sexta-feira, 16 de outubro de 2026
SAÚDE

Alzheimer expõe desafio crescente no Brasil que envelhece

Campanha Fevereiro Roxo reforça importância do diagnóstico precoce diante do avanço da doença e do subdiagnóstico no país

Luana Avelarpor em
Alzheimer
O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que provoca declínio progressivo das funções cognitivas, comprometendo memória, raciocínio, comportamento e autonomia Crédito: iStock / Getty Imagens

O mês de fevereiro concentra esforços de conscientização sobre três doenças crônicas sem cura: Alzheimer, lúpus e fibromialgia. Entre elas, o Alzheimer se impõe como um dos principais desafios sanitários do país, em um contexto de envelhecimento acelerado da população. A mobilização busca ampliar informação, estimular o reconhecimento dos sintomas e reduzir o atraso no diagnóstico.

Doença neurodegenerativa progressiva, o Alzheimer compromete memória, raciocínio, comportamento e autonomia. É a causa mais frequente de demência, conjunto de distúrbios cerebrais que levam à perda de habilidades intelectuais e sociais. Dados da Associação Brasileira de Alzheimer indicam que cerca de 6% dos mais de 15 milhões de brasileiros com mais de 60 anos convivem com a enfermidade.

Para o neurologista Paulo Ricardo Gonçalves Guimarães, da Clínica Vittá, a difusão de conhecimento ainda é insuficiente. “É uma doença que está presente em muitas pessoas no mundo inteiro. Então, eu acho que temos que dar mais ênfase ao Alzheimer, porque o diagnóstico tem que ser muito bem feito”, afirma.

Alzheimer e o avanço dos casos

Estimativas apontam que entre 1,2 e 1,76 milhão de brasileiros vivem atualmente com algum tipo de demência. Projeções indicam que o número pode ultrapassar 5 milhões até 2050, crescimento superior a 200%. O risco aumenta com a idade e pode chegar a cerca de 43% entre pessoas com 90 anos ou mais.

O especialista destaca que a doença vai além do esquecimento pontual. “Não é apenas perda de memória. A doença provoca atrofia e degeneração cerebral progressiva”, explica. No Brasil, mais de 80% dos casos de demência não são formalmente diagnosticados, o que revela um quadro de subnotificação persistente.

Fatores como tabagismo, obesidade, diabetes, baixa escolaridade e desigualdade social estão associados ao aumento da incidência. Embora haja componente hereditário relevante, a identificação precoce pode preservar autonomia por mais tempo. Pequenos lapsos frequentes, repetição de perguntas, dificuldade de orientação e alterações comportamentais exigem avaliação médica. “Muitas vezes esses sintomas são atribuídos ao estresse, ansiedade, enxaqueca ou até ao envelhecimento natural, o que atrasa a investigação”, alerta.

Diante do cenário demográfico, Guimarães defende reorganização da rede de atenção. “precisamos de uma força-tarefa voltada ao diagnóstico precoce”. Ele reforça que não há prevenção capaz de impedir o surgimento da doença. “A doença passa de geração em geração. Mas se nós conseguirmos ter um diagnóstico precoce, podemos prolongar os dias de vida com maior qualidade para essas pessoas que precisam”, explica.

Sem cura disponível, o tratamento atual busca retardar a progressão e controlar sintomas. Em um país que envelhece em ritmo acelerado, o debate sobre Alzheimer deixa de ser pontual e passa a integrar a agenda estrutural de saúde pública.

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