Pesquisadora brasileira lidera avanço que faz tetraplégicos voltarem a andar
Resultado de quase 30 anos de investigação e pesquisa em biologia básica, o estudo conduzido por Tatiana Coelho de Sampaio aponta uma mudança de paradigma no tratamento de lesões medulares completas
Nos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma pesquisa desenvolvida ao longo de três décadas em biologia básica resultou na identificação da polilaminina, proteína criada com a finalidade de estimular a reconexão de estruturas nervosas lesionadas. Pela primeira vez na história da medicina moderna, a paralisia causada por lesões medulares completas deixou de ser considerada uma sentença definitiva para se tornar uma condição com possibilidade de reversão. O avanço, resultado de décadas de pesquisa lideradas por Tatiana Coelho de Sampaio, coloca o Brasil no centro das discussões internacionais sobre regeneração neural.
A pesquisa é fundamentada na matriz extracelular, especialmente na proteína laminina. Presente em abundância na placenta humana, a laminina exerce papel crucial no desenvolvimento embrionário ao orientar a conexão entre neurônios na formação do sistema nervoso. Após o nascimento, a produção da proteína é drasticamente reduzida, o que explica a baixa capacidade de regeneração do sistema nervoso central em adultos.
A inovação desenvolvida na UFRJ foi a criação da Polilaminina, uma versão polimerizada da proteína que atua como um “andaime biológico”. Em casos de rompimento da medula espinhal, provocados por acidentes de trânsito, quedas ou violência, a comunicação entre cérebro e membros é interrompida por um espaço que os nervos não conseguem atravessar espontaneamente. Aplicada por injeção diretamente no local da lesão, a substância funciona como uma ponte que estimula neurônios maduros a retomarem características de desenvolvimento e a produzirem novos axônios, restabelecendo os impulsos elétricos.
Os resultados clínicos são descritos como “extraordinários”. O caso mais emblemático é o de Bruno Drummond de Freitas, 31 anos. Após um acidente de carro em 2018 que resultou em esmagamento completo da medula cervical, ele foi diagnosticado com tetraplegia. Ao receber a aplicação experimental 24 horas após o trauma, apresentou evolução progressiva: em duas semanas, moveu o dedão do pé; em cinco meses, recuperou o controle do tronco, braços e pernas. Atualmente, caminha, pratica esportes e retomou a independência.
Outros pacientes também relataram progressos significativos. Luiz Fernando Mozer, primeiro paciente tratado, recuperou sensibilidade e contração muscular em menos de 48 horas. Hawanna Cruz Ribeiro, atleta paralímpica de rugby, recuperou cerca de 70% do controle do tronco e a sensibilidade da bexiga após anos de paralisia. Um jovem de 24 anos, vítima de mergulho em cachoeira, voltou a movimentar os braços dez dias após o tratamento.
Apesar dos resultados iniciais em humanos e em animais — incluindo ratos e cães que recuperaram a marcha — a pesquisa segue as etapas regulatórias. O laboratório brasileiro Cristália, que investiu R$ 28 milhões no desenvolvimento, firmou parceria com a UFRJ para produzir o fármaco em escala biotecnológica a partir de placentas doadas.
Em 2026, a Anvisa aprovou a fase 1 dos testes clínicos, voltada à segurança. A prioridade são lesões agudas, ocorridas em até três meses, período em que os resultados tendem a ser mais rápidos, antes da consolidação da cicatriz medular. Estudos paralelos com cães e uso compassivo em humanos indicam potencial também para casos crônicos, embora com recuperação mais lenta e dependente de fisioterapia intensiva. Pela dimensão do avanço, a pesquisa já é mencionada internacionalmente como possível candidata ao Prêmio Nobel de Medicina.
A mulher por trás da pesquisa e do microscópio
Tatiana Coelho de Sampaio, 59 anos, é bióloga e professora titular da UFRJ. Filha de um engenheiro e filósofo, cresceu em um ambiente permeado por debates científicos, reflexões intelectuais e questionamentos constantes sobre o mundo natural. Desde cedo demonstrava inclinação para as ciências exatas e, ainda jovem, alimentou o desejo de se tornar física nuclear. Com o tempo, no entanto, encontrou na Biologia um campo igualmente desafiador e transformador. Graduou-se na UFRJ e concluiu mestrado em biofísica, consolidando uma trajetória acadêmica voltada à investigação dos mecanismos fundamentais da vida.
Sua formação incluiu ainda experiências internacionais relevantes. Realizou pós-doutorado na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e na Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, ampliando o repertório científico e estabelecendo diálogos com centros de pesquisa de referência. Apesar da vivência no exterior, manteve sua atuação vinculada à ciência brasileira, optando por desenvolver suas pesquisas no País e contribuir com a formação de novos cientistas.
Tatiana conheceu a laminina em 1997 e, desde então, dedicou 28 anos ao estudo da molécula. Ao longo desse período, enfrentou ceticismo acadêmico, financiamento limitado e a descrença de que a regeneração medular seria possível. Em um cenário em que parte do mercado global priorizava tecnologias cibernéticas e soluções de interface homem-máquina, ela manteve o foco na biologia e na matriz extracelular, sustentando a convicção de que respostas orgânicas poderiam oferecer caminhos promissores para lesões neurológicas.
A trajetória científica foi construída paralelamente à vida pessoal. Mãe de três — Ivo, Anita e Raquel, filha que acolheu órfã —, define a própria casa como “acolhedora e barulhenta”. Afirma que o cotidiano familiar sempre foi marcado por conversas intensas e pela valorização do conhecimento. Sem redes sociais, diz preferir a “vida real” e o contato direto com as pessoas. Frequentadora do botequim “Vaca Atolada”, na Lapa, transita entre rodas de samba e agendas institucionais, mantendo presença tanto em espaços culturais quanto em ambientes formais de debate sobre políticas públicas. Nesse percurso, tornou-se também defensora ativa do financiamento à ciência.
Recentemente, decidiu divulgar publicamente os resultados da pesquisa. “Não tenho mais o direito de ser conservadora. Nesse momento, tenho que me arriscar”, afirmou ao justificar a defesa da aceleração dos testes na Anvisa. A decisão marca uma inflexão em sua postura, historicamente cautelosa, diante da pressão de famílias e pacientes que acompanham os avanços do estudo. Ela relata receber diariamente mensagens de pessoas em busca de tratamento e passou a dialogar com parlamentares e ministros sobre burocracia e subfinanciamento das universidades públicas, apontando entraves estruturais que impactam a pesquisa científica no Brasil.
Um dos encontros mais marcantes foi com a ex-ginasta Laís Souza, tetraplégica há 12 anos, que viajou ao Rio de Janeiro para conhecer a pesquisadora. Para Tatiana, cada paciente que recupera movimentos representa mais do que o êxito de um fármaco: simboliza a superação de décadas de descrédito científico, resistência institucional e limitações orçamentárias. Se o reconhecimento internacional vier, afirma que celebrará; caso contrário, seguirá o trabalho com a mesma determinação. Para ela, a maior recompensa é o retorno do movimento a quem antes vivia sob o silêncio da paralisia, resultado que considera a verdadeira medida do impacto de sua pesquisa.