Polilaminina reacende debate científico após pesquisadora admitir erros em estudo
Pesquisa liderada por Tatiana Sampaio gera esperança em pacientes, mas também críticas após a própria pesquisadora admitir falhas em publicações preliminares sobre a polilaminina analisadas pela Anvisa
A ciência brasileira vive um momento de intensa polarização em torno da polilaminina, uma molécula desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com o objetivo de tratar lesões medulares. Enquanto vídeos de pacientes que recuperaram movimentos após a aplicação da substância viralizam nas redes sociais, gerando uma onda de otimismo e uma corrida ao Judiciário, entidades científicas e especialistas alertam para a necessidade de cautela e para a manutenção do rigor metodológico. Recentemente, a bióloga Tatiana Sampaio, líder da pesquisa, admitiu erros em publicações preliminares e propôs novos desenhos para os estudos clínicos, em uma tentativa de conciliar a pressão por resultados com as exigências regulatórias.
A polilaminina não é uma substância nova no corpo humano, mas sua síntese em laboratório é o resultado de mais de 25 anos de investigação. A descoberta ocorreu quase por acaso, quando Tatiana tentava dissociar partes da laminina, uma proteína essencial para o suporte celular, e percebeu que as moléculas, em vez de se partirem, uniam-se formando uma rede. No sistema nervoso, essa proteína atua como uma base para o crescimento dos axônios, as extensões dos neurônios responsáveis por transmitir sinais elétricos entre o cérebro e os músculos.
Quando ocorre um trauma na medula, esses axônios são rompidos, interrompendo a comunicação motora e sensorial. A hipótese central da pesquisa é que a polilaminina, quando injetada no local da lesão, atua como uma “ponte biológica”, fornecendo o suporte necessário para que os axônios voltem a crescer e restabeleçam as conexões perdidas.
O entusiasmo público em torno da droga explodiu no início de 2026, quando Sampaio passou a conceder entrevistas ao lado de Bruno Drummond de Freitas. Bruno, que ficou tetraplégico após um acidente em 2018, recebeu a polilaminina no âmbito de um estudo piloto e, após um intenso processo de reabilitação, voltou a andar.
Este estudo piloto, conduzido entre 2016 e 2021, envolveu apenas oito voluntários com lesões completas. Além de Bruno, que apresentou melhora total, outros quatro pacientes demonstraram ganhos motores parciais, evoluindo na escala AIS (que mede a gravidade da lesão) de um nível A (completo) para um nível C. No entanto, o estudo também registrou mortes: dois pacientes faleceram ainda no hospital devido à gravidade do trauma inicial e um terceiro morreu pouco tempo depois por complicações do ferimento.
Apesar dos resultados promissores, a divulgação da pesquisa em formato de pré-print — uma versão preliminar que ainda não passou pela revisão por pares — atraiu duras críticas da comunidade científica. Especialistas apontaram inconsistências graves nos dados apresentados. O erro mais notável envolvia um gráfico que mostrava a evolução de um paciente ao longo de 400 dias, quando, na realidade, o texto indicava que esse mesmo indivíduo havia falecido apenas cinco dias após o procedimento.
Em entrevista, Tatiana admitiu as falhas, classificando-as como “erros de digitação” e problemas de redação. Ela revelou que o manuscrito revisado já foi submetido e rejeitado por periódicos de prestígio, como Nature Communications e o Journal of Neurosurgery. A pesquisadora agora trabalha em uma nova versão do artigo para tentar a publicação oficial, mantendo a convicção de que os erros formais não alteram a eficácia da molécula.
Outro ponto de atrito envolve o diagnóstico de choque medular. Críticos argumentam que, como a polilaminina foi aplicada poucas horas após o trauma, alguns pacientes poderiam ter recuperado movimentos espontaneamente após o fim do choque inicial. Tatiana rebate essa tese, afirmando que todos os voluntários do piloto passaram por testes específicos (reflexo bulbocavernoso ou sinal de Babinski) que descartaram essa condição antes da aplicação.
A maior divergência entre a equipe da UFRJ e as sociedades médicas (como a Academia Brasileira de Neurologia) reside na ausência de um grupo controle no estudo piloto. Tradicionalmente, para provar que um remédio funciona, metade dos pacientes deve receber o tratamento e a outra metade um placebo. Tatiana sustenta que, em casos de paralisia total, deixar pacientes sem acesso a uma droga potencialmente benéfica seria “antiético”.
Fases do estudo precisam de atenção
Para a Fase 2 dos estudos clínicos, prevista para começar em 2027, a pesquisadora e o laboratório Cristália (que detém os direitos da molécula e investiu R$ 100 milhões no projeto) avaliam propor um “grupo controle pareado”. Esse método utilizaria dados de grandes coortes internacionais de pacientes (registros como o NACTN norte-americano ou o EMSCI europeu) para comparar a evolução de quem não recebeu a droga com a dos voluntários brasileiros. Essa proposta, no entanto, ainda precisa ser aprovada pela Anvisa e pela Conep.
Enquanto o debate científico se arrasta, a Anvisa autorizou, em janeiro de 2026, o início da Fase 1 dos testes regulatórios em humanos. Esta etapa, focada exclusivamente na segurança, envolverá cinco voluntários com lesões torácicas agudas (entre T2 e T10) e deve ser realizada no Hospital das Clínicas da USP. A expectativa é que o recrutamento comece em abril de 2026, com resultados preliminares até o final do mesmo ano.
Contudo, a realidade nos tribunais corre à frente dos laboratórios. A repercussão midiática levou dezenas de famílias a acionarem a Justiça para obter o tratamento. Até o momento, o laboratório Cristália já foi alvo de cerca de 40 ações judiciais, e pelo menos 22 aplicações fora dos ensaios clínicos formais foram realizadas. Especialistas alertam que esse fenômeno de “judicialização precoce” pode comprometer a integridade dos estudos científicos e dificultar a formação de grupos de comparação robustos.
Uma das vozes mais críticas à condução atual da pesquisa é a da Dra. Linamara Rizzo Battistella, referência nacional em reabilitação. Para a médica, o papel da fisioterapia está sendo subestimado nos protocolos da polilaminina. Ela argumenta que o protocolo inicial, que previa apenas três sessões de fisioterapia por semana, é “absolutamente insuficiente” para pacientes com lesão medular.
A pesquisadora mantém o otimismo, acreditando que, se a segurança e a eficácia forem confirmadas, o medicamento poderá obter registro para uso em lesões agudas em cerca de dois anos. Para pacientes com lesões crônicas, o caminho será mais longo e complexo devido às cicatrizes biológicas que impedem a regeneração nervosa.
Atualmente, cerca de 30 pessoas já receberam a substância (entre estudos e uso compassivo ou judicial), das quais quatro morreram. A Anvisa já solicitou os dados consolidados desses pacientes para análise. O próximo grande marco será o término da Fase 1 em novembro de 2026. Até lá, a polilaminina permanece em uma zona cinzenta entre o potencial de revolucionar o tratamento de paralisias e a necessidade de sobreviver ao crivo impiedoso da validação científica internacional.