Banco Master expõe disputa entre discurso, silêncio e sobrevivência eleitoral
Entre o discurso calculado de Lula e o silêncio estratégico de Flávio Bolsonaro, o caso expõe quem tenta se afastar do desgaste e quem prefere não entrar em um debate que pode sair do controle
Na política, o que se diz vira narrativa. O que não se diz também. Em períodos de pré-campanha, palavras são cuidadosamente escolhidas e silêncios deixam de ser ausência para se tornar estratégia. O caso do Banco Master, que envolve suspeitas de irregularidades financeiras e personagens de grande influência econômica e política, escancarou esse jogo de fala e omissão no tabuleiro nacional.
Embora o episódio tenha origem no sistema financeiro, o caso rapidamente ultrapassou o campo técnico. Não pelo impacto imediato junto à população, mas pelo potencial de desgaste institucional. Em um cenário ainda nebuloso, ninguém parece disposto a assumir protagonismo. E isso diz muito sobre quem tem mais a perder do que a ganhar.
No Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atua para afastar o caso do centro do governo. A estratégia é clara: descolar o escândalo da imagem do Executivo e reposicionar o debate no campo da crítica estrutural ao sistema financeiro. Ao fazer isso, Lula evita que o episódio seja enquadrado como um problema de sua gestão e, ao mesmo tempo, se coloca em sintonia com um sentimento social de desconfiança em relação a grandes bancos e conglomerados econômicos.
Como explica o estrategista político Marcos Marinho, “Lula está tentando afastar qualquer possibilidade de o ônus da responsabilidade cair sobre o governo dele”. Para Marinho, a crise não tem identidade ideológica e envolve atores de múltiplos campos de poder, o que reforça a necessidade de o presidente se manter fora do centro da narrativa negativa.
Do outro lado, o silêncio do senador Flávio Bolsonaro (PL) chama mais atenção do que qualquer declaração. Em um ambiente político marcado pela polarização e pela comunicação permanente, a ausência de posicionamento não é casual. Indica cautela diante de um terreno instável, onde novas revelações podem alterar completamente o jogo.
Até aqui, as conexões mais evidentes reveladas pela investigação orbitam o campo da direita política, que inclui financiadores de campanhas e relações próximas a lideranças conservadoras e religiosas. Diante disso, a oposição evita transformar o caso em bandeira pública, correndo o risco de alimentar um debate que pode se voltar contra o próprio grupo.
Percepção da população sobre escândalos do Banco Master
Essa escolha também dialoga com a percepção social sobre escândalos financeiros. Historicamente, casos que envolvem grandes bancos e corporações geram indignação pontual, mas raramente mobilizam a população de forma duradoura. São crises sem rosto, associadas a bilionários, conselhos administrativos e instituições distantes da vida cotidiana, ainda que, no fim da cadeia, o custo costume recair sobre o Estado.
Nesse ponto, a análise é dura: não há, até agora, elementos suficientes para transformar o caso Banco Master em motor de campanha. O escândalo atravessa diferentes matizes ideológicas e revela mais um padrão de manutenção de poder do que um conflito entre projetos políticos.
Marinho resume esse cenário ao afirmar que “esse nível de negociata não é ideológico, é de manutenção de poder e status”. Por isso, segundo o estrategista político, a tendência é que ninguém consiga apontar o dedo sem correr o risco de também ser atingido.

Oposição parece ter mais a perder
No balanço político atual, a oposição parece ter mais a perder. Não há como atribuir diretamente ao governo federal responsabilidades por decisões e relações que envolvem governadores, parlamentares e financiadores ligados majoritariamente à direita. Até que novas informações venham à tona, o silêncio coletivo funciona como escudo.
No fim, o caso Banco Master não expõe apenas falhas de um sistema financeiro sob suspeita. O escândalo revela uma política em modo defensivo, onde falar demais pode custar caro. E se calar, por enquanto, parece a opção menos arriscada. (Especial para O HOJE)
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