sexta-feira, 6 de março de 2026
Caso Banco Master

Cerco a Daniel Vorcaro preocupa classe política brasileira

Nos bastidores de Brasília, cresce temor de que dono do Banco Master, cada vez mais encurralado, decida revelar detalhes do esquema em troca de benefícios

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em 6 de março de 2026
Cerco a Daniel Vorcaro preocupa classe política brasileira
Divulgação das mensagens de Vorcaro com políticos, ministros do STF e líderes partidários alimenta temor na classe política. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ABr

Bruno Goulart

O avanço das investigações sobre o caso do Banco Master e a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro ampliaram a pressão sobre parte da elite política brasileira. A divulgação de mensagens extraídas do celular do empresário pela Polícia Federal revela contatos frequentes com autoridades dos três Poderes e reforça a percepção de que o cerco em torno do banqueiro se fechou de vez, cenário que já provoca apreensão nos bastidores do Congresso e do Judiciário.

As conversas, trocadas entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025 com a namorada do empresário, a modelo Martha Graeff, mostram a rotina de encontros, viagens e articulações políticas do dono da instituição financeira, que foi liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025 após suspeitas de fraudes e problemas de liquidez. Entre os nomes citados nas mensagens aparecem figuras de grande peso institucional, como os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, além de lideranças políticas, como o presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira (PI), o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e os presidentes do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (UB-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB).

Vorcaro foi preso preventivamente na última quarta-feira (4) por decisão do ministro André Mendonça, do STF, suspeito de ameaçar opositores, jornalistas e funcionários, além de responder por irregularidades financeiras. A investigação também revelou que dirigentes partidários chegaram a utilizar aeronaves particulares do banqueiro, o que ampliou a repercussão política do caso.

Donos do poder

Entre os nomes citados nas conversas, o senador Ciro Nogueira aparece com destaque. Em mensagens, Vorcaro se refere ao parlamentar como “um dos meus grandes amigos de vida” e celebra a apresentação de uma proposta legislativa que poderia beneficiar o banco. A chamada “emenda Banco Master”, apresentada por Nogueira, previa elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão por depositante, medida que acabou rejeitada.

Diante desse cenário, a principal dúvida no meio político é até onde as investigações podem chegar. Há quem avalie que o caso pode atingir nomes importantes da política nacional. Por outro lado, também existe a percepção de que o escândalo pode ficar limitado a um círculo restrito de relações.

Reflexo em Goiás

Para o mestre em História e especialista em políticas públicas Tiago Zancopé, o impacto eleitoral do caso tende a ser restrito em Estados onde não há nomes diretamente envolvidos nas investigações. Segundo Zancopé, esse é o caso de Goiás. “Enquanto não tiver nenhum nome goiano de peso nessa lista do Vorcaro, eu não vejo esse escândalo afetar o Estado de Goiás ou influenciar a eleição aqui”, afirma ao O HOJE. Na avaliação do analista, a disputa eleitoral no Estado já estaria definida por outra lógica política, a polarização entre caiadismo e bolsonarismo.

Leia mais: Caso Banco Master pode “quebrar metade de Brasília” ou acabar engavetado

Nesse cenário, Zancopé avalia que o caso do Banco Master está mais ligado à dinâmica política de Brasília do que às disputas regionais. “Esse escândalo tem mais a ver com a política do Distrito Federal. Os players de lá é que precisam colocar as barbas de molho”, afirma, ao citar o governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), sua vice, Celina Leão (PP), e o ex-governador José Roberto Arruda (PSD).

Ainda assim, o caso levanta questionamentos sobre possíveis reflexos indiretos nas alianças que estão sendo montadas para as eleições. Em especial, partidos como PL e PP podem enfrentar desgaste político, já que parte de suas lideranças aparece nas conversas do banqueiro. No caso do PL, a situação pode ser sensível por causa do discurso anticorrupção que marca o campo político bolsonarista. Já o PP, comandado nacionalmente por Ciro Nogueira, aparece no centro das revelações divulgadas até agora.

Calendário eleitoral curto

Mesmo assim, o analista pondera que o calendário eleitoral curto pode limitar o alcance do escândalo nas disputas estaduais. “O calendário político deste ano é curto. Em agosto já começam as convenções, depois vem a campanha e, em outubro, a eleição”, observa Zancopé.

Para o analista, o caso revela um problema estrutural da política brasileira: a proximidade entre elites financeiras e setores do poder institucional. “Esse escândalo mostra de maneira muito crua como existe no Brasil uma casta que se beneficia a si própria”, afirma.

O especialista compara a situação com a análise clássica do jurista Raymundo Faoro sobre a formação do Estado brasileiro. “É impossível não lembrar de ‘Os Donos do Poder’. O que aparece agora é justamente essa elite política e financeira de Brasília protegendo interesses entre si”, observa. (Especial para O HOJE)

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