nos Estados Unidos, na Holanda e já foi banido em países como o Egito. O debate sobre restringir ou proibir redes sociais para menores avança em diversas nações.
Enquanto soluções estruturais não se consolidam, especialistas são unânimes em afirmar: a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital exige ação conjunta do Estado, das plataformas e das famílias.
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