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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
ciência brasileira

Pesquisadora brasileira lidera avanço que faz tetraplégicos voltarem a andar

Resultado de quase 30 anos de investigação e pesquisa em biologia básica, o estudo conduzido por Tatiana Coelho de Sampaio aponta uma mudança de paradigma no tratamento de lesões medulares completas

Anna Salgadopor Anna Salgado em 18 de fevereiro de 2026
pesquisa
Foto: Reprodução/Instagram

Nos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma pesquisa desenvolvida ao longo de três décadas em biologia básica resultou na identificação da polilaminina, proteína criada com a finalidade de estimular a reconexão de estruturas nervosas lesionadas. Pela primeira vez na história da medicina moderna, a paralisia causada por lesões medulares completas deixou de ser considerada uma sentença definitiva para se tornar uma condição com possibilidade de reversão. O avanço, resultado de décadas de pesquisa lideradas por Tatiana Coelho de Sampaio, coloca o Brasil no centro das discussões internacionais sobre regeneração neural.

A pesquisa é fundamentada na matriz extracelular, especialmente na proteína laminina. Presente em abundância na placenta humana, a laminina exerce papel crucial no desenvolvimento embrionário ao orientar a conexão entre neurônios na formação do sistema nervoso. Após o nascimento, a produção da proteína é drasticamente reduzida, o que explica a baixa capacidade de regeneração do sistema nervoso central em adultos.

A inovação desenvolvida na UFRJ foi a criação da Polilaminina, uma versão polimerizada da proteína que atua como um “andaime biológico”. Em casos de rompimento da medula espinhal, provocados por acidentes de trânsito, quedas ou violência, a comunicação entre cérebro e membros é interrompida por um espaço que os nervos não conseguem atravessar espontaneamente. Aplicada por injeção diretamente no local da lesão, a substância funciona como uma ponte que estimula neurônios maduros a retomarem características de desenvolvimento e a produzirem novos axônios, restabelecendo os impulsos elétricos.

Os resultados clínicos são descritos como “extraordinários”. O caso mais emblemático é o de Bruno Drummond de Freitas, 31 anos. Após um acidente de carro em 2018 que resultou em esmagamento completo da medula cervical, ele foi diagnosticado com tetraplegia. Ao receber a aplicação experimental 24 horas após o trauma, apresentou evolução progressiva: em duas semanas, moveu o dedão do pé; em cinco meses, recuperou o controle do tronco, braços e pernas. Atualmente, caminha, pratica esportes e retomou a independência.

Outros pacientes também relataram progressos significativos. Luiz Fernando Mozer, primeiro paciente tratado, recuperou sensibilidade e contração muscular em menos de 48 horas. Hawanna Cruz Ribeiro, atleta paralímpica de rugby, recuperou cerca de 70% do controle do tronco e a sensibilidade da bexiga após anos de paralisia. Um jovem de 24 anos, vítima de mergulho em cachoeira, voltou a movimentar os braços dez dias após o tratamento.

Apesar dos resultados iniciais em humanos e em animais — incluindo ratos e cães que recuperaram a marcha — a pesquisa segue as etapas regulatórias. O laboratório brasileiro Cristália, que investiu R$ 28 milhões no desenvolvimento, firmou parceria com a UFRJ para produzir o fármaco em escala biotecnológica a partir de placentas doadas.

Em 2026, a Anvisa aprovou a fase 1 dos testes clínicos, voltada à segurança. A prioridade são lesões agudas, ocorridas em até três meses, período em que os resultados tendem a ser mais rápidos, antes da consolidação da cicatriz medular. Estudos paralelos com cães e uso compassivo em humanos indicam potencial também para casos crônicos, embora com recuperação mais lenta e dependente de fisioterapia intensiva. Pela dimensão do avanço, a pesquisa já é mencionada internacionalmente como possível candidata ao Prêmio Nobel de Medicina.

A mulher por trás da pesquisa e do microscópio 

Tatiana Coelho de Sampaio, 59 anos, é bióloga e professora titular da UFRJ. Filha de um engenheiro e filósofo, cresceu em um ambiente permeado por debates científicos, reflexões intelectuais e questionamentos constantes sobre o mundo natural. Desde cedo demonstrava inclinação para as ciências exatas e, ainda jovem, alimentou o desejo de se tornar física nuclear. Com o tempo, no entanto, encontrou na Biologia um campo igualmente desafiador e transformador. Graduou-se na UFRJ e concluiu mestrado em biofísica, consolidando uma trajetória acadêmica voltada à investigação dos mecanismos fundamentais da vida.

Sua formação incluiu ainda experiências internacionais relevantes. Realizou pós-doutorado na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e na Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, ampliando o repertório científico e estabelecendo diálogos com centros de pesquisa de referência. Apesar da vivência no exterior, manteve sua atuação vinculada à ciência brasileira, optando por desenvolver suas pesquisas no País e contribuir com a formação de novos cientistas.

Tatiana conheceu a laminina em 1997 e, desde então, dedicou 28 anos ao estudo da molécula. Ao longo desse período, enfrentou ceticismo acadêmico, financiamento limitado e a descrença de que a regeneração medular seria possível. Em um cenário em que parte do mercado global priorizava tecnologias cibernéticas e soluções de interface homem-máquina, ela manteve o foco na biologia e na matriz extracelular, sustentando a convicção de que respostas orgânicas poderiam oferecer caminhos promissores para lesões neurológicas.

A trajetória científica foi construída paralelamente à vida pessoal. Mãe de três — Ivo, Anita e Raquel, filha que acolheu órfã —, define a própria casa como “acolhedora e barulhenta”. Afirma que o cotidiano familiar sempre foi marcado por conversas intensas e pela valorização do conhecimento. Sem redes sociais, diz preferir a “vida real” e o contato direto com as pessoas. Frequentadora do botequim “Vaca Atolada”, na Lapa, transita entre rodas de samba e agendas institucionais, mantendo presença tanto em espaços culturais quanto em ambientes formais de debate sobre políticas públicas. Nesse percurso, tornou-se também defensora ativa do financiamento à ciência.

Recentemente, decidiu divulgar publicamente os resultados da pesquisa. “Não tenho mais o direito de ser conservadora. Nesse momento, tenho que me arriscar”, afirmou ao justificar a defesa da aceleração dos testes na Anvisa. A decisão marca uma inflexão em sua postura, historicamente cautelosa, diante da pressão de famílias e pacientes que acompanham os avanços do estudo. Ela relata receber diariamente mensagens de pessoas em busca de tratamento e passou a dialogar com parlamentares e ministros sobre burocracia e subfinanciamento das universidades públicas, apontando entraves estruturais que impactam a pesquisa científica no Brasil.

Um dos encontros mais marcantes foi com a ex-ginasta Laís Souza, tetraplégica há 12 anos, que viajou ao Rio de Janeiro para conhecer a pesquisadora. Para Tatiana, cada paciente que recupera movimentos representa mais do que o êxito de um fármaco: simboliza a superação de décadas de descrédito científico, resistência institucional e limitações orçamentárias. Se o reconhecimento internacional vier, afirma que celebrará; caso contrário, seguirá o trabalho com a mesma determinação. Para ela, a maior recompensa é o retorno do movimento a quem antes vivia sob o silêncio da paralisia, resultado que considera a verdadeira medida do impacto de sua pesquisa.

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