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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
SOLUÇÃO?

Mabel promete R$ 150 mi na Marginal Botafogo para acabar com alagamentos; especialistas questionam proposta

Prefeito anuncia investimento milionário para acabar com alagamentos na Marginal Botafogo, mas Seinfra afirma que intervenções ainda dependem da conclusão do Plano Diretor de Drenagem Urbana

Anna Salgadopor Anna Salgado em 19 de fevereiro de 2026
botafogo
Foto: Divulgação/SET

Em vídeo publicado recentemente nas redes sociais, o prefeito de Goiânia, Sandro Mabel (União Brasil), anunciou o que classificou como o “o maior projeto de investimento que nós estaremos fazendo aqui na cidade ” para a Marginal Botafogo. Com aporte previsto de R$ 150 milhões, ele prometeu solucionar, de forma definitiva, os recorrentes alagamentos que atingem a via há décadas. 

De acordo com o prefeito, as intervenções na Botafogo, com início previsto para junho, terão como foco a implantação de drenagem adequada, obras de contenção e a recuperação do canal. A proposta, no entanto, tem gerado ceticismo entre especialistas em urbanismo e engenharia, que questionam a eficácia de intervenções exclusivamente estruturais e apontam contradições na condução da política ambiental do município.

Para Glauco Gonçalves, professor do Programa de Pós-graduação de Arquitetura da Universidade Federal de Goiás (UFG), a própria concepção da via é equivocada. Ele explica que o que se convencionou chamar de “marginal” corresponde, do ponto de vista geológico, à várzea do córrego. “A várzea é o rio. Ela é uma área de cheia, um componente do curso d’água concebido ao longo de milhares de anos para receber a água em determinados momentos”, afirma o professor.

Glauco avalia que promessas de soluções “definitivas” para a Botafogo baseadas no uso intensivo de concreto têm caráter populista e desconsideram a capacidade crítica da população. Na sua análise, tentar resolver os alagamentos da Marginal Botafogo por meio de obras de contenção isoladas não enfrenta a raiz do problema. “A solução definitiva seria abandonar essas áreas para o tráfego de veículos e devolver a elas a condição de ser água quando a água chega”, defende.

O arquiteto e urbanista Fred Le Blue compartilha da avaliação de que a Marginal Botafogo foi implantada sem o recuo necessário em relação ao leito do córrego, o que transforma o transbordamento em um risco permanente. Ele também chama atenção para possíveis efeitos colaterais de intervenções que priorizem apenas o aumento da velocidade do escoamento. “Essas intervenções são perigosas porque podem criar correntezas involuntárias capazes de causar acidentes em pontos inesperados do sistema de drenagem”, explica.

Segundo o arquiteto, qualquer reforma que foque apenas em reservatórios artificiais caros pode não apresentar resultados satisfatórios se não atacar a impermeabilização do solo na origem. Ele defende que o modelo de canalização atual da Botafogo possui defeitos crônicos de engenharia e arquitetura que não se resolvem apenas com mais concreto, sendo necessário repensar a via a partir de paradigmas da sustentabilidade do século XXI.

Especialistas criticam retirada de árvores e defendem soluções naturais para a Marginal Botafogo

Um dos pontos mais polêmicos levantados pelos especialistas é a política de retirada de vegetação da atual gestão. Enquanto promete solucionar alagamentos, a prefeitura tem avançado com a retirada de árvores em diversos pontos da cidade para dar lugar ao asfalto e à mobilidade automotiva.

“A cobertura vegetal é um dos principais aliados naturais da drenagem urbana”, destaca Fred Le Blue. A retirada de árvores e a diminuição de praças e canteiros comprometem a infiltração da água no solo, facilitando o acúmulo na superfície e sobrecarregando o sistema de drenagem. Glauco Gonçalves é ainda mais incisivo: “Parece que o prefeito tem ódio de árvore. Em uma frente ele corta árvores e elimina áreas verdes, e na outra faz promessas faraônicas pontuais e extremamente caras”.

Os especialistas lembram que as margens do córrego são Áreas de Preservação Permanente (APP), protegidas pela Lei Orgânica, e alertam que a cidade precisa ampliar a permeabilidade do solo para reduzir o risco de novas tragédias. Para Glauco, a escolha é direta e não comporta alternativas: “Ou as cidades serão verdes ou elas serão inundadas. Não tem como fugir disso”.

Na avaliação de Fred Le Blue, em vez de investir recursos milionários em intervenções de concreto que podem se tornar paliativas ao longo do tempo, o poder público deveria priorizar soluções baseadas na natureza. Entre as propostas apresentadas estão a implantação de jardins de chuva e biovaletas, caracterizados como depressões vegetadas capazes de capturar e filtrar a água da chuva, contribuindo para a drenagem urbana. 

O especialista também defende a criação de vagas verdes e a adoção de pavimentos permeáveis, com a substituição de áreas impermeabilizadas, como estacionamentos convencionais, por zonas que permitam maior infiltração. Outra alternativa apontada é a implementação de parques lineares, com o resgate da paisagem natural do córrego e a criação de espaços seguros e ambientalmente sustentáveis.

Apesar do anúncio de R$ 150 milhões para a obra, os detalhes técnicos do projeto ainda não foram divulgados. Glauco ressalta que, sem estudos aprofundados e a identificação dos profissionais responsáveis pela elaboração e assinatura do projeto, não é possível realizar uma análise criteriosa da proposta. “É um número lançado ao vento. Precisamos saber onde serão os piscinões, que áreas serão desapropriadas e qual o custo real disso”, afirma.

Questionada sobre o embasamento técnico das obras anunciadas pelo prefeito Sandro Mabel para a Marginal Botafogo e sobre os impactos da retirada de árvores no escoamento das águas pluviais, a Secretaria de Infraestrutura (Seinfra) afirmou que as definições dependem da conclusão do Plano Diretor de Drenagem Urbana de Goiânia. A reportagem solicitou esclarecimentos sobre projeto executivo, modelagem da intervenção, estudos hidrológicos, cronograma, valor total da obra e eventuais medidas de compensação ambiental.

Enquanto o plano não chega, a gestão Mabel aposta em alertas da Defesa Civil e bloqueios preventivos como medidas imediatas na Marginal Botafogo. No entanto, para quem estuda a cidade, o risco é que Goiânia continue gastando milhões para combater a natureza, em vez de aprender a conviver com ela. Como resume Fred Le Blue: “As águas estão pedindo passagem e devemos dar a elas o espaço que é delas”.

O investimento anunciado por Mabel é robusto, mas o sucesso da empreitada dependerá de a prefeitura entender que a solução para a Marginal Botafogo não está apenas na engenharia pesada, mas na capacidade de tornar Goiânia uma cidade genuinamente permeável e resiliente às mudanças climáticas.

 

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