Polilaminina gera esperança e reacende debate sobre rigor científico em tratamentos experimentais
Especialistas defendem que avanço científico depende de protocolos internacionais e revisão por pares antes da liberação ampla da polilaminina
A recente exposição midiática da polilaminina, molécula desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para o tratamento de lesões medulares, provocou forte repercussão e uma onda de otimismo entre pacientes e familiares. Em paralelo ao entusiasmo, entidades científicas como a Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) adotaram tom de cautela e alertaram que, sem o cumprimento rigoroso de todas as etapas da pesquisa clínica, não é possível assegurar nem a eficácia nem a segurança da substância.
A polilaminina é uma versão produzida em laboratório da laminina, proteína natural que atua na conexão entre neurônios. O atual cenário de expectativa está fundamentado em um estudo piloto acadêmico que envolveu apenas oito voluntários. De acordo com os dados divulgados, seis pacientes apresentaram melhoras motoras e um deles teria voltado a caminhar. Apesar dos resultados considerados promissores da polilaminina, especialistas destacam que pesquisas dessa natureza têm caráter preliminar e não constituem comprovação científica definitiva.
O desenvolvimento de um medicamento segue protocolos internacionais bem estabelecidos, baseados na Declaração de Helsinque, criados para evitar falhas éticas e tragédias históricas, como o caso da talidomida. O processo é dividido em fases sucessivas e obrigatórias. A fase 1 é dedicada exclusivamente à análise de segurança, determinando a dose máxima tolerável e identificando possíveis efeitos adversos graves. A fase 2 amplia o número de participantes para avaliar eficácia e ajustar dosagens. Já a fase 3 testa a eficácia em larga escala, comparando resultados antes de eventual aprovação regulatória.
No caso da polilaminina, os testes formais de fase 1 em humanos, voltados à segurança, estão previstos para começar apenas em março de 2026. Isso significa que as aplicações realizadas até o momento, muitas por meio de judicialização, ocorreram fora de protocolos estruturados de pesquisa clínica, o que amplia as preocupações da comunidade científica.
Um dos principais questionamentos sobre a polilaminina refere-se à ausência de grupo controle no estudo piloto conduzido pela UFRJ. Em pesquisas clínicas, o grupo controle, que recebe placebo ou tratamento padrão, é essencial para determinar se a melhora observada decorre do novo fármaco ou de outros fatores. Sem essa comparação, não há como estabelecer relação de causalidade.
Em quadros de lesão medular aguda, por exemplo, pode ocorrer o chamado choque medular, condição em que o paciente perde movimentos temporariamente após o trauma, mas pode recuperá-los de forma espontânea com descompressão cirúrgica e fisioterapia. Sem um grupo controle da polilaminina, não é possível afirmar se a recuperação relatada está associada à polilaminina ou à própria evolução natural da lesão.
Outro ponto central é a revisão por pares (peer review), etapa em que especialistas independentes analisam metodologia e conclusões antes da publicação definitiva. Até agora, os dados foram divulgados da polilaminina apenas em formato pré-print, sem esse escrutínio científico. O neurocirurgião Guilherme Lepski observa que a regeneração medular é um processo complexo e que qualquer abordagem terapêutica precisa superar barreiras biológicas, como os fatores NoGo, substâncias naturais que inibem o crescimento neuronal após traumas.
A cautela manifestada por médicos e entidades científicas não representa ataque pessoal aos pesquisadores envolvidos, mas segue protocolos éticos consolidados. Especialistas reforçam que a ciência exige método, validação e tempo. A antecipação de conclusões ou a pressão por resultados pode comprometer a qualidade da pesquisa e, sobretudo, a proteção dos pacientes.
O fantasma da Fosfoetanolamina ronda a Polilaminina e o risco da ciência por decreto
O cenário de pressão popular e judicialização em torno da polilaminina traz lembranças de um dos episódios mais alarmantes da medicina brasileira: a fosfoetanolamina sintética, popularmente conhecida como a “pílula do câncer”. O caso passou a ser citado por especialistas como um alerta histórico sobre os riscos de se flexibilizar etapas científicas diante da urgência política e do desespero de pacientes e familiares em busca de alternativas terapêuticas.
Assim como ocorre agora, a fosfoetanolamina ganhou notoriedade pública antes de ser submetida a testes clínicos em humanos conforme os protocolos exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em 2016, sob forte mobilização popular e em meio a intenso debate no Congresso Nacional, foi aprovada uma lei que autorizava o uso da substância mesmo sem registro sanitário ou comprovação científica de eficácia e segurança. Desenvolvida inicialmente em um laboratório de química da USP São Carlos, a substância passou a ser distribuída gratuitamente a pacientes que acreditavam nas promessas de cura total divulgadas à época.
A liberação da chamada “pílula do câncer” sem o crivo científico gerou consequências consideradas graves pela comunidade acadêmica e por entidades médicas. Muitos pacientes, movidos pela esperança depositada em uma substância sem comprovação, abandonaram tratamentos convencionais com eficácia demonstrada, como quimioterapia e radioterapia. Posteriormente, testes conduzidos pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e acompanhados por instituições como o INCA apontaram a ausência de eficácia do composto no tratamento do câncer, frustrando expectativas e ampliando o debate sobre responsabilidade científica e institucional.
Diante da controvérsia, a norma que permitia a distribuição foi questionada judicialmente e acabou sendo derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Na decisão, a Corte destacou a inexistência de estudos capazes de atestar que a substância era segura ou eficaz, reforçando que a liberação de medicamentos depende de critérios técnicos e evidências consolidadas. O episódio foi classificado por pesquisadores como “uma das maiores vergonhas da ciência brasileira”, expressão que passou a simbolizar o conflito entre ciência, política e opinião pública.
No momento atual, a polilaminina enfrenta um processo semelhante de judicialização precoce. Mesmo ainda em fase inicial de testes clínicos, dezenas de pessoas têm recorrido à Justiça para tentar garantir o acesso à molécula antes da conclusão dos estudos de segurança da fase 1. Especialistas alertam que decisões individuais podem interferir na condução adequada das pesquisas e comprometer a integridade metodológica dos ensaios.
O histórico da fosfoetanolamina é frequentemente lembrado como um precedente que evidencia os riscos da desinformação e da quebra de protocolos éticos. Pesquisadores ressaltam que a proteção do paciente está justamente no rigor do método científico, que envolve etapas como isolamento de variáveis, uso de grupos controle, avaliação estatística e revisão por pares. Ignorar essas fases em nome de uma esperança imediata pode, segundo a comunidade científica, não apenas expor pessoas a riscos desnecessários, mas também comprometer a credibilidade da pesquisa e atrasar descobertas que poderiam, de fato, se mostrar seguras e benéficas à sociedade.