Pressão cresce e Alcolumbre tenta conter crise com sessões semipresenciais
Modelo decretado pelo presidente do Senado ocorre no momento em que parlamentares pressionam por CPI do Master, impeachment de ministros do STF e prorrogação de comissão do INSS
Bruno Goulart
A decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), de decretar uma semana semipresencial de trabalhos na Casa ocorre em meio a um ambiente de forte pressão política em Brasília. A medida reduz a presença física de parlamentares no Congresso justamente no momento em que o senador é cobrado a tomar decisões sobre temas sensíveis, como pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a instalação de uma CPI para investigar o Banco Master e a prorrogação da comissão que apura irregularidades no INSS.
Na prática, o formato híbrido permite que senadores participem das sessões de forma remota, o que tende a esvaziar o debate político presencial e reduzir a mobilização nos corredores do Congresso. O movimento ocorre após novas revelações que envolvem o empresário Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, que intensificaram a pressão de parlamentares da oposição e de parte do próprio Senado.
Demandas
Entre as demandas dirigidas a Alcolumbre estão três frentes. A primeira envolve pedidos de impeachment de ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes. A segunda trata da prorrogação da comissão que investiga possíveis irregularidades no INSS, prevista inicialmente para encerrar os trabalhos no dia 28 de março. Já a terceira diz respeito à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) específica para investigar supostas relações entre integrantes do Supremo e o Banco Master, proposta que já reúne 35 assinaturas de senadores.
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Diante desse cenário, a adoção do regime semipresencial é interpretada por parte dos analistas políticos como uma tentativa de ganhar tempo e reduzir momentaneamente a pressão sobre a presidência do Senado.
Para o mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé, a estratégia pode funcionar apenas no curto prazo. Segundo Zancopé, o esvaziamento das sessões tende a aliviar o ambiente político por alguns dias, mas dificilmente resolverá o impasse institucional que se desenha no Senado.
“A estratégia de Alcolumbre de esvaziar as votações do Senado pode funcionar por esta semana e, no limite, até a semana que vem. Mas a questão é que, em algum momento, ele terá que pautar isso”, afirma.
Zancopé avalia que a tentativa pode estar ligada a um cálculo político de empurrar o debate até o período da Semana Santa, quando o ritmo do Congresso tradicionalmente diminui. Ainda assim, o especialista considera difícil que o assunto perca força até lá. “Eu não acho que ele consiga segurar essa situação até o feriado da Páscoa. Talvez esteja tentando empurrar o assunto até a Semana Santa para ver se ele perde intensidade”, observa.
Delação premiada
O analista argumenta que o caso do Banco Master ainda tem potencial de gerar novos desdobramentos políticos e jurídicos, principalmente após a revelação de anotações atribuídas a Daniel Vorcaro. A possibilidade de uma eventual colaboração com as autoridades também é vista como um fator que pode manter o tema no centro do debate público.
“É difícil imaginar que esse caso envolvendo o Banco Master, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli vá arrefecer, sobretudo agora que vieram à tona as anotações de Vorcaro, o que pode levá-lo a ensaiar, ou não, uma delação premiada”, afirma.
Segundo Zancopé, as suspeitas levantadas até agora apontam para um possível esquema estruturado em torno do banco. “Fica cada vez mais evidente que esse ecossistema que Daniel Vorcaro montou foi pensado justamente para blindar o Banco Master, que, ao que tudo indica, fazia muitas operações à margem da lei.”
Chefe de quadrilha
Na avaliação do especialista, o empresário pode enfrentar consequências graves caso as suspeitas se confirmem. “Nesse sentido, Daniel Vorcaro estaria muito mais próximo de agir como chefe de uma quadrilha do que como dirigente de uma instituição financeira”, acrescenta.
Outro elemento que aumenta a pressão sobre Alcolumbre é o calendário político. Mesmo com a proximidade da Semana Santa, ainda restam semanas de atividade parlamentar até o feriado, o que amplia a possibilidade de novos fatos políticos surgirem. “Considerando que ainda há dias de atividade legislativa pela frente, o tempo parece jogar contra essa estratégia. A tendência é que a pressão continue alta”, conclui Zancopé.
Enquanto isso, Alcolumbre também tem mantido uma agenda reduzida em Brasília. Nesta semana, por exemplo, o senador não participou de compromissos institucionais no Senado e designou o presidente da Comissão de Relações Exteriores, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), para representá-lo em um encontro com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa. A reunião acabou sendo cancelada. (Especial para O HOJE)