Mulheres já são mais de 30% à frente da gestão financeira das famílias
Pesquisa mostra que 34% são as únicas provedoras do lar e, em Goiás, elas lideram renegociação de dívidas, com 36.626 acordos em fevereiro
As mulheres têm ocupado cada vez mais espaço na organização financeira das famílias brasileiras. Dados recentes mostram que elas não apenas participam das decisões econômicas dentro de casa, mas também assumem, em muitos casos, o papel de principais provedoras.
Em Goiás, esse protagonismo também aparece quando o assunto é renegociação de dívidas: somente em fevereiro foram registrados 70.048 acordos, sendo 36.626 feitos por mulheres, contra 31.089 por homens, além de 2.333 sem identificação de gênero.
A realidade reflete uma transformação no perfil das famílias. Uma pesquisa da Serasa, realizada em parceria com o Instituto Opinion Box, aponta que 34% das mulheres são as únicas responsáveis pelo sustento financeiro do lar. O levantamento também mostra que mais da metade delas lidera a organização do orçamento doméstico, administrando gastos, planejando despesas e buscando alternativas para manter as contas equilibradas.
Mesmo com esse avanço, os desafios permanecem. O estudo revela que 91% das mulheres afirmam que equilibrar trabalho e tarefas domésticas é um desafio constante, evidenciando a sobrecarga enfrentada por muitas delas. Ainda assim, o papel feminino nas finanças familiares tem sido cada vez mais reconhecido: 85% das entrevistadas acreditam que as mulheres conquistaram mais espaço nas decisões econômicas da casa.
Esse cenário também se confirma na prática. A advogada Apoliana Moreira é um exemplo de como muitas mulheres assumem a responsabilidade financeira da família. Antes de conquistar a profissão atual, ela sustentava o lar onde vive com a filha por meio de diferentes trabalhos, como vendas de cosméticos e atuação como atendente.
“Antes de me tornar advogada, eu já tinha a responsabilidade de sustentar minha casa. Trabalhei com vendas de cosméticos e também como atendente para garantir o sustento meu e da minha filha”, conta.
Segundo Apoliana, essa experiência exigiu organização e planejamento financeiro. “Ser responsável pelas finanças do lar exige planejamento e muita disciplina. Aprendi, ao longo do tempo, a organizar cada gasto para que nada faltasse em casa”, afirma.
Mesmo nos períodos mais difíceis, ela buscou alternativas para manter as contas em dia. “Nunca deixei de procurar formas de garantir renda. As vendas de cosméticos foram uma alternativa importante para manter o orçamento equilibrado”, relembra. Hoje, já consolidada na carreira jurídica, continua sendo a responsável pela administração financeira da casa. “Essa experiência me ensinou muito sobre responsabilidade e planejamento”, completa.
Para o economista Leonardo Ferraz, o protagonismo feminino na gestão financeira tem raízes históricas e sociais. “Esse protagonismo se dá principalmente por fatores culturais. Historicamente, as mulheres sempre tiveram forte participação na gestão cotidiana da casa, controlando despesas e organizando o orçamento doméstico. Com o tempo, esse papel se ampliou também para a administração financeira e a renegociação de dívidas”, explica.
Segundo ele, o aumento da participação feminina no mercado de trabalho também contribuiu para essa mudança. “Nas últimas décadas cresceu o número de famílias chefiadas por mulheres. Em muitos lares, inclusive em Goiás, elas passaram a ser as principais responsáveis pela renda ou pelo equilíbrio financeiro da casa”, afirma.
Os dados de renegociação de dívidas também refletem esse comportamento. Para o economista, o fato de mais mulheres procurarem acordos não significa necessariamente maior endividamento, mas sim maior iniciativa na busca por soluções financeiras. “Isso demonstra uma postura ativa para reorganizar o orçamento familiar e recuperar o acesso ao crédito”, destaca.
A maior presença feminina na administração das finanças domésticas também pode impactar positivamente a economia das famílias. De acordo com Ferraz, mulheres costumam priorizar gastos essenciais e planejamento de longo prazo, o que favorece decisões financeiras mais cautelosas e sustentáveis.
Mesmo com avanços, especialistas apontam que políticas de educação financeira, acesso a crédito mais justo e programas de renegociação de dívidas são fundamentais para fortalecer a autonomia econômica das mulheres e ajudar as famílias a evitar novos ciclos de endividamento.