Trend “Redpill” violenta com mulheres vira alvo de inquérito da Polícia Federal
Enquanto PF apura vídeos da trend “caso ela diga não”, Estado registra aumento de processos por violência contra a mulher e soma 60 feminicídios em 2025
Em uma ofensiva coordenada para conter a escalada de violência de gênero no ambiente digital, a Diretoria de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal (PF) instaurou um inquérito para investigar a propagação da trend conhecida como “caso ela diga não”. A medida, que resultou na derrubada de diversos perfis em redes sociais nesta segunda-feira (9), busca desarticular grupos que utilizam plataformas de vídeos curtos para incitar diretamente agressões contra mulheres. A abertura do inquérito federal marca uma nova etapa na responsabilização de criadores de conteúdo que simulam reações violentas diante de rejeições amorosas.
A apuração ocorre em um momento crítico, visto que o Brasil registrou um recorde de 1.470 feminicídios em 2025, uma média de quatro mortes por dia. Autoridades avaliam que fenômenos como essa trend funcionam como combustível para essa realidade, transformando discursos misóginos e encenações de agressão em conteúdo viral e, muitas vezes, monetizado.
A trend que mobilizou a PF consiste em vídeos onde jovens encenam pedidos de namoro ou casamento que, após uma suposta negativa da mulher, culminam em simulações de golpes de luta, socos em objetos e até o uso de facas ou armas. Embora apresentados sob o pretexto de “humor”, os vídeos acumulam centenas de milhares de interações, alcançando principalmente adolescentes e jovens adultos.
Para o deputado federal Pedro Campos (PSB-PE), autor de um requerimento para que a Procuradoria Geral da República (PGR) também investigue o caso, essas publicações configuram clara apologia ao crime. Ele afirma que tais conteúdos representam uma tentativa de “atualizar o machismo e o patriarcado para o século 21 através da internet” como resposta à perda de papéis tradicionais de comando masculinos. A gravidade do tema é ilustrada por casos reais, como o de uma jovem no Rio de Janeiro que foi esfaqueada 15 vezes após recusar investidas, sobrevivendo por pouco após um mês de internação.
Enquanto o cerco digital se fecha, os dados de campo em Goiás revelam a persistência da violência física e psicológica. Recentemente, operações coordenadas pelo Governo Federal resultaram na prisão de 388 suspeitos de crimes contra mulheres no Estado. A Operação Mulher Segura foi responsável por 366 detenções, enquanto a Operação Alerta Lilás II, conduzida pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), efetuou 22 prisões em cumprimento de mandados.
No cenário nacional, as operações resultaram na prisão de 5.238 suspeitos, mobilizando mais de 38 mil agentes de segurança. Essas ações integram o Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio, que visa fortalecer a proteção às vítimas e garantir a responsabilização de agressores.
Em Goiás, os números de 2025 são alarmantes: até novembro, o Estado registrou 55.689 novos processos relacionados à violência contra a mulher, superando o total de 2024. O Estado ocupa a 7ª posição nacional em volume de atendimentos no Ligue 180 e a 9ª posição no ranking de violência psicológica. Até o fim de 2025, 60 mulheres foram vítimas de feminicídio em Goiás, mantendo o patamar trágico do ano anterior. Outro dado preocupante é o descumprimento de medidas protetivas, que somam 5.225 casos no mesmo período.
A delegada Ana Elisa Gomes, titular da Delegacia Estadual de Atendimento Especializado à Mulher (Deaem) de Goiás, traz uma análise profunda sobre as dificuldades de combate a esses crimes. Com 22 anos de carreira, ela destaca que a violência doméstica é complexa por ocorrer dentro de casa e envolver sentimentos pessoais, dificultando a decisão da mulher de denunciar o pai de seus filhos ou parceiro.
Sobre a violência psicológica, que cresceu em Goiás, a delegada explica que, ao contrário da física, ela não deixa marcas visíveis, mas exige um trabalho investigativo minucioso para comprovar o dano emocional. Ana Elisa enfatiza que a violência psicológica é onipresente e silenciosa, ocorrendo em momentos cotidianos como refeições e na hora de dormir, gerando sequelas como depressão, automutilação e perda de rendimento no trabalho. Ela acredita que as vítimas de violência psicológica superam as da física, pois a agressão física geralmente é o ápice de um ciclo que começou com abusos psicológicos.
A delegada também alerta para a “cifra negra”, estimando que nem 20% da violência praticada chega ao conhecimento das autoridades. “As cifras negras são assustadoras. Nós não sabemos de fato a realidade do Brasil”, pontua. No entanto, ela reforça que a medida protetiva salva vidas, notando que a grande maioria das vítimas de feminicídio em Goiás (cerca de 44 das 50 analisadas em um dado momento) nunca havia feito registro policial prévio.
Movimentos como machosfera e discurso “Redpill” preocupam autoridades
Um ponto central na análise da delegada e nas investigações da PF é a influência de movimentos misóginos digitais, conhecidos como “Redpill” e integrados à chamada “machosfera”. A especialista observa uma mudança de comportamento dos agressores: “Eu não tenho dúvidas que há, sim, um estímulo, um movimento que encoraja, que empodera homens nesse quesito, eu acredito que eles têm um incentivo através desses movimentos Redpill”.
Um dos conceitos centrais desse universo é o chamado “Redpill”, expressão inspirada no filme The Matrix. Na interpretação difundida nesses grupos, homens estariam “despertando” para uma realidade em que o feminismo supostamente oprime o gênero masculino e as mulheres seriam, por natureza, manipuladoras ou interesseiras.
Dentro desse ambiente digital surgem diferentes subgrupos, com níveis variados de radicalização. Entre eles estão os chamados incels (celibatários involuntários), que atribuem às mulheres ou à biologia a dificuldade de estabelecer relacionamentos e mantém fóruns marcados por discursos de hostilidade. Há também o movimento MGTOW (Men Going Their Own Way), que defende o afastamento total das mulheres sob o argumento de que relacionamentos representariam riscos jurídicos ou financeiros.
Outro segmento são os PUAs (Pick-Up Artists), que tratam a interação social como um sistema de técnicas voltadas à manipulação e ao descarte do corpo feminino. Circula ainda a chamada “regra 80/20”, narrativa segundo a qual 80% das mulheres buscariam apenas os 20% de homens considerados “alpha”, ideia que alimenta ressentimentos em parte desses grupos. O processo de radicalização costuma atingir jovens com baixa autoestima ou dificuldades de socialização, oferecendo-lhes um senso de pertencimento baseado no ódio externo.
Ana Elisa observa que esses movimentos criam um “acordo moral” deturpado e encorajam comportamentos onde os homens “estão aceitando tudo”, não temendo a cadeia nem a própria morte. Autoridades reforçam que incitação à violência e apologia ao crime são infrações penais. Para denúncias, o canal nacional é o Ligue 180, e iniciativas como os projetos Fala Homem e Memoh buscam oferecer espaços para a construção de masculinidades mais saudáveis.